Mostrar mensagens com a etiqueta Quântico. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Quântico. Mostrar todas as mensagens

sábado, 16 de junho de 2018

Por que a Primeira Causa é uma causa perdida?



Todo efeito que observamos na natureza tem uma causa. Extrapolamos a partir desse conjunto de dados incompletos, a ideia de que é razoável supor que CADA efeito deve ter uma causa e que denominamos isso de Lei da Causalidade. É claro que não observamos todas as causas de todos os efeitos que já ocorreram, então estamos fazendo um argumento indutivo. As induções não são absolutamente certas, mas no macro-mundo que experimentamos diretamente, nunca observamos um efeito que não tivesse causa. Mas as coisas são diferentes no nível quântico, onde partículas "virtuais" (elas são reais, mas temporárias) foram observadas surgindo e desaparecendo sem serem causadas, e onde alguns eventos dependem de probabilidades e não de causas.

Cada efeito no "macro-mundo", é a causa do próximo efeito. É uma cadeia ininterrupta que se estende desde o início dos tempos, se houve um evento como um começo... 
Efeitos SÃO Causas. Causas SÃO Efeitos. Eles SÃO os mesmos. 
E, se houve um começo para o tempo, isso foi um efeito em si mesmo e, portanto, com toda probabilidade, deveria ter tido uma causa ...

Os crentes usam essas ideias para fabricar um argumento para a existência de deus da seguinte forma: 

a primeira premissa é que "tudo tem uma causa", 
a segunda premissa é que "o universo começou a existir" 
e a inferência é que "deve haver um agente causal que pré-existia o universo '.

Vamos desconstruir isso: 

é um silogismo que é definido como uma dedução. Deduções dependem da natureza INQUESTIONÁVEL das suas premissas. Como mostrei acima, a primeira premissa, "tudo tem uma causa" é uma indução evidencial não falseável. Em outras palavras, é provavelmente verdade, mas não é absolutamente certo que ela é verdadeira e não pode ser comprovada sem se observar a causa de cada efeito, o que não vai acontecer. Isso deixa a premissa questionável, em vez de inquestionável, e só sabemos que se aplica no nível macro no reino natural (por isso, em itálico, "na natureza", no primeiro parágrafo).

A segunda premissa, "o universo começou a existir" é uma afirmação puramente hipotética. Nós, sinceramente, não sabemos se é verdade ou não. Também é questionável. Não há provas de qualquer forma. Até cerca de um século atrás, todos acreditavam que o universo era eterno e estável no seu estado. Então descobriu-se que ele está se expandindo e "invertendo" a expansão para trás, deu origem à ideia do "Big Bang", o que parecia apoiar as reivindicações teístas da criação. 
Mais recentemente, o "Big Bang" foi redesignado como um período inicial de "inflação" e presume-se que a origem o precedeu. O que aconteceu "antes" do Big Bang é objeto de especulação, não de factos. A ideia do "Estado Firme" está sendo reconsiderada, juntamente com o "Universo Saltitante", o Multiverso, a Singularidade e, sim, não podemos descartar isso, a Criação. 
O ponto é que estas são apenas proposições sem apoio de observação e é improvável que obtenham apoio observacional num futuro previsível. 
Nós simplesmente NÃO SABEMOS. Mas continuaremos procurando.

No entanto, observe que alegar que o universo teve um começo serve à proposição teísta de um evento de criação e de um criador implícito. Mas, a menos que a evidência aconteça, é apenas uma falácia ad hoc - uma alegação que "apoia" outra reivindicação.

Resumindo, nenhuma das premissas confere a necessária inquestionabilidade necessária para uma dedução. Não importa, vamos dar uma olhada em sua "dedução":

            "Deve haver um agente causal que pré-existiu o universo".

'Pré-existiu o universo' faz a suposição de que há algum espaço e tempo antes da existência do universo para um criador o criar (esse é um assunto para outro artigo chamado 'Você não pode montar um guarda-roupa IKEA sem tempo para o montar!'). Uma vez que o universo é o reino natural que estudamos há séculos e que já desenvolvemos alguma compreensão, essa "oficina de criação" deve ser antinatural - é mais comumente referida como sobrenatural. De fato, os crentes atribuem tais poderes ao ocupante do reino sobrenatural que um mágico daria os seus olhos para os ter.

Agora, lembre-se de que a Lei da Causalidade, como todas as leis da física, se aplica no reino natural. Não temos ideia do que pode acontecer num reino sobrenatural ininteligível, mas não há razão para supor que as leis da física devam ser aplicadas lá. Assim, "deve haver um agente causal que pré-existiu o universo" contém uma contradição: que deve haver uma localização de espaço / tempo NÃO NATURAL que, pelo menos parcialmente, obedece às leis da física. É ao mesmo tempo antinatura e natural!

