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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

O crente inteligente não é um mito




Há-os, de facto.
Todavia, trata-se de pessoas com algumas peculiaridades no que se refere à sua capacidade intelectual.
São pessoas com a capacidade inata e/ou adquirida de realizar raciocínios lógicos e intelectualmente complexos.
Muitos desses crentes inteligentes são, inclusivamente, pessoas que pesquisam informação em livros ou na internet.

E conseguem expor argumentos que são, aparentemente, bastante racionais. Mas...

A capacidade de realizar raciocínios lógicos e intelectualmente complexos faz-se acompanhar da capacidade de suspender esses raciocínios para uma área particular, aceitando que existe uma circunstância em que a racionalidade e a lógica podem ser ignoradas por completo.
Concedem a si próprios a possibilidade de estabelecer um critério de excepção quando se trata da sua crença.
No que respeita à sua crença, consideram válido que se suspenda, flexione ou até que se inverta a lógica.
E as pesquisas que fazem, em livros e na internet, são alvo de filtragem criteriosa para poderem fazer "cherry picking" das partes que lhes interessam para tentar justificar, de forma pseudo-racional, a sua crença.
Se não conseguirem dissecar partes aproveitáveis para defender a sua crença, não têm pejo nenhum em interpretar tendenciosamente ou mesmo distorcer a informação a seu favor.
E, no que concerne à apresentação de argumentos, nunca apresentam argumentos seus. Afinal, são inteligentes mas só até certo ponto. Limitam-se a apresentar argumentos arcaicos e requentados que já foram refutados inúmeras vezes.
Quando são refutados de novo, entram em modo negacionista e tentam apresentar desculpas pontuais para remendar o argumento.
É, normalmente, nesta altura em que começam a meter os pés pelas mãos porque não conseguem defender aquilo que foi inventado por outros e cuja estrutura intelectualmente desonesta já foi desmontada várias vezes.

Por fim, os crentes inteligentes são particularmente perigosos para a humanidade porque são figuras de respeito perante os outros crentes menos inteligentes que os admiram e consideram que, pelo facto de eles aparentarem ser inteligentes, servem para justificar a validade da crença de ambos.

Portanto, em resumo, há crentes inteligentes.
E são minimamente inteligentes para tentarem racionalizar a sua crença.
Não não o suficiente para conseguirem sustentar a tentativa de racionalização da sua crença.
E, definitivamente, não suficientemente inteligentes para perceberem que acreditam numa mentira.

Texto de Rui Batista

sábado, 18 de janeiro de 2020

Como sabemos que os deuses são imaginários



Em todo o mundo e através do tempo, os seres humanos amaram e adoraram milhares de deuses. Mas, se um deus fosse real e todos os restantes falsos, nós saberíamos. Considere três possíveis benefícios de acreditar num deus:

1) ORAÇÃO
Os crentes em deuses falsos estariam constantemente reclamando que as suas orações nunca são respondidas, enquanto os crentes num deus verdadeiro estariam deliciados com a sua incrível taxa de sucesso.

2) COMUNHÃO
Os que acreditam num deus falso, lamentam o fato de nunca sentirem a presença do seu deus, enquanto que os que crêem num deus verdadeiro conversam com o seu deus diariamente e têm a certeza disso.

3) ORIENTAÇÃO
Os que acreditam num deus falso pedem conselhos ao seu deus, mas ainda assim tomam muitas decisões más, enquanto que os que acreditam num deus verdadeiro percebem que o seu deus habilmente os guia através dos obstáculos da vida.

Seria assim óbvio quais deuses eram verdadeiros e óbvio quais os outros que não são. Mas, aqui está a coisa interessante: não é óbvio! 
Todos os religiosos relatam esses benefícios a qualquer deus que eles adorem. Parece que todos os deuses funcionam igualmente bem!

Temos que concluir que, ou existem milhares de deuses verdadeiros ou então não existem. Mas como os deuses são tão diferentes e são tão contraditórios de várias maneiras, é impossível que todos os deuses sejam reais. Portanto, podemos descartar a opção de que todos os deuses são verdadeiros e nos resta apenas uma opção: nenhum é verdadeiro.

O fato de todos os deuses trabalharem igualmente bem é uma evidência clara de que todos são igualmente imaginários. Os benefícios relatados de orações respondidas, comunhão e orientação, podem ser nada mais que imaginação com uma grande dose de viés de confirmação.

Existe alguma outra conclusão razoável?


Texto de Bill Flavell

domingo, 15 de dezembro de 2019



1. FÉ 
Permite contradizer especialistas comprovados, mesmo que tu NÃO SAIBAS NADA sobre o tema.

2. FÉ  
Quebra as correntes da LÓGICA CLÁSSICA, para que tudo seja lógico, se tu assim quiseres! 

3. FÉ 
Dá-te o poder de ter a certeza de que uma crença é verdadeira, mesmo quando os outros sabem que é totalmente ridícula. 

