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sábado, 26 de outubro de 2019

O personagem Jesus Cristo



Nos primeiros três séculos, a diversidade de perspectivas sobre quem era Jesus e o que significava ser cristão eram enormes, tanto que no consenso atual dos historiadores e teólogos recomenda-se falar nos cristianismos primitivos, (no plural).

O NOVO TESTAMENTO
O cânone do novo testamento demorou a ser estabelecido, até porque o cânone do Judaísmo, o antigo testamento, ainda não estava definido.
É possível que o cânone judaico só tenha sido definido no século II.
No início, os cristãos consideravam os livros sagrados judaicos.

O PRIMEIRO AUTOR CRISTÃO
A primeira epístola aos Tessalonicenses, escrita por Paulo provavelmente no ano 51, foi o primeiro texto de autor cristão, cita trechos do Pentateuco e dos profetas israelitas. Da vida de Jesus, Paulo só fala da última ceia, que foi crucificado e ressuscitou, e cita um ou outro ensinamento de Jesus. Não se sabe porque ele não fez a biografia de Jesus. As biografias de Jesus só foram escritas a partir do ano 65, quando Paulo já tinha encerrado a sua carreira apostólica.

COMUNIDADE DE JERUSALÉM
Há citações de que inicialmente os apóstolos originais, de Jesus e membros da família do Nazareno fundaram a comunidade cristã da Judeia, que pode ter acabado entre os anos 66 e 70.
As igrejas fundadas por Paulo veneravam o grupo de Jerusalém. Com o fim deste grupo acaba qualquer autoridade central.

CRISTOLOGIAS
Com o fim desta autoridade central houve uma explosão de diversidade de doutrina sobre quem afinal era Jesus. Cada doutrina é chamada de cristologia, segundo Chevitarese, são quatro cristologias convivendo entre os anos 50 a 60.

a) Para Paulo, Jesus era o Cristo porque ressuscitou.
b) Para o evangelho de Marcos, quem fez Jesus se tornar o Cristo foi o batismo por João Batista.
c) Os evangelhos de Mateus e Lucas consideram que Jesus se tornou o Cristo a partir do seu nascimento.
d) Enquanto João vê Cristo como pré-existente no próprio mundo.

Ainda deve-se considerar que fragmentos dos evangelhos judaicos – cristãos citados por autores posteriores como Jerónimo (347-420) havia pelo menos três evangelhos da mesma linha, o Evangelho dos Nazarenos, o Evangelho dos Ebionitas e o Evangelho segundo os hebreus, que apresentava a ideia que Jesus não era divino e segunda pessoa da santíssima trindade.
O Evangelho dos Nazarenos, que parece uma versão do evangelho de Mateus, acreditava que Jesus era um ser humano especialmente bom, adotado por deus no momento do batismo.
O Evangelho dos Ebionitas fala que houve um certo homem chamado Jesus, que tinha cerca de 30 anos de idade. E foi ele quem nos escolheu.
Por outro lado, o bispo cipriota Epifânio de Salamina, morto em 403, regista que leu no Evangelho dos Ebionitas que Jesus era uma espécie de anjo encarnado – inferior a deus, mas não totalmente humano.

BIBLIOTECA PERDIDA
Em 1945, foi encontrada uma jarra selada enterrada, que continha treze códices de papiro embrulhados em couro. Os códices contêm textos sobre cinquenta e dois tratados maioritariamente gnósticos, três trabalhos pertencentes à Corpus Hermeticum e uma tradução parcial de A República de Platão. Muitos gnósticos acreditavam que Jesus não era o mesmo deus do antigo testamento, e sim, filho ou primeiro ministro do verdadeiro deus supremo.

IDEIAS EXISTENTES NA FORMAÇÃO DO CÂNONE
Marcion de Sinope rejeitava o deus sanguinário dos Judeus, e diferenciava o bondoso pai de Jesus. Ele achava que Jesus não era um humano de verdade, rejeitava o nascimento de Jesus e o cumprimento de profecias do antigo testamento na vida do Messias.

EVANGELHOS CANÓNICOS
Bispos e pensadores cristãos, como Irineu de Lyon, começaram a defender a definição de um cânone, mas este debate não parecia ter um fim, até que o cristianismo passou a ser a religião oficial do império Romano e o Imperador Constantino passa a promover a uniformização do cristianismo, e a determinação de um cânone único e coerente, o que deixou de fora dezenas de textos de cristãos judeus, gnósticos e outros "hereges". Mas Constantino não concluiu o seu projeto.
A primeira lista dos livros do novo testamento tal como é hoje, foi do ano de 367, determinada pelo bispo Atanásio de Alexandria.

A INFÂNCIA DE JESUS
Os autores dos evangelhos canónicos quase nada falam da infância e adolescência de Jesus. Jesus só aparece bebezinho e depois aos 12 anos numa passagem triunfal no Templo de Jerusalém.
Os primeiros cristãos tentavam imaginar, como era Jesus antes da vida pública.
Então foram escritos os evangelhos da infância, como o de Tomé. Especialistas como Bart Ehrman, professor de história do cristianismo antigo da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (EUA), consideram que estes trechos são midrash (textos inventados para completar narrativas, comum entre os judeus).
Um trecho de Tomé relata que Jesus estava moldando passarinhos com barro num sábado, dia santo judaico. Um judeu chama a atenção de Jesus e o menino bate palmas e as aves saem voando.
Estes textos são questionáveis, retratam um menino Jesus usando poderes milagrosos de forma fantasiosa. Num trecho, um menino começou a desfazer umas represas que ele tinha feito nas margens de um riacho. Jesus irritou-se e fez o menino secar completamente. Noutro trecho um menino passou correndo e esbarrou no seu ombro, Jesus ameaçou o menino que caiu e morreu. Noutro os aldeões vão reclamar dele com José e eles ficaram cegos e ele amaldiçoou um de seus professores. Noutro ele ressuscita um amiguinho que caiu do telhado da casa. Fez madeira crescer milagrosamente para que José terminasse seus trabalhos de carpintaria.
Especialistas como o franco alemão Oscar Culmann(1902-1999), chegam a agradecer a deus pela não inclusão dos evangelhos da infância no novo testamento.

EVANGELHOS GNÓSTICOS
Para alguns seguidores de Jesus, Tomé (gémeo, em aramaico) apelido Dídimo (gémeo) ou Dídimo Judas Tomé, autor do evangelho de Tomé, era gémeo de Cristo.
Também nas narrativas canónicas, Jesus pede aos apóstolos que lhe digam quem ele é. Tomé lhe disse: "Mestre a minha boca é totalmente incapaz de dizer o que és".
Disse então Jesus. "Não sou teu mestre, pois bebeste e te embriagaste da fonte borbulhante que eu mesmo guardo".
O evangelho de Tomé representa ideias gnósticas, que o conhecimento secreto transmitido por Jesus é o responsável pela salvação e não a fé na morte e ressurreição, pois ali nem se fala em paixão de Cristo, ele é sempre descrito como o "Jesus vivente".
O evangelho de Tomé cita que Pedro fala: "Maria tem de nos deixar, pois as mulheres não são dignas de viver".
Jesus contradiz: "Eis que eu a guiarei para torná-la masculina, para que também ela se torne espírito vivente, como vós que sois homens, pois toda mulher que se fizer homem entrará no reino dos céus".
Outro texto narra: A companheira do Salvador é Maria de Magdala. O salvador amava-a mais do que a todos os discípulos, e ele a beijava com frequência na sua boca (os termos em destaques estão ilegíveis no original).

O DOCUMENTO Q
Há uma ideia que nos primórdios do cristianismo havia um documento hoje perdido contendo os chamados lógia (declarações) de Cristo, o documento Q, que parece ter dado origem ao Evangelho de Tomé e aos Evangelhos de Mateus e de Lucas.