Na busca desesperada por evidências para o seu deus, apesar do fato de que ele só é conhecido por se aplicar no reino natural, os crentes alegam, sem razão, que a Lei de Causalidade também se aplica no reino sobrenatural. 
Exceto que não é bem assim. 
Eles querem uma versão diferente. Eles não querem uma cadeia de causa e efeito, causa e efeito... Eles só querem uma única causa desconectada de qualquer fenômeno anterior e querem que ela seja realizada por um Ser sem causa. Já tinhas visto um melhor exemplo da falácia alegação especial?

Como podes ver acima, há um grande problema que não sabemos a solução. No entanto, os crentes, de alguma forma, conseguem interpretar essa ignorância suprema num argumento para o seu deus! 
Embora, estranhamente, não para o deus de outra pessoa!


quinta-feira, 31 de maio de 2018

O deus das lacunas



Os crentes argumentam que não sabemos como o universo surgiu, então eles dizem que foi Deus quem o fez surgir. Mais, eles dizem que não sabemos como a vida começou, então eles acreditam que Deus fez a vida também.

Mas por que eles assumem que o mesmo agente criou o universo e a vida? Certamente, estes trabalhos serão muito diferentes? Um exige que o agente esteja fora do universo e o outro requer que o agente esteja dentro dele. Uma é a física básica numa escala de anos-luz, a outra é engenharia molecular avançada trabalhando numa escala ångström. Um trabalho requer o manuseio de uma quantidade inimaginável de energia, a outra uma quantidade minúscula.

Se insistires em concluir que a intervenção sobrenatural foi necessária, o que te dá tanta certeza de que apenas um agente estava envolvido? Certamente, deverias suspeitar que dois ou mais agentes devam estar envolvidos, ou, no mínimo, tu deverias ser honesto e admitir que não tens ideia de quantos deuses possam estar envolvidos.

Mas então, o problema com a honestidade é que ela prejudica o teu verdadeiro objetivo - fingir que quando falas com o teu deus, tu apenas estás falando contigo mesmo.


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

terça-feira, 3 de abril de 2018

O que a Ciência diz sobre deus




Alguns teólogos e religiosos dizem que a ciência nada pode falar sobre Deus, já que a ciência estuda o mundo natural e Deus faz parte do mundo sobrenatural. Há problemas com tal separação. Primeiro, se Deus é uma entidade completamente sobrenatural, não tem como ele interferir na vida dos seres humanos, que residem no mundo natural. Mas quando Deus atende uma prece e salva uma vida, há uma intervenção direta no mundo natural, que é passível de investigação pela ciência. Aliás, uma pergunta extremamente válida é justamente de que maneira Deus atua, por exemplo, nas partículas de um tumor para reduzir seu tamanho? Em segundo lugar, essa separação é totalmente arbitrária. Por que a realidade é, obrigatoriamente, separada em duas? Não podemos pré-definir o que é a realidade, não podemos forçar a realidade a encaixar com nossas crenças. São as nossas crenças que devem ser adaptadas de acordo com as evidências da realidade. Ciência é justamente a maneira de interrogar como a realidade funciona.

Na história da humanidade, acreditamos em diversos deuses diferentes. À medida que o nosso conhecimento sobre o funcionamento do Universo foi aumentando, o papel de Deus (ou deuses) nas explicações foi diminuindo. Porém, muitas pessoas acreditam, pelo menos, em uma forma de criacionismo.

Antes de Charles Darwin publicar A Origem das Espécies, dominava a crença de que Deus tinha criado as espécies de forma independente. O teólogo William Palley fez a seguinte analogia: assim como a complexidade do design de um relógio nos leva à conclusão de que ele possui um criador, o mesmo pode ser dito em relação ao olho humano, por exemplo. Palley argumentou que "todas as manifestações de um design que existem no relógio existem também nas obras da natureza..."Para Palley, Deus tem função similar de um relojeiro; Deus é o criador inteligente da complexidade observada na natureza. No entanto, Charles Darwin e Alfred Russel Wallace mostraram que, na realidade, não há nenhum criador; a complexidade observada é explicada pela seleção natural. Diferente de um relojoeiro, que projeta suas engrenagens e molas imaginando o resultado final, a seleção natural é um processo cego, inconsciente e automático. A seleção natural, como cunhou Richard Dawkins, é o relojoeiro cego. A Teoria da Evolução mostra que partindo de uma forma de vida bem básica, como uma molécula auto-replicadora, é possível atingir a complexidade de um indivíduo humano.