4. FÉ 
Remove TODAS AS DÚVIDAS sobre uma crença, mesmo quando não há nenhuma evidência para ela. 

5. FÉ 
Torna a evidência contrária COMPLETAMENTE INVISÍVEL, para que não precises pensar sobre isso. 

6. FÉ 
Supera a resposta de CONSTRANGIMENTO que inibe pessoas normais de falarem idiotices. 

7. FÉ 
É epistemologia para IDIOTAS. (Não tentes em casa.)



Traduzido e adaptado de Bill Flavell

domingo, 8 de dezembro de 2019

O argumento mais popular do mundo para Deus, demolido.



Da minha experiência ao argumentar com crentes, concluo que a esmagadora maioria deles justifica a sua crença com um e apenas um argumento: o argumento "de onde as coisas vêm". 
O argumento é o seguinte:

P1: X existe (onde X é o Universo, a primeira célula viva, todos os seres vivos, seres humanos ou o que for).

P2: Não podemos explicar como X poderia vir a existir por processos naturais.

ASSIM SENDO
C1: X deve ter surgido através de um agente sobrenatural. Vou chamar esse agente sobrenatural de deus.

CONCLUO
C2: Meu deus existe. "

Este argumento tem vários problemas que o tornam inválido, mas qual é a maneira mais simples de refutar este argumento?

A primeira premissa (P1) é verdadeira, todos podemos concordar que o Universo ou a vida existe. Para o bem desta refutação, vamos assumir que a segunda premissa (P2) também é verdadeira.

O problema surge quando chegamos à conclusão (C1). O fato de não podermos explicar hoje como surgiu a primeira célula viva não significa que nunca iremos. Podemos descobrir como isso aconteceu sem um agente sobrenatural a qualquer momento, no futuro. Mesmo se NUNCA descobrirmos como isso aconteceu, isso não significa que X foi causado por um agente sobrenatural, pode ser algo que será para sempre difícil demais para nós descobrirmos. 
Essa última frase é importante, se houver dúvida, leia-a novamente.

Consequentemente, este argumento falha porque a conclusão não segue das premissas, é um non sequitur. No entanto, existe uma maneira pela qual os crentes poderiam corrigir esse argumento. Eles poderiam mudar P2 para:

P2: É IMPOSSÍVEL X passar a existir por processos naturais.

Mas então o problema é mostrar que P2 é verdadeiro. Como poderias mostrar algo que existe, e é feito dos blocos de construção dos quais todas as coisas naturais são feitas (protões, eletrões, átomos, etc.), não poderiam ter surgido por processos naturais? Irias precisar descartar todos os processos naturais possíveis e, para isso, compreenderias todos os processos naturais possíveis. Tu precisarias de um conhecimento abrangente, não apenas da física como é hoje, mas de toda a física que ainda temos que descobrir! É absurdo reivindicar tal conhecimento.

Alguns crentes acreditam que resolvem o problema da "impossibilidade" com um caso especial do argumento "de onde as coisas vieram". Eles apontam para o caso especial de "de onde veio o universo?" Eles dizem que é impossível obter algo do nada e isso DEVE ter acontecido para o universo existir. É verdade que nunca vimos algo surgir do nada no nosso Universo e a própria ideia viola as leis da física, tanto quanto as conhecemos.

Mas o universo veio do nada? Não temos motivos para acreditar que sim. A melhor evidência que temos até agora é que o universo veio de algo muito pequeno, muito quente e muito denso, o que significa que o desenvolvimento do universo foi um evento de transformação, não um evento de criação. Portanto, o universo não é um exemplo de algo que vem do nada.

Se os crentes não conseguem mostrar um exemplo de algo que é IMPOSSÍVEL explicar usando processos naturais, o argumento deles é absolutamente falho. E até agora, eles não conseguem. Leitores cuidadosos podem perceber outras razões pelas quais esse argumento não vale nada, deixarei para tu explorares.

Podes-te perguntar por que é que os crentes, aos milhares de milhões, se contentam em usar esse argumento terrível? Eu acho que a resposta é bem simples: os crentes não usam argumentos para acreditar em deuses, eles usam argumentos para racionalizar a sua crença nos deuses. Mesmo quando convences um crente de que esse argumento cheira mal, ele provavelmente continuará acreditando nele.

A crença nos deuses não é um resultado de lógica, é um resultado do desejo, impulsionado pela cultura. É por isso que temos tantos deuses, tantas religiões e sem bons argumentos para nenhum deles.


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Procurando terra firme...



Muitas pessoas usam uma lógica falha para concluir que o universo deve ter um criador inteligente. (Se ainda achas que essa lógica é válida, sente-te à vontade para explicar o motivo abaixo, mas ela já foi completamente refutada e arrasada, que eu nem vou perder tempo a discutir isso aqui).

Na maioria dos casos, essas mesmas pessoas também acreditam que o criador tem um elenco de amigos sobrenaturais, incluindo vários tipos de anjo, diabo, espíritos, querubins e demónios. Nenhum desses seres é necessário para a criação do universo e eles não são argumentos aconselhados pela lógica falha que leva a um criador inteligente.