CONCLUSÃO
O personagem Jesus Cristo construído a partir desta descrição histórica, certamente não é a verdadeira pessoa, o Jesus que deu origem ao cristianismo.


Texto de Djair Lima

terça-feira, 26 de junho de 2018

Como a trindade foi adotada no cristianismo para transformar Jesus em deus



Divindades que se corporificam (avatar) para salvar a humanidade, imortalidade da alma, ressurreição, assim como trindades divinas, são doutrinas de origens pagãs, introduzidas gradativamente no cristianismo. Para entender o que foi o cristianismo primitivo, é necessário conhecer o significado do termo “Cristo ou Messias”. Cristo é o termo usado em português para traduzir a palavra grega Χριστός (Khristós) que significa "Ungido". O termo grego, por sua vez, é uma tradução do termo hebraico מָשִׁיחַ (Māšîaḥ), transliterado para o português como Messias. Portanto, Cristo como nome próprio ou sobrenome de Jesus (Jesus Cristo), é uma das primeiras fraudes cristãs. No mundo antigo, um rei teria que passar pelo ritual de aprovação, ministrados pelos representantes dos deuses na terra, ou seja, os sacerdotes.

Após a cerimônia religiosa, o rei tinha a sua cabeça aspergida com água ou óleo sagrado, e só então estava qualificado e consagrado rei. No antigo Israel ungiam-se os reis com o óleo sagrado (1Sa 10:1 e 1Rs 1:39). Cristianismo vem de “cristo”, significando que os primeiros cristãos eram judeus messiânicos que aguardavam a vinda de um ungido, ou melhor, de um legítimo rei de Israel, já que o país estava sendo governado por estrangeiros. O que diferenciava essa nova vertente do judaísmo do tradicional, era a crença na imortalidade da alma e na vinda do messias dos últimos dias para reunir os judeus do mundo todo em um novo Israel.

Essas crenças foram levadas para a Judeia por judeus nascidos na Babilônia, e que tiveram contatos com as religiões persas e indianas. No entanto, para eles, só havia um único e indivisível Deus (YHVH) responsável pela lei que foi dada a Moisés. “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. ” Deuteronômio 6:4. O movimento messiânico surgiu no seio do judaísmo, devido às condições político-religiosas da Judeia ocupada. Ezequias de Gamala, um descendente dos Macabeus, pretendia fundar uma teocracia na Galileia, livre dos romanos e dos seus aliados na região.

Derrotado, foi crucificado por Herodes, o Grande, e Judas bar Ezequias teve que liderar as forças da resistência. No entanto, Judas foi morto durante a rebelião do senso de Quirino, então, Jesus bar Judas liderou os galileus até ser morto como mártir. Os Judeus messiânicos aguardavam dois messias. Um que seria um guerreiro descendente de Davi para reunir as doze tribos, e outro, descendente de José, para restaurar a linhagem sacerdotal araônica. Foi nesse ambiente que surgiu a quarta seita descrita por Josefo em “guerra dos judeus”. Os helenistas, autores do Novo Testamento transformaram sinagogas em igrejas, e judeus em cristãos, vítimas do seu próprio povo, e não dos romanos. Eram antissemitas que não pertenceram ao ambiente judaico, e que faziam parte da nova ordem, a dos vencedores.

Ebionitas e nazarenos, eram seitas judaico-cristãs do século II, formadas por judeus palestinos que seguiam a lei mosaica. Falavam e escreviam em hebraico. São os últimos exemplos do que era o cristianismo primitivo. Para eles, Jesus não teria nascido de uma virgem, e nem tão pouco era filho de Deus. Eles tinham Jesus como o messias, na qualidade de profeta restaurador da lei. Portando, a trindade era desconhecida no cristianismo primitivo. E não poderia ser diferente, pois esse conceito é de origem pagã. Tertuliano, cristão semipagão, viveu entre os séculos II e III, foi quem criou a filosofia que se denominou de Trindade: “Tres Personae, una substantia” (texto original em latim). A doutrina se desenvolveu gradualmente através dos séculos, e passou por muitas controvérsias.

A necessidade de interpretar os ensinamentos bíblicos para o paganismo Grego-Romano, confrontavam com o monoteísmo herdado do judaísmo. Então, os filósofos cristãos foram forçados a mudar o conceito da ruach. Originalmente, ruach era um adjetivo feminino para a “sabedoria divina”, (Sofia em grego) e não o fragmento de uma trindade. Porém, ruach ha kodesh tornou-se adjetivo masculino nos evangelhos, para designar o “espirito santo” e incluir Jesus como um deus, em uma trindade exclusivamente masculina para diferenciar das trindades pagãs, que incluíam a figura feminina.


segunda-feira, 30 de abril de 2018

Jesus e os acontecimentos após ressurreição - Parte IV



Fechando esta pequena série de textos sobre a historicidade de Jesus baseada nas únicas fontes de "informação" disponíveis, chega-se aos acontecimentos durante e pós ressuscitação de Jesus, demostrando-se como esta personagem já é um mito, tal como se aponta dados que colocam em apuros a doutrina da Igreja Católica.

"Perante este inspirado testemunho de Mateus sobre o que se passou a seguir á morte do messias judeu:
“Jesus, dando, de novo, um forte grito, expirou. A cortina do templo rasgou-se de alto a baixo em duas metades, a terra tremeu e fenderam-se as rochas; abriram-se os túmulos, e muitos corpos de santos que dormiam ressuscitaram e, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição d’Ele, vieram à cidade santa e apareceram a muitos. O centurião e os que com ele guardavam Jesus, vendo o abalo de terra e tudo o que havia sucedido, tiveram realmente medo e disseram: Verdadeiramente, este era o filho de Deus” (Mt 27,50-54).

Só se pode tirar uma de duas conclusões: ou o relato é uma refinada mentira. O que faz do resto da história da ressurreição uma pura invenção, ou a humanidade de então denotava inimagináveis índices de estupidez. Uma convulsão como a relatada ter-se-ia difundido em todo o Império Romano como a “notícia do século”. Teria, de certeza, arrastado em peregrinação até á cruz do suplício todos os habitantes do império, judeus e romanos sem excepção, o sumo-sacerdote e o imperador incluídos, para reconhecer no executado o único e verdadeiro “filho de Deus”, a exemplo do que sucedera com o centurião e os seus soldados. Em vez disso, o que se viu? Ninguém se deu por tido nem achado numa sociedade faminta de deuses e de prodígios, nem se espalhou o pânico pela população, sobretudo numa altura em que uma boa parte dos judeus esperava o iminente fim dos tempos, ocorrência que o próprio Jesus tinha também acreditado, nem conseguiu sequer que os apóstolos suspeitassem que mesmo à sua beira algo de maravilhoso se estava a passar. O cúmulo do absurdo, em suma.

Além do mais, como poderiam passar despercebidos e sem criar alvoroço os muitos santos que, segundo Mateus, saíram dos túmulos e se passearam no meio dos habitantes de Jerusalém? Uns santos que ninguém sabe quem sejam, qual o motivo da sua santidade, quem os terá reconhecido e a quem terão aparecido e que, como diz explicitamente o texto, ressuscitaram antes do próprio Jesus, facto que por si só invalida toda a doutrina sobre a ressurreição dos mortos. Com efeito, esta só é possível enquanto consequência da ressurreição de Jesus e não ao contrário. Os santos ressuscitados de Mateus acabaram por constituir, assim, um quebra-cabeças para a própria Igreja."