O criacionismo de Palley, o que eu chamo de criacionismo biológico, já deveria ter caído em total desuso. A Evolução é suportada por uma convergência de evidências de sete diferentes áreas da biologia e não possui nenhuma evidência contrária. Religiosos (principalmente criacionistas, nesse caso) repetem que a evolução é "apenas uma teoria". Evolução é uma teoria, assim como a gravidade. Espero que as pessoas não se joguem de prédios afirmando que a gravidade é "apenas uma teoria". A Evolução é uma das teorias cientificas mais testadas e corroboradas; a evolução é tão verdade quanto, por exemplo, a afirmação de que a Terra orbita o sol. Alguns religiosos afirmam aceitar a evolução, mas dizem que ela foi guiada por Deus. Mas isso não é a teoria da evolução; é uma adaptação errada da ciência para encaixar crenças pessoais. No entanto, ainda há lacunas no conhecimento para a hipótese de Deus como explicação. A evolução não explica a origem da vida, um problema da química ainda sem solução, e ainda há o criacionismo cosmológico, onde Deus criou o universo.

Em qualquer tipo de criacionismo, a explicação que Deus criou o universo e/ou a vida não é satisfatória, já que postula-se uma entidade mais complexa (Deus) do que aquelas que desejamos explicar. Deus, de acordo com diferentes religiões, é uma entidade que comunica-se com um vasto número de pessoas em todos os idiomas possíveis, intervem simultaneamente na vida de várias pessoas, etc. O que eu quero dizer é: se a complexidade do olho humano precisa de explicação, a complexidade de Deus também; se o universo e/ou os seres vivos foram criados por Deus, quem criou Deus? A usual resposta que religiosos fornecem para essa pergunta é que Deus sempre existiu e não foi criado. Para dizer isso não é necessário postular Deus, basta dizer que o universo (ou a vida) sempre existiu e não foi criado.

Uma das mais interessantes idéias que aprendi na ciência pode estar relacionada com a criação do universo. Espaco vazio, isto é espaço sem matéria, não é totalmente vazio. Diversas partículas e anti-partículas são criadas "do nada", elas se chocam e deixam de existir. Tudo isso ocorre muito rapidamente. Esse fenômeno, chamado de flutuação quântica, foi observado independentemente em diferentes experimentos. A hipótese é que, em determinadas condições, esse conjunto de partículas "virtuais" poderiam aparecer do nada, mas não desaparecer, permitindo a criação de um ou até mais universos. Como explicam os físicos Hawking e Mlodinow no livro O Grande Projeto: "flutuações quânticas levam a criação de minúsculos universos a partir do nada. Uns poucos desses atingem tamanho crítico, e então se expandem de um modo inflacionário, formando galáxias, estrelas e, ao menos em um caso, seres como nós." O cosmólogo Lawrence Krauss publicou em 2012 o livro A Universe From Nothing dedicado a esse assunto, onde ele deixa claro que "na gravidade quântica, universos podem, e na verdade sempre irão, aparecer do nada."

Teólogos, religiosos e crentes de uma maneira geral insistem em repetir que a ciência não refuta a existência de Deus. Isso está tecnicamente correto: a ciência não refuta a existência de Deus, mas também não refuta a existência de papai noel, dragões e unicórnios. Hipóteses que lidam com a existência de alguma coisa são irrefutáveis: é impossível encontrar evidências de que algo não existe.

É importante ressaltar que, mesmo não havendo respostas definitivas para algumas perguntas, não quer dizer que Deus seja a resposta, ou que qualquer outra resposta esteja correta. Qualquer que seja a explicação, ela precisa ser suportada por evidências. E, pelo menos até agora, a ciência não encontrou nenhuma evidência para a existência de Deus; a ciência não só não inclui Deus nas suas explicações, como tem feito enorme progresso sem recorrer a nenhuma entidade sobrenatural. Para ciência, Deus é desnecessário, além de muito improvável. Como explica o cosmólogo Sean Carrol em Why (Almost All) Cosmologist are Atheists, "de todas maneiras na qual Deus foi considerado uma hipótese útil, há explicações alternativas que não requerem nada fora de uma descrição completamente formal e materialista."
Concluo que adicionar Deus só torna as coisas mais complicadas, e essa hipótese deve ser rejeitada pelo rigor científico".