O problema é que, uma vez que aceitas um criador sobrenatural, tens que aceitar um reino sobrenatural, e neste reino tudo poderia existir e qualquer coisa poderia acontecer. O sobrenatural também permite aos humanos poderes extraordinários, como serem bruxos, médiuns ou profetas.

Aceitando um reino sobrenatural, perdemos imediatamente e completamente a nossa capacidade de distinguir o factível do absurdo, pois nada é absurdo demais para esse reino e nada pode ser descartado. Estamos assim perdidos. As nossas ferramentas mais importantes, a lógica e as evidências, são impotentes e inúteis.

Mas lembra-te, chegamos aqui através de uma lógica falha. Retira essa lógica defeituosa e não há razão para acreditar num reino sobrenatural. Podemos novamente confiar na lógica e na evidência, e podemos distinguir o factível do absurdo.

Isso nos dá o nosso mundo de volta. Nós redescobrimos assim terra firme para nos apoiarmos.


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

domingo, 23 de junho de 2019

Um deus ignorante



A escravatura hoje é crime. Lógico, não é? As igrejas cristãs condenam essa prática horrível. Mas quando os portugueses e outros a praticavam, há séculos, não era. Os padres diziam que não era crime. Até estava na Bíblia!

Então o deus dos cristãos não sabia que a escravatura era crime e só aprendeu recentemente?

O deus só aprendeu quando os homens aprenderam. É lógico, porque o deus é uma invenção dos homens.
Se o deus, inteligência infinita, bondade infinita, existisse, tinha proibido a escravatura desde o início. E teria ensinado a praticar higiene, desinfeção, antibióticos, eletricidade, matemática, química, física, hidráulica, cosmologia, navegação, impressão, direitos humanos, eu sei lá as coisas maravilhosas que um deus sábio podia ter ensinado à humanidade, milhares de anos antes que os seres humanos as descobrissem sozinhos.

Em vez disso, o que está na Bíblia são ideias tão ignorantes como as do povo primitivo que escreveu o livro. O mundo feito em seis dias, a terra plana, proibição de comer porco e marisco, as mulheres menstruadas são impuras, burros falantes, bruxas, demónios e mortos que ressuscitam.

O deus antigo era tão ignorante como o povo que o adorava. Lógico: tinha sido imaginado por eles.


Fonte: Carlos Cabanita

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Algo que me deixa orgulhoso...



As pessoas têm-me deixado na caixa de mensagens alguns desabafos e outras mensagens dignas de nota. Dizem que deixaram a religião e dizem como isso transformou as suas vidas. Dizem que são mais felizes, têm menos medos, mais tempo livre e vêem o mundo sob uma nova luz, e que, por fim, agora tudo faz mais sentido.

Alguns deles até me agradecem. Eles dizem que as minhas publicações os ajudaram nas suas jornadas.

Fico feliz que as pessoas tenham se mudado de superstições criadas pelos seus ancestrais há muito falecidos, mas isso não é o que me deixa mais orgulhoso. O que me deixa orgulhoso é que nunca ameacei ninguém com torturas se não se tornasse um ateu, eu nunca coloquei uma faca na garganta de uma pessoa ameaçando: "Repita depois de mim. Não há Deus, não há Deus".

Eu nunca usei violência ou ameaças de qualquer tipo. Eu uso a lógica. Encorajo as pessoas a pensar melhor e, às vezes, uso do humor.

E eu tenho orgulho da nossa espécie. Orgulhoso de que, apesar da mais notória doutrinação infantil, as pessoas poderem alcançar a razão e mudar de crenças que se alojam nos profundos recessos dos seus cérebros. Essa é uma das coisas que nos faz grandes.

Todas as religiões usam a doutrinação infantil e algumas também usam ameaças de tortura eterna ou, até mesmo, ameaças de violência física ou de morte. Esses métodos são necessários para garantir que crenças ridículas persistam ao longo das gerações.

Nós não precisamos de crenças ridículas, não precisamos usar ameaças e violência contra nossos filhos, e não precisamos de religiões. Deixem eles irem.


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

sábado, 25 de agosto de 2018

Lógica assimétrica



Algumas pessoas religiosas são capazes de encontrar buracos fatais na montanha de evidências para a Teoria da evolução, buracos que até os biólogos profissionais não conseguem ver. Essas pessoas acreditam que deus, não a evolução, foi o responsável pela extraordinária variedade de espécies na Terra. Obviamente, só se deus existisse poderia ser o responsável, mas estranhamente, essas pessoas não conseguem oferecer nem um único pedacinho de provas para a existência desse deus.

A lógica deles parece ser de que, apesar da VASTA QUANTIDADE de evidências que temos para a Teoria da evolução, não são suficientes para a aceitar, mas NENHUMA evidência do que quer que seja para a criação, serve perfeitamente para aceitar a hipótese de deus.

Eu tenho cunhado um nome para essa nova forma de lógica, eu a chamo de "lógica assimétrica". 
Outros têm dado nomes muito menos educados para isso.


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

sábado, 21 de julho de 2018

A falácia do Deus Fora do Universo




Deus é frequentemente postulado, especialmente pelos teólogos modernistas, de existir fora ou além (ou como fonte do) Universo.