Extrato do livro Mentiras Fundamentais da Igreja Católica, de Pepe Gonzalez

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Sol Invictus, Mitra e Jesus




Com efeito, existe documentação comprovativa de que o próprio imperador Constantino (306-337), que impôs a Igreja Católica romana, mandou realizar sacrifícios em honra do Sol, cunhou moedas com a frase “Soli Invictus Comiti, Augusti Nostri”, ordenou que os seus exércitos recitassem todos os domingos (o dia do Sol) uma prece ao “Deus que dá a vitória”, etc. Quando o seu segundo filho, Constâncio II (337-361), chegou ao poder, o culto rendido a divindades pagãs passou a ser proibido sem excepção e o papa Libério, substituiu a celebração do nascimento do Sol Invictus Mitra pelo do nascimento de Jesus. Constâncio morreu quando se preparava para enfrentar Julião (361-363) que havia sido proclamado imperador pelas legiões e a quem a igreja, já poderosa, pusera o nome de Apóstata por ter tentado restabelecer a heliolatria.

A partir de então, a figura mítica solar de Jesus Cristo destronou a do Sol Invictus, apesar de a ter abundantemente plagiado, e passou a ocupar o lugar que esta ocupara, adaptando a sua própria forma exterior ao sólido molde de crenças lendárias que havia deixado o culto pagão. A documentação existente comprova, com efeito, que Mitra nasceu de uma virgem, num 25 de Dezembro, numa cova ou numa gruta, que foi adorado por pastores e magos, foi perseguido, fez milagres, foi morto e ressuscitou ao terceiro dia… e que o rito central do seu culto era a eucaristia, uma eucaristia cuja forma e fórmulas verbais são em tudo idênticas às que acabaria por adoptar a Igreja cristã.

São de tal modo idênticos o ritual pagão de Mitra e o supostamente instituído por Jesus, que São Justino (c. 100-165), na sua Apologia, ao defender a sua liturgia cristã perante a pagã, se vê obrigado a tentar inverter a realidade e a encobrir o plágio cristão afirmando que “a imitação do qual [a eucaristia cristã], foi o próprio diabo a fazê-lo com os Mistérios de Mitra, pois vós sabeis, ou podeis saber, que eles também tomam pão e uma taça de vinho nos sacrifícios em que participam os iniciados e pronunciam certas palavras a esse respeito”. A astúcia do diabo, conforme a pinta Justino, não é muito habitual. Não é todos os dias que se vê o diabo instaurar a eucaristia cristã num culto pagão centenas de anos antes que alguém, incluindo os próprios profetas de Deus, pudesse imaginar que uma seita judia sem importância acabaria por se converter na poderosa Igreja Católica romana!

Extrato de "As Mentiras da Igreja Católica", de Pepe Rodríguez

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O legado de Jesus, o Cristo



Jesus, se ele alguma vez viveu, foi um revolucionário. Ele pregava o amor e o perdão, a redistribuição da riqueza e o mesmo respeito por todos, independentemente do gênero ou da sua posição social. E ele fez isso num momento em que tais ideias pareceram profundamente ultrajantes e chocantes.

Mas sua mensagem inspiradora veio com algumas condições. E havia duas condições monstruosas. Primeiro, tinha-se que acreditar no deus maldoso e genocida e em segundo lugar, tinha-se que acreditar que se estaria sujeito a um julgamento quando se morrer e, se não se passar nesse julgamento, acabar-se-ia sendo torturado para sempre.

Talvez, naquela época, essas condições fossem necessárias. Criar um novo deus (ou dizer que não existe um deus) é repleto de perigos. Então, é sempre mais fácil modificar o que existe do que inventar algo novo de raíz. Sem dúvida que é por isso que Maomé e Joseph Smith seguiram esta mesma fórmula já testada e provada centenas e milhares de anos depois.

A ideia duma vida após a morte, das mais variadas formas, já existia por ali há milénios pelo tempo que se diz que Jesus pregou. Tornou-se uma crença profundamente enraizada. Jesus refinou-a e transformou-a eficazmente numa "cana com uma cenoura pendurada num anzol" para estimular as pessoas supersticiosas da época a seguir a sua nova religião.

Ou seja, foram essas as condições e não a mensagem central, que mais impacto teve no mundo. O legado real de Jesus, não é sua mensagem de amor e comunhão, mas a mensagem do Deus judaico odioso, ciumento e vingativo.

Desde as cruzadas, passando pelas inquisições, pela queima de bruxas e até terroristas suicidas, satisfazer Deus e ganhar um lugar no céu, provaram ser mensagens mais atraentes do que amar os nossos vizinhos.

É uma grande pena que, se Jesus fosse real, isto não era o que ele esperaria.


Traduzido e adaptade de Bill Flavell

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Os cristãos e as perseguições



O único deus que os romanos se recusaram a tolerar durante muito tempo foi o deus monoteísta e evangelizador dos cristãos. O Império Romano não exigia que os cristãos abdicassem das suas crenças e rituais, mas esperava que respeitassem os deuses protetores do império e a divindade do imperador. Isto era encarado como uma declaração de lealdade política. Quando os cristãos se recusaram veementemente a fazê-lo, e rejeitaram todas as tentativas de chegar a um compromisso, os romanos reagiram perseguindo aquilo que entendiam ser uma fação politicamente subversiva. E mesmo assim isso foi feito com pouca convicção. Nos 300 anos entre a crucificação de Cristo e a conversão do imperador Constantino, os imperadores politeistas romanos iniciaram apenas quatro perseguições gerais aos cristãos, apesar dos administradores e governadores locais incitarem a alguma violência anticristã. Ainda assim, se combinarmos todas as vítimas das perseguições durante esses três séculos, os romanos politeistas mataram alguns milhares de cristãos. Por outro lado, ao longo dos 1500 anos seguintes, os cristãos chacinaram milhões de cristãos para defenderem interpretações ligeiramente diferentes da religião do amor e da compaixão.

As guerras religiosas entre católicos e protestantes, que varreram a Europa nos séculos XVI e XVII, foram particularmente notórias. Todos os envolvidos aceitavam a divindade de Cristo e o seu evangelho de compaixão e amor. No entanto, discordavam quanto à natureza desse amor. Os protestantes acreditavam que o amor divino era tão grande, que deus tinha encarnado e permitido que fosse torturado e crucificado, assim redimindo o pecado original e abrindo os portões do céu a todos os que professassem a sua fé nele. Os católicos defendiam que a fé, ainda que essencial, não era suficiente. Para entrarem no céu, os crentes tinham de participar nos rituais da igreja e praticar boas ações. Os protestantes recusavam-se a aceitar isso, argumentando que este quid pro quo aviltava a grandiosidade e o amor de deus. Todos os que acreditam que entrar no céu depende das suas boas ações, realçam a sua própria importância e dão a entender que o sofrimento de Cristo na cruz e o amor de Deus pela humanidade não são suficientes.

Estas disputas teológicas tornaram-se tão violentas, que, durante os séculos XVI e XVII, católicos e protestantes mataram-se uns aos outros às centenas de milhares. A 23 de agosto de 1572, os católicos franceses, que realçavam a importância das boas ações, atacaram comunidades de protestantes franceses que enalteciam o amor de Deus pela humanidade. Neste ataque, o dia do massacre de São Bartolomeu, foram chacinados entre 5000 e 10000 protestantes em menos de 24 horas. Quando o papa, em Roma, soube o que tinha acontecido em França, ficou de tal forma feliz, que organizou orações festivas para celebrar a ocasião e contratou Giorgio Vasari para decorar uma das salas do Vaticano com um fresco do massacre (a sala está hoje encerrada). Foram mortos mais cristãos por outros cristãos nessas 24 horas do que pelo Império Romano politeista durante toda a sua existência.


De Sapien, História Breve da Humanidade, de Yuval Noah Harari


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Desmontando a bíblia - A ressureição de Jesus




Antes do mais, quero trazer neste post as recordações de que histórias de ressurreições são variadas em diversas literaturas.

Boa parte dos deuses solares(a exemplo de Cristo) têm histórias de ressurreições no terceiro dia após a morte ou algo parecido.

Mesmo na literatura hebraica(Antigo testamento) encontramos mitos de ressurreições.