Por Felipe Nogueira Barbara de Oliveira

Para ler mais:

1 - Richard Dawkins. O Relojoeiro Cego. A teoria da evolução contra o desígnio divino. 1986
2 - Richard Dawkins. O Maior Espetáculo da Terra. As evidências da evolução. 2010.
3 - Richard Dawkins. Deus, um Delírio. 2006
4 - Stephen Hawking & Leonard Mlodinow. O Grande Projeto. 2010
5 - Lawrence M. Krauss. A Universe From Nothing. Why There Is Something Rather Than Nothing. 2012
6 - Victor J. Stenger. God The Failed Hypothesis. How Science Shows God Does Not Exist. 2008
7 - Victor J. Stenger. The Fallacy of Fine-Tunning. Why The Universe Is Not Designed For Us. 2011
8 - Michael Shermer. Why Darwin Matters. The Case Against Intelligent Design. 2007
9 - Michael Shermer. Nothing is Negligible. Why There is something Rather than Nothing. Skeptic Magazine. Vol 17. No 3. 2012.
10 - Sean Carrol. Why (Almost All) Cosmologists are Atheists. 2005

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Erros e besteiras sobre o Big Bang




Introdução:

Há entre o público em geral um profundo desconhecimento sobre o que de fato significa a Teoria do Big Bang.

O principal problema está logo na leitura do enunciado da Teoria. As pessoas em geral leem que a Teoria se baseia na observação objetiva e clara de que o universo está em expansão em todas as direções.

As galáxias se afastam umas das outras em velocidades alucinantes.

Logo, tem que ter havido um tempo em que todo o universo estava concentrado no espaço de uma única galáxia.

Como não há NADA que impeça imaginarmos o processo continuando, temos de concluir que houve um tempo em que todo o universo estava concentrado no espaço de uma única estrela.

E assim por diante, temos de concluir que houve um tempo em que o universo inteiro estava concentrado num único PONTO.

A esse PONTO, o astrônomo e sacerdote católico Georges Lemaître deu o nome de “átomo primordial”. Nele estaria concentrada TODO o universo. Ponto final.

Isso em nenhum momento implica que o “átomo primordial” tenha “vindo do nada”, “sido criado por Deus” ou “vindo de outro universo”. A Teoria não pode prever nada disso. Será que isso ficou claro?

Então por que será que após ler essa descrição tão objetiva, as pessoas passam logo a fazer afirmações das mais estranhas e sem nexo? Isso é realmente um mistério para mim.

1 – O conceito filosófico de “Nada”.

O que é o “Nada”? Parece uma pergunta simples, mas na verdade não é.

Há várias definições filosóficas para o que seja o Nada, quase todas confusas.

Vamos tentar uma abordagem mais simples:

Imagine um lugar no espaço em algum tempo determinado. Imaginou?

Agora vá tirando TUDO o que tem lá. Tire os elementos sólidos, os líquidos, os gases, as radiações de todo tipo e no final retire até mesmo o tempo e o espaço. Isso seria o NADA.

Então o Nada existe? Na verdade, a resposta é NÃO. Simplesmente não existe uma forma de fazer o que eu descrevi. Não se pode tirar TUDO de algum lugar ou tempo. SEMPRE irá sobrar alguma coisa.

É o mesmo que o “número infinito”. O que é esse número?

Imagine um número MUITO grande. Imaginou? Ele é o “número infinito”?

NÃO. E por que não? Porque dado qualquer número, por maior que seja, sempre posso acrescentar a ele +1. E a esse +1 e assim eternamente.

Com o Nada é a mesma coisa. Sempre que você imagina o Nada, poderá pensar em lhe TIRAR mais alguma coisa. Daí não haver de fato um Nada de forma objetiva.

2 – A confusão de Krauss.

Lawrence M. Krauss é um físico e cosmólogo brilhante. Seu livro ““Um Universo que veio do nada: porque há criação sem Criador” foi um grande sucesso. Mas contem uma enorme “barbeiragem” em termos de filosofia.

O Krauss identificou o “Nada” dos filósofos como sendo algo parecido com o “Design Inteligente” dos criacionistas. De fato, ele diz no seu livro:

“O “design inteligente” é simplesmente um guarda chuva unificador para fazer oposição à evolução. Do mesmo modo, alguns filósofos e muitos religiosos definem e redefinem o “nada” como nenhuma das versões que cientistas descrevem atualmente” [1].

Como vimos anteriormente, essa não é a definição filosófica do “Nada”. Além disso, ele não se deu conta de que o conceito de “Creatio Ex Nihilo” (criação do nada) não está na Bíblia. É uma invenção de teólogos gregos para explicar o paradoxo de a matéria ser eterna juntamente com Deus. Se a matéria é eterna (como acreditavam os filósofos gregos) então não precisou ser criada. Não deve sua existência a Deus. Isso não parecia aceitável para aqueles piedosos doutores da Igreja.

Então o Krauss decidiu provar que o “Nada é alguma coisa” e “O nada é instável” respectivamente os títulos dos capítulos 9 e 10 do seu livro.