Eu tenho um problema de definição com qualquer "Deus fora do Universo", pois acho que o Universo deve ser definido como "a totalidade da existência", então nada pode existir fora do Universo.

No entanto, embora algo possa existir fora do nosso cosmo ou da nossa região do Universo, a falácia teológica aqui, é uma falha em compreender que se as coisas existirem além do nosso conhecimento (ou mesmo supostamente fora da nossa lógica), elas são necessariamente desconhecidas para nós e não reveladas. 

Isso é importante porque, se realmente existe uma explicação para as coisas ou para o poder além do nosso Universo (ou eu deveria dizer nosso cosmos), existem múltiplas possibilidades diferentes. Mesmo que a existência de Deus não fosse impossível em outros fundamentos lógicos, Deus seria apenas uma entre várias outras possibilidades e está além da experiência humana, conhecimento ou mesmo dados, de ser capaz de descobrir a verdade entre as várias possibilidades. 

É pior do que perguntar quem construiu uma casa quando todos os registros desapareceram - pode ter sido uma pessoa ou muitas pessoas. No caso do nosso cosmos, pode ter havido não apenas um criador animado, consciente, mas vários criadores trabalhando juntos - e não saberíamos se tais criadores eram mortais (como construtores) ou imortais. Ou pode ter sido devido a uma inteligência artificial (ou uma combinação de várias inteligências artificiais) como um computador ou um robô que se desenvolveu em vez de Deus. 

Ou - como eu posso dizer - tudo pode ter começado em algum lugar e desenvolvido a partir de infinitos acasos e apenas "decolado" quando algumas coisas em algum lugar alcançaram uma massa crítica de inteligência. (Pessoalmente, favoreço este cenário porque não creio que exista uma superinteligência complexa desde o começo ou desde sempre, sem nenhum processo de desenvolvimento.) 

Como não podemos ter conhecimento nem dados do que pode estar acontecendo além de nosso Universo ou cosmos (além dos poderes de observação e além da aplicabilidade dos nossos princípios científicos) não pode haver evidências, muito menos conhecimento de tais coisas. Assim, tais especulações são completamente não-evidenciadas e insubstanciáveis. Como há tantas possibilidades, não é apenas irracional, mas ilógico acreditar plenamente em qualquer especulação metafísica ou saltar para uma crença em Deus, quanto mais em qualquer versão particular da religião. 

De fato, até mesmo supor que qualquer Deus existe além do Universo é uma falácia lógica, um paradoxo de compreensão. Como um indivíduo pode saber racionalmente ou acreditar ou compreender razoavelmente uma coisa quando sua suposta existência está fora do Universo e fora do âmbito, da evidência ou da compreensão de alguém (na verdade, de qualquer ser humano)?


sábado, 30 de junho de 2018

Finalmente, a prova que deus é estúpido



Diz-se que deus é omnisciente e imutável. Mas quais são as implicações dessas características?

1) As pessoas estúpidas não conseguem aprender
Deus não consegue aprender porque ele já sabe tudo.

2) As pessoas estúpidas não mudam de ideias
Deus não pode mudar de ideias porque ele tem um plano perfeito. Se ele mudar de ideias, o seu plano tornar-se-á imperfeito.

3) As pessoas estúpidas não conseguem tomar decisões
Deus só consegue fazer o que está no seu plano e nada mais. Todas as decisões de deus são predeterminadas pelo seu plano.

4) As pessoas estúpidas não conseguem fazer planos
Deus não pode ter feito o seu plano, porque se ele tivesse feito, teria havido um tempo em que ele não sabia tudo, então ele não teria sido omnisciente. Mas deus é imutável, então ele deve ter sido sempre omnisciente. Portanto, o plano deve ser mais antigo que deus. Nesse caso, não pode ter sido deus o criador do seu próprio plano.

Então, temos um deus que funciona como um programa de computador, fazendo exatamente o que ele foi programado para fazer - nem mais nem menos, sem a necessidade de inteligência.

Faz algum sentido orar por ajuda a um deus estúpido? O que achas?


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Os teus sentimentos e deus



Se perguntares às pessoas por que acreditam em deus, a maioria vai-te dar uma razão derivada da lógica (no entanto, torturada e quebrada), mas uma minoria considerável ignora a lógica e confia inteiramente em seus sentimentos. A questão é: serão os sentimentos uma maneira válida de determinar o que é verdade? Uma pessoa pode dizer algo como "Eu sei que deus existe, eu sinto-o no meu coração".

Não tenho motivos para duvidar que essa pessoa realmente experimente sentimentos, mas quais são os sentimentos e que conclusões tu podes tirar deles? Existe uma extensa literatura científica sobre o assunto. Os sentimentos surgem da liberação de substâncias químicas - neuropeptídeos e neurotransmissores, no cérebro, e hormonas, na corrente sanguínea. A sensação que tens depende da mistura e quantidade de substâncias químicas liberadas e pode variar de medo agudo à total felicidade. Esses produtos químicos também enviam sinais ao teu corpo, para prepará-lo para algo que está a acontecer ou prestes a acontecer, por exemplo, para comer, correr, fazer sexo ou sentir dor.