Porquê o Cristianismo arrogantemente ostenta o Cristo como o se fosse o único "a ressuscitar"? 
Porquê os cristãos pregam a ressurreição de Jesus num tom hiper exclusivista? 
Porquê os cristãos usam o argumento da ressurreição para provar a messianidade de seu mestre e sua possível divindade?

Vou repetir pra que isso seja apreciado por todos os leitores, HISTÓRIAS DE RESSURREIÇÕES SÃO ANTIGAS E DIVERSAS.

Mas longe de toda essa mitologia, vamos então fazer uma análise mais racional. É mesmo possível alguém ressuscitar? 
Não, não é!

Mas calma, eu vou esclarecer.

*Um momento de ciência*

...
...

A lei da conservação de massa foi exposta por Antonie Lavoisier e diz expressamente:

"Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

O que acontece ao corpo após a morte?

Resposta: SE TRANSFORMA.

Quando morremos, o nosso corpo se desintegra, e o nosso corpo é constituído por moléculas, essas moléculas não desaparecem, elas são "recicladas", ou seja, as nossas moléculas poderão vir a construir novos organismos, como planta, peixe, árvore ou até mesmo um ser humano.

Para que eu venha ressuscitar, necessário seria que todas as minhas moléculas voltassem a se reunir, e onde estão as minhas moléculas? Estão por aí constituindo outros organismos(possivelmente humanos). Então, pra eu me reintegrar, preciso desintegrar o "fulano" e pra o fulano se reintegrar? A lista se segue... A verdade é que até as moléculas dos extintos dinossauros estão em nós, elas não desapareceram!

A doutrina da ressurreição é simplesmente estúpida. ESTÚPIDA MESMO.

Eu sinto falar dessa jeito, mas nenhum tal de Jesus ressuscitou e nem tu ressuscitarás. Pára de viajar na maionese e volte pra terra.

O núcleo da fé cristã tradicional (“paulinismo”) é a crença na ressurreição de Jesus. Esse é indubitavelmente o dogma central do cristianismo ortodoxo. Sem a crença no dogma da “ressurreição de Jesus”, desmorona toda a fé cristã ortodoxa, como bem expressa o próprio apóstolo Paulo, principal fundador do cristianismo dogmático e mítico, na seguinte passagem do Novo Testamento: “Se Cristo não ressuscitou, vazia é nossa pregação, vã também é a vossa fé” (1Coríntios 15,14).

Sim, é vã a vossa fé!


Texto de Gil Yossuf 

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Desmontando a bíblia - A profecia da virgem (Is 7:14)



Como já redatei nos capítulos antecedentes, histórias em que os salvadores nascem de uma virgem são comuníssimas em variadas mitologias anteriores ao Cristianismo, por conseguinte não é uma doutrina excluisavamente cristã. E como tenho também demonstrado, o cristianismo é uma espécie de sincretismo entre o judaísmo e as antigas Religiões de Mistérios. O problema desse sincretismo é que histórias de virgens que concebiam de Deus não faziam parte da literatura hebraica. Mas como sempre, os cristãos arcaicos arranjaram um jeito.

Argumentarei, a seguir, que esta profecia de Isaías, considerada pelos cristãos dogmáticos como uma das maiores provas do nascimento virginal e da divindade de Jesus, é, ao contrário, uma das maiores mentiras sobre Jesus. O versículo básico dessa profecia de Isaías (Isaías 7,14) é este: “A virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel [= Deus conosco]”, passagem essa que Mateus quis ver cumprida no suposto nascimento virginal de Jesus (ver Mateus 1,23).

Esclareço, com o teólogo e ex-padre católico Franz Griese (GRIESE, 1957, p. 237-240), que essa profecia não se refere a Jesus, nem à sua mãe, mas ao próprio Isaías, que se casou com uma jovem (“almah” na versão original hebraica de Isaías), e não com uma virgem (como na tradução errada da versão grega dos Setenta de Isaías), da qual teve um filho, cujo nome, Maer-Salal-Has-Baz (que significa “Pronto-saque-próxima-pilhagem”), foi dado pelo próprio Javé (cf. Isaías 8,3), também chamado pelo profeta Isaías de Emanuel (= Deus conosco) (cf. Isaías 8,8 e 8,10). 
Além disso, a tradução de Mateus, “... e o chamarão com o nome de Emanuel” (Mateus 1,23), está totalmente errada, pois, no texto grego mais antigo de Isaías, como se encontra no Códice Sinaítico, a frase correta é esta: “kai kalesei to onoma Immanuel”, que siginifica: “E Emanuel [=Javé] por-lhe-á o nome”, com a forma verbal (kalesei) na 3ª pessoa do singular, e não na 3ª pessoa do plural (kalesousin), como erroneamente foi alterado e traduzido por Mateus, para provar que a referida profecia se referia a Jesus, nascido de um parto virginal e, por isso, chamado de Emanuel (= Deus conosco), invertendo assim completamente o sentido do texto grego original de Isaías. Esse é, portanto, um exemplo clássico de texto bíblico mal traduzido e alterado para contemplar interesses cristãos.

Mateus, para defender o mito do nascimento virginal de Jesus, bem como o mito de sua divindade (Deus encarnado, Deus conosco), traduziu erroneamente a famosa profecia do profeta Isaías (Isaías 7,14): “A virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel".
Eis a passagem de Mateus em que ele traduz e comenta erroneamente esse texto de Isaías:
"Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão com o nome de Emanuel, o que traduzido significa: “Deus está conosco.” (Mateus 1,22-23)"

Na Bíblia de Jerusalém, o versículo de Isaías (Isaías 7,14) é este: “Eis que a jovem concebeu e dará à luz um filho e por-lhe-á o nome de Emanuel". Nessa versão da Bíblia de Jerusalém, não aparece mais a palavra “virgem” da versão grega de Isaías (o texto dos Setenta), a qual já é uma tradução errada da versão original hebraica “almah”, que significa “moça”, “jovem”, “donzela”, o que significa dizer que o texto hebraico de Isaías não usa a palavra “virgem”, mas a palavra “almah”, que significa simplesmente “uma jovem”, sem nenhuma implicação de virgindade. Os dogmas do nascimento virginal de Jesus e da sua divindade (Deus conosco) são, portanto, produtos desta tradução errada do termo “almah”, bem como dos outros erros cometidos por Mateus. A igreja católica também se rendeu a está verdade, razão pela qual a edição Paulina também usa "jovem" em vez de "virgem".

Mas não pensem que os cristãos vão aceitar isso de bandeja. Boa parte dos cristãos já se aperceberam disso e o argumento de "ouro" pra essa situação é que o texto de Isaías admite duplo cumprimento, e desse aspecto quero me ocupar nesse post.

É do consenso dos estudiosos da bíblia que os escritos de Mateus tinham como destinatário os judeus, com a intenção de demonstrar que Jesus era o messias por eles esperado, razão pela qual, é o evangelho que mais usa a fórmula "pra que se cumprisse". Vê-se claramente a preocupação do evangelista de ver cumpridas em Jesus as antigas profecias, coisa que ele falha miseravelmente em demonstrar. Vê-se que Mateus não apela ao duplo sentido da profecia, ele apenas recita a profecia pra mostrar que Jesus cumpriu, sendo que o contexto era totalmente diferente. Pra que se considere uma profecia com duplo sentido, o próprio texto ou alguma outra parte do tannach deveria retratar desta possibilidade, mas isto nunca aconteceu.