Isso se deve a uma forma de pensar um tanto estranha, ele escreveu:

“Claramente, o “nada” é tão físico quanto o “algo”, principalmente se for definido como a “ausência de algo”. Então cabe a nós entender exatamente a natureza física de ambos, E, sem a ciência, qualquer definição são apenas palavras” [2].

Esse é um erro em termos de filosofia. É como dizer que o número infinito de fato existe e pode ser definido de alguma forma como sendo um número inteiro e racional.

Em outras palavras, ele acabou por abrir uma enorme brecha para as críticas dos religiosos de que ele e outros “cientistas ateus” defendiam que o “universo veio do nada”. A inconsistência dessa abstração dos teólogos acabou se virando contra ele!

Não podemos dizer que o “Nada” é “físico”, lhe dar vários atributos e esperar que ele continue a ser nada...

3 – O que é afinal o BIG BANG?

A Teoria do Big Bang se baseia em algumas ideias relativamente simples e objetivas. Todas elas fruto de observações e matemática e não de especulação ou devaneios.

Há séculos se discutia se o universo era estático, ou seja, sempre foi do jeito que é, ou não.

Toda a Teoria da Gravitação de Isaac Newton se baseia em um conceito de universo estático. Esse universo seria assim desde sempre e o seria para sempre.

Como surgiu? Como Newton e seus amigos não queria “pagar de ateus”, desenvolveram o que se chamou de “deísmo”. O universo é uma espécie de relógio mecânico muito preciso e que surgiu a partir de um “Criador” que só o pôs para funcionar, mas depois se afastou e ninguém mais soube dele. “Se subiu, ninguém sabe, ninguém viu...”

Essa visão de mundo se manteve até Albert Einstein desenvolver a Teoria da Relatividade e escrever certas equações que lhe dão uma bela sustentação matemática.

Mas foi aí que surgiram dois caras muito chatos. Um era o russo Alexander Friedmann e o outro o padre católico Georges Lemaître. E o que foi que eles fizeram?

Bom. Eles pegaram as equações de Einstein e lhe colocaram ‘valores extremos” para ver se elas lhes podiam dizer sobre o passado do universo. E o resultado foi surpreendente:

Segundo as equações, o universo não era estável, mas tinha surgido de algum ponto inicial e se expandia constantemente. O padre até inventou um nome legal para o começo do universo: O “átomo primordial”.

A ideia parecia doida? Para Albert Einstein parecia. Ele disse aos dois que esquecessem o assunto porque estava desenvolvendo uma nova teoria que “explicaria” que o universo de fato era estável.

Depois ele publicou seu trabalho sobre a “Constante Universal” que resultaria que certas forças que equilibrariam a força da gravidade e manteriam o universo, belo e formoso, sempre estático.

Mas aí surgiu um cara mais chato ainda. Ele se chamava Edwin Hubble e, mesmo sem saber nada sobre o russo e o padre chatos, descobriu que todas as galáxias estavam se afastando umas das outras.

Como ele fez isso? Você já teve ter percebido que se uma ambulância ou carro de polícia passa por você, o som da sirene parece mais agudo quando ele vem e depois vai ficando mais grave quando ele se afasta.

Isso acontece porque quando ela se aproxima, as ondas sonoras se somam a velocidade do carro e quando se afastam se subtraem. Isso é chamado de “Efeito Doppler” e você já aprendeu isso com a Tia no ensino fundamental.

O efeito também acontece com a luz. E no caso, o que está se aproximando vai ficando mais azul e o que se afasta mais vermelho. É o “desvio para o vermelho”. E o nosso amigo Hubble descobriu que isso acontecia com todas as estrelas de todas as galáxias. Só podia haver uma conclusão: As galáxias estavam todas se afastando umas das outras.

E se é assim agora, então no passado tinham de estar todas juntas, na verdade muito juntas, exagerando, tinham de estar tão juntas que toda a massa e toda a energia do universo tinham de estar num único ponto “infinitamente denso e quente”.

Isso provou que o russo e o padre estavam certos e o bom professor Einstein estava errado. Isso é a Teoria do Big Bang.


4 – Um filme passado de trás para diante.

Outra forma de explicar o Big Bang é imaginar que estamos vendo a expansão do universo “de fora” dele. E não só isso, estamos vendo o processo todo acontecer ao contrário, de trás para diante, como num filme rodando do fim para o começo.

O que veríamos? Bem, as galáxias agora estão se aproximando umas das outras.

Num dado instante elas acabam por se entrelaçar e as estrelas começam a colidir umas com as outras formando objetos cada vez mais massivos.