A liberação de substâncias químicas é desencadeada pelo cérebro, especificamente pelo que o cérebro acredita que está a acontecer. Mas há um problema - o cérebro é facilmente enganado. Por exemplo, o cérebro pode acreditar que estás prestes a ter sexo e acionar todas as hormonas certas, mas, na verdade, tu estás apenas a sonhar ou a assistir aos píxeis a mudar de cor num monitor de PC!

Ou o cérebro pode acreditar que uma grande aranha está a aproximar-se e disparar hormonas de medo, apenas para descobrir que foi uma folha que caiu. É natural que toda a gente possa relatar incidentes em que fortes emoções foram desencadeadas por um falso alarme.

Na verdade, até mesmo uma suspeita pode ser suficiente para desligar o cérebro. Por exemplo, a suspeita de que o teu parceiro te traiu pode ser suficiente para criar emoções poderosas.

Há dois pontos aqui, sentimentos são desencadeados por crenças e o cérebro é facilmente enganado e levado a acreditar em coisas que não são verdadeiras.

Então, quando alguém diz que sente deus no seu coração, o que ele está mesmo a dizer é que, quando o cérebro dele acredita que deus está presente, isso desencadeia neuropeptídeos que o fazem sentir-se muito bem. Logicamente, isso é o mesmo que dizer: "Eu acredito em deus porque o meu cérebro acredita em deus". Não é um grande argumento, mas tem um atributo que o torna muito persuasivo - é um círculo vicioso de auto satisfação. Quanto mais tu acreditas, mais fortes são as emoções e quanto mais fortes são as emoções, mais tu acreditas.

Nós devemos concluir que os sentimentos não são evidências da existência de deus - eles são apenas evidência de tua crença na existência de deus. Se tu quiseres descobrir se deus existe, não olhes para dentro do teu cérebro, olha para o mundo.


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

sábado, 16 de junho de 2018

Por que a Primeira Causa é uma causa perdida?



Todo efeito que observamos na natureza tem uma causa. Extrapolamos a partir desse conjunto de dados incompletos, a ideia de que é razoável supor que CADA efeito deve ter uma causa e que denominamos isso de Lei da Causalidade. É claro que não observamos todas as causas de todos os efeitos que já ocorreram, então estamos fazendo um argumento indutivo. As induções não são absolutamente certas, mas no macro-mundo que experimentamos diretamente, nunca observamos um efeito que não tivesse causa. Mas as coisas são diferentes no nível quântico, onde partículas "virtuais" (elas são reais, mas temporárias) foram observadas surgindo e desaparecendo sem serem causadas, e onde alguns eventos dependem de probabilidades e não de causas.

Cada efeito no "macro-mundo", é a causa do próximo efeito. É uma cadeia ininterrupta que se estende desde o início dos tempos, se houve um evento como um começo... 
Efeitos SÃO Causas. Causas SÃO Efeitos. Eles SÃO os mesmos. 
E, se houve um começo para o tempo, isso foi um efeito em si mesmo e, portanto, com toda probabilidade, deveria ter tido uma causa ...

Os crentes usam essas ideias para fabricar um argumento para a existência de deus da seguinte forma: 

a primeira premissa é que "tudo tem uma causa", 
a segunda premissa é que "o universo começou a existir" 
e a inferência é que "deve haver um agente causal que pré-existia o universo '.

Vamos desconstruir isso: 

é um silogismo que é definido como uma dedução. Deduções dependem da natureza INQUESTIONÁVEL das suas premissas. Como mostrei acima, a primeira premissa, "tudo tem uma causa" é uma indução evidencial não falseável. Em outras palavras, é provavelmente verdade, mas não é absolutamente certo que ela é verdadeira e não pode ser comprovada sem se observar a causa de cada efeito, o que não vai acontecer. Isso deixa a premissa questionável, em vez de inquestionável, e só sabemos que se aplica no nível macro no reino natural (por isso, em itálico, "na natureza", no primeiro parágrafo).

A segunda premissa, "o universo começou a existir" é uma afirmação puramente hipotética. Nós, sinceramente, não sabemos se é verdade ou não. Também é questionável. Não há provas de qualquer forma. Até cerca de um século atrás, todos acreditavam que o universo era eterno e estável no seu estado. Então descobriu-se que ele está se expandindo e "invertendo" a expansão para trás, deu origem à ideia do "Big Bang", o que parecia apoiar as reivindicações teístas da criação. 
Mais recentemente, o "Big Bang" foi redesignado como um período inicial de "inflação" e presume-se que a origem o precedeu. O que aconteceu "antes" do Big Bang é objeto de especulação, não de factos. A ideia do "Estado Firme" está sendo reconsiderada, juntamente com o "Universo Saltitante", o Multiverso, a Singularidade e, sim, não podemos descartar isso, a Criação. 
O ponto é que estas são apenas proposições sem apoio de observação e é improvável que obtenham apoio observacional num futuro previsível. 
Nós simplesmente NÃO SABEMOS. Mas continuaremos procurando.