Porquê buscar duplos sentidos em profecias quando existiam profecias que sempre foram consideradas messiânicas e Jesus nem cumpriu as tais?
Quer convencer os judeus que Jesus é o messias com uma profecia que os próprios judeus nunca consideraram messiânica? E depois querem apelar à falácia do duplo sentido, coisa que nenhum judeu em sã consciência concorda?
Uma profecia para o consolo de Acaz terá duplo sentido com o Jesus? O texto garante isso ou Mateus com rudeza recita o texto ainda por cima adulterando "jovem" pra "virgem"?
E também, o tannach deixa bem claro que o messias seria descendente de David, e sabe-se que a descendência(na tradição judaica) foi sempre de pai pra filho. Portanto o messias teria de ter um pai[ humano] pra que fosse considerado descendente de David. A profecia de Isaías nada tem a ver com o messias, ainda que insistirmos tradução de "almah" pra virgem. 

Tenhamos em conta que o cristianismo já existia com essa doutrina do nascimento virginal, só depois foi procurar texto no tannach pra sua justificação.


Texto de Gil Yossef


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O Concílio de Niceia e os Evangelhos



O Concílio

Voltemos ao ano de 325 da nossa era. Naquele tempo foi realizado o Concílio de Niceia, a atual cidade de Iznik na província da Anatólia, a parte asiática da Turquia em tempos designada Ásia Menor. Este foi o primeiro de dois concílios realizados na cidade, o segundo ocorreu em 787.

O primeiro concílio foi convocado pelo Imperador Flavius Valerius Constantinus (285-337), ou Constantino, filho de Constâncio I. Constantino, de quem se diz ser o primeiro imperador cristão, assumiu o poder aquando da morte do pai, em 306, e logo passou a ser a autoridade máxima, inicialmente, na Bretanha, na Gália e na Hispânia.

Aos poucos, assumiu o controlo total do Império Romano. Alguns anos antes, ainda no reinado de Domício Aureliano (270-275), os regentes romanos abandonaram a unidade religiosa que se verificou até à renúncia, por esse imperador, em 274, aos seus direitos divinos, próprios de tal governo. Constantino, porém, sempre almejou relançar essa unidade religiosa e viu no cristianismo, que então ganhava força e influência, uma oportunidade para alcançar esse objetivo.

Muitos são hoje os historiadores que analisaram o seu governo e que se manifestam unânimes em dizer que a sua conversão não foi tão completa quanto se supôs, pois Constantino não abdicou da sua posição como sumo-sacerdote do culto ao “Sol Invictus”, representação do deus persa Mitra, e só foi batizado no leito da morte. De facto, alguns elementos deste culto seriam depois absorvidos pelo cristianismo, como a comemoração do Natal no dia 25 de Dezembro.

Assim, o interesse principal de Constantino no cristianismo seria mesmo o do seu uso para fortalecimento da sua própria monarquia. O Imperador tinha um certo conhecimento da doutrina cristã e observou, durante o ano de 303, as perseguições impostas por Diocleciano. Tinha a noção dos cristãos, embora sendo uma minoria, chegarem a, no máximo, 10% da população do império e estarem concentrados nos grandes centros urbanos, principalmente em territórios inimigos.

Foi então que, em 325, convocou mais de 300 bispos para o Concílio de Niceia. O imperador, sempre de olho na unidade religiosa como um fator que o ajudaria a manter o poder, tinha a plena noção da existência de cisões no âmago da nova religião. O concílio deveria, portanto, cimentar de uma vez por todas os seus poderes. Entre os participantes constavam bispos orientais, que, como era costume, estavam em maioria. Entre eles contavam-se pelo menos três arcebispos – Arcebispo de Alexandria, Eustáquio de Antioquia e Macário de Jerusalém -, além das presenças de Eusébio de Nicomédia e de Eusébio de Cesareia. Representando o Ocidente estavam Marcus de Calábria (Itália), Cecilian de Cartago (África), Hosius de Córdova (Espanha), Nicasius de Dijon (França) e Domnus de Estridão (pelos territórios do Danúbio).

Os debates começaram. Entre os vários pontos discutidos na ocasião, estavam a questão ariana, que negava a equivalência entre Jesus e Deus, colocando Cristo como um homem e não como uma divindade; a celebração da Páscoa; o cisma de Milécio, fundador da Igreja dos Mártires; o batismo de hereges e o estatuto dos prisioneiros na perseguição realizada sob o comando de Licínio, o imperador romano destronado e condenado à morte pelo próprio Constantino.

A escolha dos Evangelhos canónicos

Foi durante este mesmo concílio que foram reveladas as versões da escolha dos Evangelhos canónicos. No arranque do cristianismo, havia o absurdo número de 315 textos! A versão oficial de como foi feita a sua escolha está registada em alguns documentos. Porém, mesmo que se trate de versões históricas, quando alguém as lê sente como era difícil ser-se prático e direto naqueles dias, sem que se deixasse o fanatismo ganhar força sobre as decisões a tomar.

Vejamos como terá acontecido. Na difícil missão de escolher quais seriam os textos “inspirados por Deus”, os bispos teriam espalhado os diversos textos no chão e reuniram-se para rezar. Nessa altura, durante a cerimónia, os quatro Evangelhos que hoje conhecemos (Mateus, Marcos, Lucas e João) levantaram-se por sim mesmos e foram depositar-se no altar.

Outra versão: todos os textos foram deixados sobre o altar e apenas os não inspirados - os apócrifos – caíram por si mesmos ao chão. Uma terceira versão fala da mesma passagem pela oração, o momento no qual o Espírito Santo entrou no recinto sob a forma de uma pomba e atravessou uma janela sem que esta se quebrasse. Em seguida, segredou-lhes ao ouvido os Evangelhos canónicos.

Misteriosamente, a Igreja escolheu quatro textos que, fechados em si mesmos, comportam diversas contradições. Mas parece simplesmente desconsiderar tal detalhe e insiste em manter o seu cânone neles baseado. A julgar pela explicação dos religiosos da época, é de crer que nem eles saberiam explicar-se de maneira convincente. Veja-se a declaração que Ireneu, bispo de Lyon, aventou para explicar a seleção:

“O Evangelho é a coluna da Igreja; a Igreja está espalhada por todo o mundo; o mundo tem quatro regiões; convém, portanto, que haja também quatro Evangelhos. O Evangelho é o sopro do vento divino da vida para os homens, e, pois, como há quatro ventos cardeais, daí a necessidade de quatro Evangelhos. […] O Verbo criador do Universo reina e brilha sobre os querubins, os querubins têm quatro formas, eis porque o Verbo nos obsequiou com quatro Evangelhos.”

Mas há registos históricos que mostram que nem tudo foi inspirado por Deus nesta escolha. Há, por exemplo, um texto que fala de um tal bispo Flávio, morto, durante os debates, vítima dos ferimentos causados pelos pontapés desferidos por um tal bispo Diodoro, ocorrido no Concílio de Trento, considerado o mais longo da história da Igreja. Isto entre outros incidentes registados. A autora Lorraine Boetner cita, na sua obra Catolicismo Romano:

“O Papa Gregório, o Grande, declarou que, primeiro, Macabeus, um livro apócrifo, não é canónico. O cardeal Ximenes, na sua Bíblia poliglota, exatamente antes do Concílio de Trento, exclui os apócrifos e a sua obra foi aprovada pelo papa Leão X. Será que estes papas se enganaram? Se estavam certos, a decisão do Concílio de Trento estava errada. Se estavam errados, onde fica a infabilidade do papa como mestre da doutrina?”

Obviamente, os concílios, longe de serem palco para uma unidade de opiniões, eram um campo de batalha de ideias e, por vezes, de socos e pontapés, semelhantes aos debates vistos no livro e no filme O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Porém, ao contrário do que se lê em O Código da Vinci, de Dan Brown, no houve nenhum tipo de concurso para a escolha dos Evangelhos, mas sim debates acalorados e por vezes confusos, cujo objetivo era mesmo o de diferenciar os textos entre os inúmeros oriundos de escolas gnósticas.