Uma coisa interessante e muito importante é que a MASSA e a ENERGIA do universo permanecem a mesma. Embora a massa e a energia de vários corpos celestes se fundam e se transformem, a quantidade total de massa e energia permanece sempre a mesma.

Nosso filme ao inverso será um espetáculo espantoso de compressão de tudo o que existe em objetos cada vez menores e cada vez mais massivos. O volume do universo se reduz de forma dramática, mas sua densidade vai aumentado. A energia se condensa, mas a temperatura geral também vai aumentando.

Num dado momento mesmo os átomos se fundem em aglomerados de partículas subatômicas (qharks, elétrons, neutrinos e suas partículas) de onde nem os fótons mais conseguem escapar. Daí em diante não poderíamos ver mais nada.

Isso não significa que o universo tenha “virado nada”. Não. Ele estaria todo concentrado em algo que o Georges Lemaître chamou de “Átomo primordial”. Trata-se de “uma única partícula maciça de densidade infinita”. [3].

“Uma extrapolação da expansão do universo no passado, usando a relatividade geral, produz uma densidade e uma temperatura infinitas em um tempo finito.” [4].

Ou seja, em nenhuma das narrativas sobre a Teoria do Big Bang se diz que o universo “veio do nada”. Até porque como vimos no nosso “filme ao contrário”, é a própria MATÉRIA do universo que se junta de forma a formar o tal “átomo primordial”.

E é essa mesma MATÉRIA que se expande numa grande “explosão” ou, segundo teorias mais recentes, “inflaciona” de forma espetacular.

Visto isso, vamos deixar de uma vez por todas com essas afirmações descabidas de que o Big Bang é uma teoria que prevê que o universo “veio do nada”. E pior ainda que foi “criado” por algum “ser superior”. A Teoria, como vimos, não tem nada a ver com isso.




_______________

[1] “Um Universo que veio do nada: porque há criação sem Criador” / Lawrence M. Krauss – São Paulo: Paz e Terra, 2013. Página 12.
[2] Idem, inclusive a página.
[3] “Teoria do Big Bang” – Toda Matéria.
[4] “Big Bang” – Wikipédia.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Big Bang e Génesis: nada a ver!



Alguns religiosos gostam de parecer “científicos” e distorcem deliberadamente a Teoria do Big Bang de modo a que pareça se ajustar a narrativa da criação em Gênesis.

Na verdade, não há NENHUMA relação entre as duas coisas.
NA teoria do Big Bang, a toda a massa e energia, ou toda a matéria do Universo estavam concentradas em um único ponto de densidade e temperatura infinitos, mas JÁ EXISTIAM.

Hoje sabemos que espaço e tempo só existem em função da massa e da energia e, portanto, a massa e a energia existiam antes do tempo, ou seja, são ETERNOS.

A doutrina cristã ensina que Deus criou o Universo do NADA, mas a Teoria do Big Bang ensina que o que compõe o Universo é ETERNO.

Pelo que ensina a Teoria do Big Bang, Deus não pode ter criado nado porque TUDO já existia e só EVOLUIU para novos estados a medida que a temperatura diminuía.

O Big Bang NÃO É uma “explosão” e sim uma “inflação” do ponto inicial imensamente denso e quente. Isso não tem nenhuma semelhança com o Fiat Lux bíblico.

Em resumo, dizer que o Big Bang e o relato de Gênesis são “compatíveis” é uma afirmação insustentável.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Os Teofísicos



Nós todos os conhecemos e provavelmente há milhões deles no mundo. Eles acreditam em Deus, mas não são teólogos. Eles acreditam na ciência, mas não são cientistas. 

Eu os chamo de Teofísicos.

Dizem que a Física, em particular a Cosmologia do Big Bang, é a prova de que Deus existe. De alguma forma eles esquecem o facto de que apenas 7% dos 2 000 (estranhos) membros da Academia Nacional de Cientistas (os mais ilustres cientistas dos EUA), acreditam em Deus. †

Eles também esquecem o facto de que os Físicos e Astrónomos são aqueles que têm os níveis mais baixos de crença de todas as disciplinas científicas. Se a Física realmente mostrou que Deus existe, então essas são as pessoas que o deveriam saber. E elas rejeitam firmemente essa ideia.

Por que é que os Teofísicos estão tão errados?

Eles baseiam os seus argumentos na especulação, não em fatos, e assumem que as leis que governam a matéria no mundo quotidiano em que habitamos, também devem ter governado o pré-universo infinitesimal em que ainda não existia nenhuma matéria. Eles dizem isso apesar de saberem que o mundo quântico funciona de maneiras inesperadas, bizarras e contra-intuitivas.