No entanto, observe que alegar que o universo teve um começo serve à proposição teísta de um evento de criação e de um criador implícito. Mas, a menos que a evidência aconteça, é apenas uma falácia ad hoc - uma alegação que "apoia" outra reivindicação.

Resumindo, nenhuma das premissas confere a necessária inquestionabilidade necessária para uma dedução. Não importa, vamos dar uma olhada em sua "dedução":

            "Deve haver um agente causal que pré-existiu o universo".

'Pré-existiu o universo' faz a suposição de que há algum espaço e tempo antes da existência do universo para um criador o criar (esse é um assunto para outro artigo chamado 'Você não pode montar um guarda-roupa IKEA sem tempo para o montar!'). Uma vez que o universo é o reino natural que estudamos há séculos e que já desenvolvemos alguma compreensão, essa "oficina de criação" deve ser antinatural - é mais comumente referida como sobrenatural. De fato, os crentes atribuem tais poderes ao ocupante do reino sobrenatural que um mágico daria os seus olhos para os ter.

Agora, lembre-se de que a Lei da Causalidade, como todas as leis da física, se aplica no reino natural. Não temos ideia do que pode acontecer num reino sobrenatural ininteligível, mas não há razão para supor que as leis da física devam ser aplicadas lá. Assim, "deve haver um agente causal que pré-existiu o universo" contém uma contradição: que deve haver uma localização de espaço / tempo NÃO NATURAL que, pelo menos parcialmente, obedece às leis da física. É ao mesmo tempo antinatura e natural!

Na busca desesperada por evidências para o seu deus, apesar do fato de que ele só é conhecido por se aplicar no reino natural, os crentes alegam, sem razão, que a Lei de Causalidade também se aplica no reino sobrenatural. 
Exceto que não é bem assim. 
Eles querem uma versão diferente. Eles não querem uma cadeia de causa e efeito, causa e efeito... Eles só querem uma única causa desconectada de qualquer fenômeno anterior e querem que ela seja realizada por um Ser sem causa. Já tinhas visto um melhor exemplo da falácia alegação especial?

Como podes ver acima, há um grande problema que não sabemos a solução. No entanto, os crentes, de alguma forma, conseguem interpretar essa ignorância suprema num argumento para o seu deus! 
Embora, estranhamente, não para o deus de outra pessoa!


sexta-feira, 15 de junho de 2018

Como sabemos que os deuses são imaginários.




Através do globo e através do tempo, os humanos amaram e adoraram milhares de deuses. Mas, se um deus fosse real e todos os restantes falsos, saberíamos. Considere três possíveis benefícios de acreditar em um deus:

1) ORAÇÃO
Os crentes em deuses falsos estariam constantemente reclamando que suas orações nunca são respondidas, ao passo que os crentes em um deus real estariam exultantes com sua incrível taxa de sucesso.

2) COMUNHÃO
Os crentes de um deus falso lamentariam o fato de nunca sentirem a presença de seu deus, ao passo que os crentes de um deus real falariam com seu deus diariamente e teriam certeza disso.

3) ORIENTAÇÃO
Os crentes em um deus falso pediriam conselhos a deus, mas ainda tomariam muitas decisões ruins, enquanto os crentes de um deus real encontrariam seu deus habilmente orientando-os através dos obstáculos da vida.

Seria óbvio que os deuses eram reais e óbvios que os outros não eram. Mas, aqui está o interessante - não é óbvio. Todas as pessoas religiosas relatam esses benefícios, qualquer que seja o deus que eles adoram. Parece que todos os deuses funcionam igualmente bem!

Nós temos que concluir que, ou há milhares de deuses reais, ou não há nenhum. Mas como os deuses são tão diferentes e contraditórios em muitos aspectos, é impossível que todos os deuses sejam reais. Assim, podemos descartar a opção de que todos os deuses são reais e ficamos com apenas uma opção - nenhuma é real.

O fato de que todos os deuses funcionam igualmente bem é uma clara evidência de que todos são igualmente imaginários. Os benefícios relatados de orações respondidas, comunhão e orientação podem ser nada mais do que imaginação com uma grande dose de viés de confirmação.

Existe alguma outra conclusão razoável?

Traduzido e adaptado de Bill Flavell

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Eu já fui um ateu...




Aposto que todo ateu já ouviu cristãos alegando que eles já foram ateus. Quando ouço isso, sempre pergunto por que é que eles eram ateus e invariavelmente descobri que eles não eram realmente ateus - eram apenas cristãos preguiçosos. Em vez de orar/ir à igreja, eles preferiam beber/sexo/drogas/pornografia/jogos de azar ou outras atividades ímpias.

Então eu pergunto por que é que eles mudaram de ideia e sempre me deram uma razão emocional: eles tiveram uma experiência de algum tipo e descobriram Jesus. O que eu nunca ouço é: "eu encontrei o argumento ontológico/cosmológico/teleológico ..." [ou qualquer outra coisa].

Bem, na minha opinião, se tu fosses um ateu por nenhuma razão lógica, serias um mau ateu e se és agora um cristão sem nenhuma razão lógica, és um mau cristão.