Lembremo-nos disto: falamos de uma época de grande conflito de interesses de ambos os lados, tanto da parte do imperador, que pretendia a unidade religiosa, quanto da dos próprios cristãos, cansados de perseguições e desejosos de dar à sua religião uma melhor e mais sólida estrutura.


In Os Arquivos Secretos do Vaticano, de Sérgio Pereira Couto

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Desmontando a bíblia - Jesus, o filho de deus



Neste publicação quero agora relatar sobre o maior pilar do cristianismo. Por isso, espero a vossa máxima atenção.

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer (cf. ANDRADE, 1995, p. 59) que ser “filho de Deus”, na cultura hebraica, não significava literalmente “ser Deus”, mas era um título honorífico, como se infere de João: “A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (João 1,12). Já na cultura greco-romana, era muito comum a ideia mítica de alguém ser “filho de uma divindade” (no sentido literal da palavra) e de uma divindade encarnar-se em forma humana – O MITO DO DEUS ENCARNADO – daí ter sido fácil a transição da imagem judaica de “filho de Deus” para a imagem mitológica grega de “Deus o filho” (DEUS ENCARNADO NUMA PESSOA HUMANA).

Vejamos agora como Hick (ibid.) nos esclarece como a velha linguagem metafórica judaica de “filho de Deus” (no sentido adotivo), título geralmente atribuído aos reis de Israel por ocasião de suas coroações (e também atribuído a Jesus pelos cristãos do cristianismo nascente) se transformou, devido ao encontro da cultura judaica.

Com a cultura grega, na figura mitológica de “Deus o filho”, fazendo com que Jesus passasse, no cristianismo histórico primitivo, de “filho de Deus” para “Deus o filho” (DEUS ENCARNADO, SEGUNDA PESSOA DA TRINDADE).

Eis como Hick descreve esse encontro das duas culturas (a judaica e a grega), mediante o qual os cristãos fizeram com que Jesus passasse de “filho de Deus” para “Deus o filho":

... "A primitiva comunidade cristã percorreu uma trajetória cultural que se iniciou com o judaísmo e desembocou na cultura helenista do mundo greco-romano. As ideias de deificação e encarnação eram muito comuns na cultura helenista e, quando se encontram com a imagem judaica de “filho de Deus”, essas novas categorias fazem acontecer uma significativa transição na imagem cristã de Jesus: de “filho de Deus” para “Deus o filho”, a segunda pessoa da Trindade (HICK, 1977, p. 175)".

Em termos mais claros ainda, o filósofo e teólogo pluralista John Hick (ibid.) explica que:
"dentro do próprio judaísmo, a noção de um homem ser chamado “filho de Deus” já existia há muito tempo. O Messias devia ser um rei terreno descendente de Davi e os reis antigos da linhagem de Davi recebiam o título divino de “filho de Deus” ao serem ungidos na posse do cargo: as palavras do Salmo 2,7, “Ele me disse: Tu és meu filho, eu hoje te gerei“ foram provavelmente usadas nas cerimônias de coroação. Outro textochave é o 2º Livro de Samuel (2Samuel 7,14): “Eu serei para ele um pai, e ele será para mim um filho”, novamente dito a respeito do rei terreno. Portanto, a linguagem de exaltação que a Igreja inicial aplicou a Jesus já fazia parte da longa tradição judaica".

John Hick faz, com muita propriedade, o seguinte questionamento:
"Como devemos entender essa linguagem antiga da filiação divina? Literal ou metaforicamente? O rei era literalmente filho de Deus? Claro que não. Dizer que o rei era “filho de Deus” era uma forma metafórica de se expressarem as qualidades do rei. O rei está mais próximo de Deus do que qualquer outra pessoa. Por isso, ele é chamado de “filho de Deus” (Salmo 2,7). Na linguagem mitológica, diz-se que Deus o “gerou”. Mas o rei é considerado “filho de Deus” apenas por “adoção”, e não por geração física, isto é, como sendo fisicamente "filho de Deus"".

Vemos portanto que "filho de Deus" é uma expressão que pode muito bem significar "amado ou cuidado por Deus como filho" se entendermos metaforicamente. E nesse sentido, imprestando a linguagem teísta, todos somos filhos de Deus. Não tem pé nem cabeça afirmar que Jesus é o único filho de Deus, pois nesse caso, incorreremos ao pensamento mítico de uma pessoa literalmente ser filha de Deus, o que é uma falácia, pois Deus não faz sexo e não pode ter filho[emprestando a linguagem teísta]. Cabe realçar também que nas religiões antigas os deuses tinham literalmente filhos, pois poderiam se relacionar sexualmente com outros deuses ou humanos. Mas essa concepção o cristianismo não comunga. Concluo assim dizendo, que Jesus não deve ser considerado literalmente filho de Deus, e se ele for filho de Deus, então é no sentido metafórico, e se for nesse sentido, ele não deve ser o único como já demonstrei ao longo da publicação.


Texto de Gil Yossuf


Bibliografia:
ANDRADE, Jayme. O Espiritismo e as igrejas reformadas. 4. ed. São Paulo: EME, 1995. HICK, John (Org.). The Myth of God incarnate.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Desmontando a bíblia - O nascimento virginal & A mãe de deus




O nascimento virginal

A crença literal no nascimento virginal e miraculoso de Jesus, mesmo tendo grande significação espiritual para os cristãos paulinistas, não é um fato histórico, de acordo com as pesquisas atuais de todos os estudiosos críticos do cristianismo.

Como afirmam todos os historiadores das religiões, o mito de partos virginais e miraculosos é antiquíssimo, encontrando-se em muitas religiões anteriores ao cristianismo e que, segundo os historiadores das religiões, nascer de uma mãe virgem significava, na antiguidade, que a criança seria um personagem importante. Por isso, os evangelistas, tendo que anunciar aos primeiros cristãos que Jesus era o Messias prometido pelos profetas ao povo de Israel, explicaram-no dizendo que ele nascera de uma mulher virgem, por obra e graça do Espírito Santo.

No dizer do renomado escritor espanhol Pepe Rodríguez, em seu referido livro Mentiras Fundamentais da Igreja Católica:

"nascer de uma virgem fecundada por Deus foi um mito pagão difundido em todo o mundo antigo anterior a Jesus. [...] Quando o personagem anunciado era de primeira ordem, a mãe era sempre fecundada diretamente por Deus, através de um procedimento milagroso que, fosse ele qual fosse, confirmava claramente o mito da concepção virginal. [...] Todos os grandes personagens, tenham sido eles reis ou sábios como, por exemplo, os gregos Pitágoras (570-490 a.C.) ou Platão (427347 a.C.) –, ou se tenham tornado o centro de alguma religião e acabado por ser adorados como “filhos de Deus” (Buda, Krishna, Confúcio ou Lao Tsé) foram mitificados pela posteridade como filhos de uma virgem. Jesus, surgido muito depois, mas destinado a desempenhar um papel semelhante ao que os seus antecessores haviam desempenhado, não podia ter um estatuto inferior ao deles (RODRÍGUEZ, 2001, p. 98; 100-101; 103)."

Como tenho demonstrado, o cristianismo é uma fusão de judaísmo[distorcido] e as outras religiões rotuladas como pagãs, os cristãos tiveram que encontrar uma passagem no Tannakh [Antigo testamento] que apoiasse a doutrina. E pasmem! Existe um texto, um só texto do Antigo testamento que apoia essa doutrina supostamente. Esse texto é o de Isaías 7:14 que terá um capítulo inteiro nas próximas publicações. Vou demonstrar o quão distorcida é a interpretação cristã desse texto.

Em primeiro lugar, é importante saber que as narrativas sobre o nascimento de Jesus só se encontram nos Evangelhos de Mateus e Lucas, escritos por volta dos anos 80 ou 90 d.C., mas não se encontram nos escritos cristãos mais antigos, como as Epístolas de Paulo, escritas na década de 50 d.C. e o Evangelho de Marcos (o mais antigo de todos), escrito mais ou menos no ano 70 d.C., o que prova que as histórias do nascimento de Jesus não tinham muita importância histórica nem teológica para a cristandade dos primeiros tempos (cf. BORG &CROSSAN, 2008, capítulo 2, p. 39-41).