Eles vão insistir que não havia nada, e de repente houve o Big Bang e logo de seguida havia tudo. E como algo não pode vir do nada, eles concluem que Deus deve ter criado tudo.

Mas não havia mesmo nada? Bom, nós não sabemos. Os físicos agora duvidam que exista algo como "nada". Pois parece que há sempre algo, mesmo num vácuo aparentemente vazio. Parece que a natureza do "nada", afinal... é algo.

Há outros paradoxos que devem fazer pensar os nossos ... Teofísicos. Aqui estão mais dois:

 » Em Julho de 2012, os cientistas do CERN no Large Hadron Collider, confirmaram a existência do Boson de Higgs. O campo de Higgs e sua partícula associada, o bóson, são agora conhecidos por darem massa a partículas elementares. Os modelos atuais mostram que o universo quando muito cedo, era extremamente quente, em torno de 10^32 graus Kelvin. A essa temperatura, o campo de Higgs não teria sido capaz de dar massa aos primeiros elétrons e quarks. Assim, parece que a massa do universo nos seus primeiros momentos, era exatamente ZERO.

» O universo atual contém energia negativa e positiva. Medições recentes mostraram que a quantidade energética do universo é ZERO. Lembre-se que a energia e a massa são intercambiáveis, são as duas faces da mesma moeda, então temos zero massa transformando-se num universo de energia zero.

Evidentemente que o universo é muito estranho, talvez mais estranho ainda do que podemos imaginar. Estamos agora no início de o entender, mas há uma coisa que já se pode ter certeza: se tu aplicares o mesmo pensamento que funciona para carros, futebol e churrascos, tu NUNCA o irás entender. Os homens e mulheres que se dedicam afincadamente a este problema, provavelmente irão conseguir entender, jogando fora todos os nossos preconceitos do quotidiano.

E isso nos leva de volta aos nossos Teofísicos. Essas pessoas estão aplicando a lógica de jardim de infância, aos problemas mais intratáveis e difíceis ​​da humanidade. A verdade é que eles não fazem isso para resolver esses problemas, eles fazem-no para encontrar lacunas de modo a fazer uma ligação ao seu deus de estimação. Eles são ignorantes ou desonestos. Ou as duas coisas juntas.



Edward J. Larson e Larry Witham, Nature 394, 313 (23 de Julho de 1998) ‡ Religião e Ciência nos Estados Unidos, Pew Research Center, novembro de 2009


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

domingo, 1 de janeiro de 2017

O que escolhes, uma viagem ou um livro?



Tu amas profundamente a física e estás emocionado à medida que descobres coisas sobre o universo. Queres aprender mais e és afortunado o bastante para poderes escolher entre uma viagem ou um livro.

1)A Viagem 

Tu podes fazer uma viagem a estabelecimentos científicos e conversar com os cientistas mais famosos e experientes hoje em dia. A tua tournée começará em Genebra, no Grande Colisor de Hádrons, onde aprenderás física de ponta de partículas.

Depois vais à Sociedade Max Planck, em Munique, na Alemanha, para aprenderes sobre os mais recentes pensamentos em mecânica quântica e visitar o laboratório de materiais avançados, onde vais aprender sobre investigação em nano-química.

Enquanto estiveres na Alemanha, vais dar um salto a Darmstadt, ao Centro de Operações Espaciais Europeus para conversar com o diretor da missão Rosetta que pousou a nave espacial Philae no cometa Churyumov-Gerasimenko. 

Em seguida, vais à NASA para falar com a equipe que opera a Curiosity Rover no seu passeio em Marte. Também vais visitar as equipes que estão por trás dos observatórios espaciais Hubble e Kepler e ser informado sobre o dilúvio de descobertas feitas por essas dois telescópios.

Finalmente, terás uma visita de duas semanas à Estação Espacial Internacional, onde poderás questionar os cientistas sobre os experimentos que realizaram enquanto vivem no espaço.

2) O livro 

O livro não é um livro comum. Este livro é dito ter sido escrito indiretamente pelo ser inefável que literalmente criou o universo inteiro a partir do nada. Essa figura intelectual gigantesca, aparentemente sabe tudo, não só sobre o universo e como foi feito, mas sobre seu passado, presente e futuro.

Se isso for verdade, o livro pode ser uma forma muito superior de aprender sobre o universo do que fazeres a viagem. E o livro ainda vem com um bónus incrível: é te oferecida a oportunidade de falares realmente com o criador diretamente, cara a cara. Isso poderá ser uma experiência de aprendizagem sem paralelo!