Se a lógica te leva ao ateísmo, então certamente permanecerás ateu porque não importa o quanto sua vida mude, a lógica teimosamente permanecerá a mesma. A beleza da lógica é que ela não depende de como tu te sentes hoje.


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Vamos ser compreensivos...




Eu sei que os ateus ficam frustrados quando os crentes usam argumentos falaciosos como do espantalho, apelos à autoridade, raciocínios circulares e muitas outras falácias lógicas, tal como quando tentam mudar o ônus da prova para cima dos ateus.

Acho irritante quando eles são derrotados num ponto do seu argumento, mas eles simplesmente mudam de assunto sem reconhecer que seu argumento falhou completamente. Isso é frustante. Mas nós sabemos muito mais e também devemos ser mais compreensivos.

Afinal, se eles usassem uma lógica válida, eles também seriam ateus e então não teríamos ninguém com quem brincar.


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

terça-feira, 3 de abril de 2018

Há crentes inteligentes?



O crente inteligente não é um mito.
Há-os, de facto.
Todavia, trata-se de pessoas com algumas peculiaridades no que se refere à sua capacidade intelectual. São pessoas com a capacidade inata e/ou adquirida de realizar raciocínios lógicos e intelectualmente complexos.
Muitos desses crentes inteligentes são, inclusivamente, pessoas que pesquisam informação em livros ou na internet.
E conseguem expor argumentos que são, aparentemente, bastante racionais. Mas...

A capacidade de realizar raciocínios lógicos e intelectualmente complexos faz-se acompanhar da capacidade de suspender esses raciocínios para uma área particular, aceitando que existe uma circunstância em que a racionalidade e a lógica podem ser ignoradas por completo. Concedem a si próprios a possibilidade de estabelecer um critério de excepção quando se trata da sua crença.

No que respeita à sua crença, consideram válido que se suspenda, flexione ou até que se inverta a lógica.
E as pesquisas que fazem, em livros e na internet, são alvo de filtragem criteriosa para poderem fazer "cherry picking" das partes que lhes interessam para tentar justificar, de forma pseudo-racional, a sua crença.
Se não conseguirem dissecar partes aproveitáveis para defender a sua crença, não têm pejo nenhum em interpretar tendenciosamente ou mesmo distorcer a informação a seu favor. E, no que concerne à apresentação de argumentos, nunca apresentam argumentos seus. Afinal, são inteligentes mas só até certo ponto. Limitam-se a apresentar argumentos arcaicos e requentados que já foram refutados inúmeras vezes.
Quando são refutados de novo, entram em modo negacionista e tentam apresentar desculpas pontuais para remendar o argumento.
É, normalmente, nesta altura em que começam a meter os pés pelas mãos porque não conseguem defender aquilo que foi inventado por outros e cuja estrutura intelectualmente desonesta já foi desmontada várias vezes.

Por fim, os crentes inteligentes são particularmente perigosos para a humanidade porque são figuras de respeito perante os outros crentes menos inteligentes que os admiram e consideram que, pelo facto de eles aparentarem ser inteligentes, servem para justificar a validade da crença de ambos.

Portanto, em resumo, há crentes inteligentes.
E são minimamente inteligentes para tentarem racionalizar a sua crença.
Não não o suficiente para conseguirem sustentar a tentativa de racionalização da sua crença.
E, definitivamente, não suficientemente inteligentes para perceberem que acreditam numa mentira.

Texto de Rui Batista

quarta-feira, 21 de março de 2018

O pior argumento do mundo para a existência de deus?



Permite-me oferecer-te um argumento ridículo.

ARGUMENTO 1

P1) O universo existe.
P2) O universo não conseguiu criar-se a si próprio.
P3) Algo extremamente poderoso e fora do universo deve ter feito isso.
Logo,
C1) O Super-Homem existe.

Se duvidas disto, repara que há provas. O Super-Homem é extremamente poderoso e sua história é relatada em mais de 12 000 edições da Action Comics a partir de 1938.

Não é difícil ver que esta lógica é ridícula e é por isso que ninguém a usa. Mas, e que tal a seguinte versão com a mesma lógica?

ARGUMENTO 2

P1) O universo existe.
P2) O universo não conseguiu criar-se a si próprio.
P3) Algo extremamente poderoso e fora do universo deve ter feito isso.
Logo,
C1) Yahweh existe.

Se duvidas disto, repara que há provas. Yahweh é extremamente poderoso e sua história é relatada em 39 livros escritos durante um período de quase 1 000 anos a partir de cerca de 3 500 anos atrás.

Este argumento é igualmente ridículo, mas é usado por milhões de pessoas.

Há vários problemas com este argumento, mas eu quero concentrar-me em apenas um. Ambos os argumentos fazem surgir um personagem assim do nada e afirmam que ele criou o universo. Nada nas premissas deste argumento nos leva ao agente que supostamente se dizia ser o responsável.