Em segundo lugar, argumento (com John Dominic Crossan) que as passagens de Mateus e de Lucas que narram o nascimento e a infância de Jesus não são narrativas históricas, mas metafóricas, simbólicas, parabólicas e, portanto, não devem ser interpretadas ao pé da letra, como fatos históricos, mas como parábolas e alegorias.

Dizer, por exemplo, que Herodes mandou matar as crianças em Belém, para matar Jesus, não é uma verdade histórica, mas é, no correto dizer de Crossan, uma parábola, para afirmar que Jesus é o novo Moisés e Herodes é o novo faraó do Antigo Testamento (cf. John Dominic Crossan, Revista SUPER Interessante, edição 250, março/2008, p. 17-18). Nesse sentido, todas as histórias e cenas que Mateus e Lucas narram acerca do nascimento e da infância de Jesus, por exemplo, a manjedoura, a estrela de Belém, os três reis magos, os pastores, os anjos, os cantores, o massacre das crianças pelo rei Herodes, a fuga para o Egito etc., são parábolas e, logo, não podem ser interpretadas ao pé da letra. Interpretá-las literalmente como fatos históricos é transformar em mentiras as histórias sobre o nascimento e a infância de Jesus. Em seu livro “O Nascimento do Cristianismo”, John Dominic Crossan afirma que “os Evangelhos foram escritos pela fé, para a fé e a partir da fé. [...] Os Evangelhos são teologia em vez de história” (CROSSAN, 2004, p. 61).


Vamos agora falar um pouco da "mãe de deus".

Maria não pode ser considerada a “Mãe de Deus”, conforme o velho dogma católico, proclamado no terceiro Concílio Ecumênico, realizado no ano 431, em Éfeso (local, na época, do maior templo urbano, no Império Romano, da deusa Ártemis, ou Diana). Conta-se que, enquanto o Concílio estava reunido, discutindo a maternidade divina da mãe de Jesus, o povo de Éfeso se aglomerou ao redor do templo da deusa Ártemis, ou Diana, e começou a gritar: “A Deusa. A Deusa, certamente ela é a Deusa” (CAMPBELL, 2007, p. 190). Sabemos, pela história das religiões, que o mito da “Mãe de Deus” era muito comum entre as religiões bem mais antigas do que o cristianismo. As religiões pagãs costumavam dar uma mãe às suas divindades, por exemplo, na Babilônia, existiu “Istar” (ou ‘Ishtar”), a mãe virgem do deus Tamuz. Segundo esclarece o escritor José Reis Chaves, “a palavra inglesa Easter (Páscoa) é derivada de Istar (mãe virgem de Tamuz imolado)” (CHAVES, 2006b, p. 103).

Na Grécia, existiu “Deméter” (a “mãe” de Deus) e “Dioniso” (o “filho” de Deus), duas das divindades mais populares da Grécia antiga, cuja história, ritos e festas antecipam efetivamente, sob muitos aspectos, a religião cristã (cf. DONINI, 1965, p. 145)

Aliás, o termo “Dioniso” (da língua trácio-frígia, “dioniso”) significa etimologicamente “filho de deus” – “dio-niso” (cf. DONINI, ibid, nota 26). A história de Dioniso, o deus libertador, o “filho de deus”, é muito semelhante à história do “Jesus mítico” (o “Cristo da fé”), o Filho de Deus e o único libertador (salvador) da humanidade, segundo o mito exclusivista cristão.

Conforme já defendiam, corretamente, os chamados “hereges” nestorianos da Igreja primitiva (século V), os quais afirmavam, contrariamente ao dogma católico, que Maria não é “Mãe de Deus” (em grego, “Theotókos”), mas apenas “Mãe do homem Jesus Cristo” (em grego, “Cristotókos).

O monge Nestório de Antioquia, num de seus sermões, afirmava:

"Ninguém venha me dizer que Maria é mãe de Deus, ela foi mulher e Deus não pode nascer de mulher. Sustentar o contrário é imitar os pagãos que dão uma mãe às suas divindades (FRANGIOTTI, 1995, p. 128)." Nestório foi condenado no terceiro Concílio Ecumênico, realizado em Éfeso, no ano 431 (o qual proclamou o dogma mítico da maternidade divina de Maria), e, porque se recusou a submeter-se às definições dogmáticas desse Concílio, foi enviado para o exílio, onde morreu.

Mas vocês não acham absurdo Deus ter mãe?


Texto de Gil Yossuf

Bibliografia: 
CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus: mitologia primitiva. São Paulo: Palas Athena, 1992. v. 1. Chaves, José Reis. A Face oculta das religiões: uma visão racional da Bíblia. 2. ed. São Paulo: Editora Bezerra de Menezes, 2006b. 
DONINI, Ambrogio. Breve história das religiões. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1965. 
FRANGIOTTI, Roque. Histórias das heresias: conflitos ideológicos dentro do cristianismo. São Paulo: Paulus, 1995. .

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Desmontando a bíblia - As parábolas de Jesus






A parábola dos trabalhadores da vinha (Mateus 20,1-16) é de autoria de Jesus?

Segundo Franz Griese (cf. GRIESE, 1957, p. 112-113), esta parábola dos trabalhadores da vinha foi falsamente posta nos lábios de Jesus por Mateus, sendo uma cópia deturpada de uma autêntica parábola narrada pelo deus hindu Krishna, cerca de cinco mil anos antes de Cristo. Mateus, ao pô-la nos lábios de Jesus, fez uma série de mudanças absurdas, falsas, mentirosas, como explica, a seguir, o referido teólogo Franz Griese:

...Enquanto a parábola de Krishna é natural e humana, demonstrando compaixão para com os fracos, a transformação que, segundo a Bíblia, foi feita por Cristo dessa parábola hinduísta está cheia de absurdos. Na verdade, ninguém pagaria o mesmo salário a trabalhadores que tivessem começado a trabalhar em horas tão diferentes do mesmo dia, como se narra aqui na versão cristã dessa parábola hinduísta. Com justa razão, reclamam aqueles que, tendo trabalhado o dia inteiro, receberam o mesmo salário dos que trabalharam apenas uma hora.

Por outro lado, a versão cristã desta parábola tem uma explicação satisfatória, quando interpretada do ponto de vista de seu ensinamento moral, expresso na última frase da versão cristã da parábola: “Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (Mateus 20,16).

Supondo que os primeiros trabalhadores eram os judeus, os quais, segundo a crença judaico-cristã, foram efetivamente os primeiros a ser chamados ao Reino de Deus, e que os últimos significam os pagãos, por terem sido chamados ao Reino de Deus em último lugar, e levando em conta que, nos tempos dos apóstolos, os judeus convertidos ao cristianismo não queriam reconhecer a igualdade dos pagãos convertidos à religião cristã, e que esta rivalidade terminou com o afastamento dos judeus e a entrada dos pagãos ao Reino de Deus, tal como São Paulo o explica detalhadamente em sua Carta aos Romanos, afirmando que os judeus, por causa de sua conduta, somente entrarão na Igreja depois que tiverem entrado todos os pagãos (Romanos 11,25), é que se pode entender o ensinamento moral da referida parábola: que os primeiros (os judeus) passarão a ser os últimos e os últimos (os pagãos) passarão a ser os primeiros, porque muitos homens são chamados à Igreja de Cristo, mas poucos são escolhidos (os membros do povo eleito de Israel). Quanto à referida parábola, é impossível que ela tenha sido narrada por Cristo, porque no tempo em que Cristo pregou não existia aquela rivalidade entre judeus e pagãos, principalmente levando-se em conta que Cristo restringiu sua pregação aos judeus. Esta parábola, por conseguinte, não foi narrada por Jesus, mas foi produzida pelo evangelista Mateus, que transformou a parábola original hindu, adaptando-a à rivalidade de seu tempo entre judeus e pagãos (GRIESE, p.112-113).

