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domingo, 7 de janeiro de 2018

Será que deus está do lado de fora do Universo?




Às vezes, os teólogos afirmam que deus existe fora do nosso Universo. Não tenho a certeza de haver apoio bíblico para tal reivindicação. A bíblia parece sugerir que deus está bem dentro do nosso universo: seja mesmo na atmosfera da Terra, e de tempos em tempos caminhando ao nosso lado em terra firme. Mas não nos vamos esquivar sobre como os teólogos poderiam saber disso, pensemos no que significa estar fora do universo.

Se o Universo tiver um limite, ele será criado pela velocidade da luz (299,792,458 metros por segundo).
Para estares fora do Universo, tu tens de estar mais longe do ponto inicial do Big Bang do que a luz poderia viajar nos 13,8 mil milhões de anos desde então. Se tu estivesses APENAS fora do universo, tu terias que estar viajando à velocidade da luz e AFASTADO do universo para permanecer nessa mesma posição relativa. Se tu estivesses mais longe, mas não viajando à velocidade da luz, seria apenas uma questão de tempo antes de seres engolido pelo Universo.

Isso levanta outra questão. Se deus está fora do Universo, como é que ele se comunica com as pessoas dentro do Universo? Tanto quanto eu posso saber (eu posso estar enganado), isso exigiria que deus violasse a velocidade da luz. Mas Einstein disse que isso não pode ser feito e tudo o que aprendemos desde então, o confirmou.

Para que um deus fora do universo comunique comigo, ele precisaria de uma maneira de enviar mensagens...
(1) que pudessem viajar mais rápido do que a velocidade da luz; 
(2) que meu cérebro molecular orgânico poderia receber e entender; 
(3) que não pudessem ser detectados pelos nossos detectores de sinal mais sensíveis (caso contrário, teríamos descoberto já o canal que deus usa), e 
(4) para eu falar com deus, meu cérebro deve ser capaz de codificar e transmitir esses mensagens de alta velocidade.

Então, para que deus esteja fora do universo e que consiga comunicar comigo, não só ele teria que violar o limite absoluto da velocidade da luz, mas também eu!

Deus é muito difícil de ser encontrado, mas, se ele estiver fora do Universo, ele seria impossível de ser encontrado. Os crentes talvez devam repensar toda essa ideia!

Traduzido e adaptado de Bill Flavell

sábado, 23 de setembro de 2017

O Universo tem um propósito?




É improvável.
Talvez você esperasse uma afirmação mais forte, num sentido ou noutro. Mas, como cientista, não acho que possa fazê-lo. Enquanto nada na biologia, química, física, geologia, astronomia ou cosmologia jamais forneceu evidências diretas de haver propósito na natureza, a ciência nunca poderá provar acima de qualquer dúvida que não tal propósito não existe. Como disse Carl Sagan, em outro contexto: ausência de evidência não é evidência de ausência.

Naturalmente, nada impediria que a ciência descobrisse evidências positivas de orientação ou propósito divinos, se estas estivessem ao nosso alcance. Por exemplo, se amanhã à noite olhássemos as estrelas, e elas estivessem organizadas em um padrão que diz “Estou aqui”, acho que até os céticos mais aferrados da ciência suspeitariam que algo está acontecendo.

Mas nenhum desses sinais inequívocos foi encontrado entre os milhões e milhões de conjuntos de dados que coletamos a respeito do mundo natural ao longo de séculos de exploração. E é precisamente essa a razão pela qual um cientista pode concluir que é muito improvável haver qualquer propósito divino. Se um criador tivesse tal propósito, poderia escolher demonstrá-lo de uma forma um pouco mais clara aos habitantes de sua criação.

Sempre estaremos livres, como fazem algumas pessoas, para interpretar as leis da natureza como indícios de propósito; por exemplo, o Papa Pio quando o físico belga George Lemaitre demonstrou que a teoria geral da relatividade de Einstein implicava que o universo teve um começo. Isso foi interpretado pelo Papa como uma prova científica do Génesis, mas Lemaitre pediu que parasse de fazer tal afirmação. O Big Bang, como tornou-se conhecido, pode ser interpretado em termos de origem divina, mas pode ser igualmente interpretado como remover deus completamente da equação. A conclusão está na mente do observador, e está fora do âmbito da teoria e predição científicas.