Há apenas um problema - o livro pode não ser o verdadeiro. O livro pode ter sido escrito, não por um intelecto transcendente, mas por homens relativamente simples, cujas respostas às perguntas do universo chegaram a eles em sonhos ou por estórias transmitidas de boca em boca ao longo de muitas gerações.


Antes de tomares uma decisão entre a viagem e o livro, precisas de decidir: É o livro genuíno ou falso? 

Felizmente, tu tens a permissão para o visualizar.

O livro começa mal. Não menciona o Big Bang, nem fala sobre o desenvolvimento do universo de mais de 13,7 mil milhões de anos, nem sequer menciona a gravidade sem a qual não há cosmologia. Ele fala de estrelas como luzes numa cúpula sobre a Terra e afirma que elas poderiam cair sobre a Terra! Ele até sugere que a Terra é plana. Ele fala da criação da vida por magia e omite tudo o que sabemos ser verdade através dos vários séculos de minuciosa observação, validação e testes.

Após a pré-visualização do livro, tu tomas a decisão e ela é fácil: Ou não estás interessado na mitologia, ou estás interessado na realidade. 

Na minha opinião, a viagem será a maior experiência da tua vida.
E o livro pode ir para o lixo.



Traduzido e adaptado de Bill Flavell

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Ateísmo versus Religião

  • Ateísmo: 

O entendimento de que no dado ponto do espaço-tempo onde a singularidade aconteceu, o potencial quântico colapsou em conjuntos de pares de partículas e anti-partículas virtuais devido a flutuações no vácuo quântico, ocasionalmente produzindo um valor diferente de zero e, posteriormente, a acreção solar e planetária condensou os gases remanescentes da expansão em estrelas e planetas cuja composição frequentemente inclui produtos químicos orgânicos que naturalmente formam ligações moleculares e, no nosso caso, auto-catalisadoras, ou seja, replicadores simples que preencheram os oceanos da Terra primitiva, eventualmente, crescendo em sofisticação, formando membranas lipídicas em torno de bolhas que protegem o RNA e, eventualmente, o núcleo DNA dos organismos unicelulares primeiros, que desenvolveram a capacidade de viver em colónias, tornando-se organismos multicelulares simples, como esponjas, as quais tornaram-se organismos intermediários, como os pólipos, que se tornaram invertebrados primitivos os quais ramificaram-se em vertebrados, dentre os quais alguns se tornaram peixes e, em seguida, anfíbios, um dos quais (Tiktaalik), é famoso entre os primeiros a rastejar para a terra seca, onde anfíbios ramificaram-se em répteis, que ramificaram-se tanto em mamíferos quanto aves, alguns detre os quais sobreviveram ao evento de extinção que matou os dinossauros tornaram-se primatas arborícolas que depois desceram das árvores e aprenderam a andar erectos a fim de carregar alimentos/ferramentas/filhotes e, obviamente, este protótipo humano eventualmente deu origem à nossa espécie. 

Pode parecer pouco intuitivo, mas foi assim que toda esta merda onde estamos e somos, aconteceu. 




  • Religião: 

A crença de que sempre existiu um homem invisível e o homem invisível criou magicamente o mundo e duas pessoas e essas duas pessoas multiplicaram-se em milhares de milhões e o homem invisível ameaçou as pessoas com uma eternidade de torturas a menos que ele fosse regado com louvores e honras e o homem invisível escreveu um livro através de um escritor fantasma, mas as pessoas editaram e reescreveram o livro diversas vezes, para que ele significasse aquilo que elas queriam que significasse. 
Tudo isso aconteceu porque um dia o homem estava entediado.

domingo, 7 de agosto de 2016

O termo Quântico


Actualmente, o termo “quântico” é usado exagerada, gratuita, e levianamente por aqueles que nada percebem de física quântica para tentar justificar as idiotices que defendem. 

Por exemplo, é usado em várias medicinas alternativas (holísticas, cristais, imposição de mãos, homeopatia de dissolução, etc) para tentar justificar aquilo que eles não conseguem explicar de outra maneira… porque é uma treta, basicamente. 

E é usada por certos religiosos e por certas religiões para tentar estabelecer uma ligação forçada entre deus e a ciência (porque já perceberam que não há como negar o sucesso e efectividade da ciência). Precisamente porque as Leis da Física, como as conhecemos até pouco tempo) são diferentes (e ainda pouco compreendidas) ao nível quântico, apressam-se a usar esse termo indiscriminadamente para tentar justificar a existência do metafísico e assim poder afirmar que deus, sendo metafísico, opera de acordo com Leis que não compreendemos e que diferem das Leis Naturais que conhecemos. 

Ou seja, é mais uma desculpa desesperada e mal amanhada para tentarem justificar o injustificável.

Texto de Rui Batista