Obs: Na verdade o autor destes dizeres admite a existência do Jesus histórico, o que é de certo modo razoável, mas contestável também. Para mais informações quanto aos dizeres da verdadeira parábola hindu, recomendo aos leitores a obra "Catecismo ecumênico" de José Pinheiro de Souza.


A parábola da viúva pobre (Marcos 12,41-44) é de autoria exclusiva de Jesus?

Não.
Esta parábola já existia em diversas outras literaturas sagradas, bem mais antigas do que o cristianismo, particularmente na literatura budista, conforme argumenta muito bem o escritor Holger Kersten, nos seguintes termos:
"A esta altura, gostaria de apresentar um dos mais surpreendentes paralelos entre as escrituras hindus e o Novo Testamento: a parabola da viúva pobre. Nos textos budistas é costume que pessoas abastadas façam generosas doações a uma congregação religiosa. Uma pobre viúva, entretanto, não possuía mais que duas moedas. É tudo que tem, mas mesmo assim o dá com prazer. O sacerdote, diante de tão nobre atitude, a louva, deixando de mencionar a contribuição dos outros. É este o paralelo que encontramos no Evangelho de São Marcos: “E, sentado frente ao Tesouro do Templo, Jesus observava como a multidão lançava o dinheiro nos cofres; muitos ricos depositavam grandes quantias. Chegando uma pobre viúva, lançou duas pequenas moedas, no valor de um quadrante. E, chamando a si os discípulos, lhes disse: ‘Em verdade eu vos digo que esta pobre viúva lançou mais do que todos os que ofereceram moedas ao Tesouro. Pois todos os outros deram do que lhes sobrava; ela, porém, na sua penúria, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver” (Marcos 12,41-44). Além da correspondência da ideia básica, mencionamos agora a extraordinária semelhança entre as duas situações: em ambos os casos, trata-se de uma mulher, de uma mulher pobre; a de uma oferta feita na igreja em meio a gente rica; ambas as mulheres dão tudo o que tinham, isto é, duas moedas; ambas são louvadas por um observador e o sacrifício delas é muito mais apreciado que as doações dos ricos. E logicamente, por ser mais recente, o texto bíblico depende daquele budista (KERSTEN, 1986, p. 88)."

Em face do incontestável paralelo entre a parábola da viúva pobre, supostamente narrada exclusivamente por Jesus, e a existência dessa mesma parábola em outras literaturas sagradas, como na literatura budista, na literatura rabínica e na literatura grega antiga, os pesquisadores do SJ concluem que ela não pode ter sido narrada exclusivamente por Jesus. No dizer desses pesquisadores, “esta parábola é um belo exemplo de como um sentimento ou um costume antigo era falsamente atribuído exclusivamente a Jesus pelos autores dos Evangelhos, quando sabemos que, em qualquer cultura antiga, as doações dos pobres sempre eram vistas como mais agradáveis a Deus do que as exageradas contribuições dos ricos (FUNK, HOOVER & THE JESUS SEMINAR, p. 106-107).

Quero aqui realçar que independentemente se a parábola é um plágio ou não, a verdade é que esses dizeres da parábola em questão já existiam antes do Cristianismo. Esse olhar apaixonante que as pessoas têm dos dizeres da bíblia como se fossem os únicos é utópico. E isso eu quero deixar bem patente em cada publicação. Se o cristianismo se assumir como verdade, então ele é só mais uma entre as outras. 
Nunca existiu uma só verdade.


A parábola dos vinhateiros homicidas (Marcos 12,1-12; Mateus 21,33-46, Lucas 20,9-19)

Eis um resumo comentado da referida parábola feita pelos pesquisadores do SJ:

"Deus plantou uma vinha, arrendou-a a vinhateiros (=o Seu Povo Eleito, Israel) e partiu para o estrangeiro. Chegada a época da colheita, enviou os seus servos aos vinhateiros, para receberem os seus frutos. Os vinhateiros (=os judeus), porém, agarraram os servos (=os profetas), espancaram um, mataram outro e apedrejaram o terceiro. Deus enviou outros servos (=outros profetas), em maior número do que os primeiros, mas eles (=os judeus) os trataram da mesma forma. Por fim, enviou-lhe o seu Filho (=Jesus Cristo), o qual foi morto pelos arrendatários, ou seja, pelo Seu Povo Eleito (os judeus), [o que não é verdade, pois Jesus não foi morto pelos judeus, mas pelos romanos] (FUNK, HOOVER & THE JESUS SEMINAR, p. 101)".

A parábola do rico e o Lázaro.

Esta é das parábolas mais esquisitas da bíblia de onde os cristãos interpretam literalmente a história do inferno.

Primeiro, cabe relevar que histórias de ricos e pobres cujos destinos se invertem após a morte são comumíssimas na literatura do Oriente Próximo.

Em segundo lugar, caso interpretemos literalmente a parábola, iremos cair em aspectos estranhos até para a doutrina cristã:
1-Em nenhuma parte a parábola menciona a perversidade do rico nem a benignidade de Lázaro. Parece até que a perversidade do rico é de ser rico, e a benignidade do Lázaro é de ser pobre. 
2-É a única parábola em que um dos personagens recebe um nome próprio.[apenas curiosidade]. 
3-O destino do Lázaro não é o "céu" mas um tal de "seio de Abraão" que por sinal, em mais nenhuma parte da bíblia é mencionado. Afinal, o que é seio de Abraão, onde está localizado? Essas perguntas divergem de igreja à igreja, dependendo da doutrina[cada uma interpreta de modo que se tenha benefício próprio]. Por estas razões, até eu não me sinto seguro em levantar juízo sobre o tal "seio de Abraão". 
4-A parábola sugere que o tal "seio de Abraão" e o tão famoso inferno são vizinhos e que há possibilidade de um contacto visual e auditivo entre os integrantes de ambos os lados. Esse aspecto é de longe o mais pertubador de todos, caso se interprete literalmente a referida parábola. 
5-O texto sugere que o rico foi pra o inferno imediatamente após a morte, o que gera várias questões. Será que as pessoas vão pra o inferno com o seu corpo físico imediatamente após a morte? Claro que não, pois o corpo fica apodrecendo no túmulo. Se admitirmos que a doutrina do inferno é correcta, então só poderia ser o lugar da tal "alma". Por outro lado, se o que estava no inferno é a alma do rico, porquê estava com sede e pediu pra que lhe refrescassem a língua? É óbvio que a expressão "língua" e "sede" fazem alusão ao corpo físico.

Por tantas incongruências gritantes resultante da interpretação literal da parábola, só nos resta o sentido metafórico. E quanto ao seu sentido metafórico, cada um é livre pra entender como quiser. Eu por exemplo, interpreto as chamas do inferno como água[risos].

Obs: não há referência bibliográfica pois, para além dos primeiros dizeres do post, a análise é excluisavamente minha.


Texto de Gil Yossuf


Bibliografia:
GRIESE, Franz. La Desilusión de un sacerdote: la verdad científica sobre la religión cristiana. 2. ed. reformada y aumentada. Buenos Aires: Editorial Cultura Laica, 1957. 
KERSTEN, Holger. Jesus viveu na Índia: a desconhecida história de Cristo antes e depois da crucificação. 17. ed. São Paulo: Best Seller, 1986. 
 FUNK, Robert W.; HOOVER, Roy W., and THE JESUS SEMINAR. The Five Gospels: what did Jesus really say? The search for the authentic words of Jesus. New York: Macmillan Publishing Company, 1993.