Finalmente, mesmo se o universo tiver um propósito oculto, tudo o que sabemos sobre o cosmos sugere que não desempenhamos um papel central nele. Nós somos, enquanto planeta, cosmicamente insignificantes. A vida na terra acabará, como provavelmente já acabou em incontáveis outros planetas no passado, e acabará no futuro. Todas as estrelas e todas as galáxias que vemos poderiam desaparecer num instante, e o universo continuaria comportando-se mais ou menos como o faz agora. A natureza parece ser tão impassível quanto é inflexível.

Portanto, religiões organizadas, que colocam a humanidade no centro de algum plano divino, parecem ser um afronta à nossa dignidade e à nossa inteligência. Um universo sem propósito não deveria nos deprimir, tampouco sugerir que nossas vidas são inúteis. Como parte de uma inspiradora história cósmica, nós nos vemos num remoto planeta neste remoto canto do universo, dotados de inteligência e autoconsciência. Nós não deveríamos nos desesperar, mas humildemente nos alegrar em aproveitar ao máximo esses dons, e celebrar nosso breve momento ao sol.


terça-feira, 11 de abril de 2017

Os Físicos na história e deus.



É verdade que, por vezes, os cientistas são religiosos, ou pelo menos supersticiosos. Sir Isaac Newton, por exemplo, foi um espiritualista e alquimista bastante ridículo. Fred Hoyle, um ex-agnóstico que se apaixonou pela ideia do "desígnio", foi um astrónomo de Cambridge que inventou o termo Big Bang. Steven Hawking não é um crente, e quando foi convidado para ir a Roma conhecer o papa João Paulo II pediu que lhe mostrassem os registos do julgamento de Galilei. E fala sem embaraço da hipótese de a Física "conhecer a mente de Deus", o que parece agora tão inofensivo como uma metáfora, como por exemplo quando os Beach Boys cantam, ou eu digo, "só Deus sabe...".

Antes de Charles Darwin ter revolucionado todo o conceito das nossas origens, e Albert Einstein ter feito o mesmo em relação ao começo do Cosmos, muitos cientistas, filósofos e matemáticos adoptavam o que podia ser considerada a posição de ausência e professavam uma ou outra versão do "deísmo", que defendia que a ordem e a previsibilidade do universo pareciam, de facto, sugerir um criador, se bem que não necessariamente um criador com um papel activo nos assuntos humanos. Este compromisso era lógico e racional para o seu tempo, ...

Laplace (1749-1827) foi o brilhante cientista francês que levou o trabalho de Newton ainda mais longe e demonstrou, através de cálculos matemáticos, como as operações do sistema solar eram as de corpos a girar sistematicamente num vácuo. Mais tarde, quando começou a estudar as estrelas e as nebulosas, postulou a ideia do colapso e implosão gravitacionais, ou o que agora chamamos alegremente o "buraco negro". Num livro em cinco volumes intitulado Celestial Mechanics, ele expôs tudo isto e, como muitos homens da sua época, também estava intrigado com o planetário, um modelo articulado do sistema solar visto, pela primeira ver, de fora. Estes modelos são agora lugares-comuns, mas na época foram revolucionários e o imperador pediu para conhecer Laplace e para receber um conjunto dos livros ou (os relatos diferem) uma versão do planetário. 

Pessoalmente, desconfio que o coveiro da Revolução Francesa preferiu o brinquedo aos livros: era um homem com pressa e tinha conseguido que a igreja batizasse a sua ditadura com uma coroa. De qualquer modo, e ao seu estilo infantil, exigente e imperioso, quis saber porque é que a figura de deus não aparecia nos cálculos inovadores de Laplace. E aqui têm a resposta fantástica, sublime e ponderada. "Je n'ai pas besoin de cette hypothèse". (*) Laplace ia tornar-se marquês e talvez pudesse ter dito de forma mais modesta, "Resulta bastante bem sem essa ideia, Majestade". 
Mas declarou simplesmente que não precisava dela.


(*) "Não preciso dessa hipótese."


Christopher Hitchens in "deus não é grande".