As premissas não mostram que o Super-Homem ou Yahweh sequer existem - obviamente, se eles não existirem, eles não poderiam ter criado o universo. Não importa que os autores da bíblia dissessem que o "Senhor" fez isso - eles podem simplesmente ter inventado isso. 
Nós não temos como saber. 
Também não importa que os autores da Action Comics não mencionassem que o Super-Homem fez isso. Eles podem ter omitido isso por razões que não conhecemos.

Isto são argumentos circulares. Eles começam assumindo que existe um agente específico e, em seguida, conectam esse agente à conclusão final. Assim cometeste uma falácia lógica.

O argumento poderia muito bem ser melhorado da seguinte forma:

ARGUMENTO 3

P1) O universo existe.
P2) O universo não conseguiu criar-se a si próprio.
P3) Algo extremamente poderoso e fora do universo deve ter feito isso.
Logo,
C1) Precisamos descobrir o que foi.

Assim está melhor, mas ainda tem umas premissas que não podemos ter a certeza de que são verdadeiras... 

Mas vamos deixar isso por enquanto. O meu melhor conselho é que não deves te aproximar deste argumento - ele fede!


PS.: Por favor, não reclames por eu não ter usado a versão mais forte deste argumento. Eu sei. Simplifiquei-o por brevidade. Eu só queria explicar a circularidade de que as outras versões mais fortes também sofrem.


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

segunda-feira, 19 de março de 2018

O Jesus mítico e impostor



Observando a crítica dos teólogos cristãos, vemos que eles pregam um exclusivismo fanático. Enquanto dizem que os deuses dos povos orientais são míticos, elevam o seu a um patamar inquestionável. Essa perspectiva exclusivista levou alguns estudiosos a considerar o Cristianismo perigoso. Se Jesus é meramente outro deus em meio a muitos outros do mundo antigo, apenas um profeta que esposou as filosofias e morais que estava em voga antes de seu tempo, por que somente ele deve ser considerado verdadeiro em vez de um mito também? E pior, o Cristianismo afirma que ele não era apenas um profeta, mas também o Deus único do Universo.

Em vista do contexto religioso e histórico em que Jesus, o Messias, foi formado, não resta dúvida que ele é o resultado psicológico de um povo vivendo numa era apocalítica. Poucas pessoas questionam se Jesus foi realmente um personagem histórico nascido entre 7 e 4 a.C., em Israel, que ele morreu na cruz e ressuscitou dentre os mortos.

Todavia, as razões para esses eventos levam a uma encruzilhada nas tradições religiosas. Quando se examina o Jesus do qual o Cristianismo fala, percebe-se que ele fica destituído de ambientação histórica. As profecias e o cumprimento delas na vida de Jesus, de forma distinta dos ensinamentos do Budismo e do Hinduísmo, parecem verdades para o homem ocidental. Ainda assim, nos escritos de outras religiões, descobrimos crenças muito parecidas com aquelas apresentadas nos evangelhos canônicos. Algumas tradições afirmam que, nas cordilheiras do Himalaia, a partir dos 12 anos, Jesus recebeu “orientação espiritual” dos lamas tibetanos e retornou a Jerusalém logo depois de completar trinta anos. Ele, depois disso, fez milagres e profecias, mas escapou da crucifixão e retornou à Índia, onde viveu na Caxemira, e seu túmulo está lá até hoje. 

Na literatura hindu, a tradição insiste que Jesus visitou a Índia durante o reinado do rei Shalivahan. De acordo com esses relatos, Jesus disse que ele se chamava Yuz Asaf e passou a ser conhecido como Isa Masih, ou Jesus, o Messias. Encontra-se essa afirmação em escritos que, supostamente datam do ano 115 da nossa era.

Algumas lendas dizem que, depois da morte de Judas na cruz (o verdadeiro crucificado), Jesus foi a Damasco por um período de dois anos, onde ocorreu o encontro com Paulo. Afirma-se que ele pregou para o rei de Nisibis, no sudeste da Turquia. 

Outra perspectiva é que Jesus viajou para o Afeganistão onde fez milagres, enquanto outras lendas afirmam que ele e sua mãe foram para o Paquistão, fundamentando-se no Sura 23:50 do Alcorão onde está escrito que Maria foi enterrada nesse local, no cume de uma montanha. 

Alguns ditos de Jesus estariam em inscrições próximas de Caxemira, na Índia, e houve especulação de que esses ditos pudessem ser “logias” mencionadas no século II por Papias, discípulo de João. Um mito comum é que a história de Jesus, na realidade, é a história recontada de Krishna. Parte dessa crença fundamenta-se na opinião de alguns Pais da Igreja que não consideravam a religião ensinada por Jesus como nova e única. 

O primeiro historiador da igreja, Eusébio de Cesareia, escreveu: “A religião de Jesus Cristo não é nova nem estranha”. E Agostinho de Hipona alega: “Isso, em nossa época, é a religião cristã, não que não fosse conhecida em tempos antigos, mas recebeu esse nome recentemente”. Em acréscimo a isso, de acordo com o Hinduísmo, Krishna, o oitavo avatar ou manifestação do deus Vishnu, possui mais de cem pontos de comparação com a vida de Jesus. 

Mas, se isso for verdade, então a maioria das crenças essenciais cristãs sobre Jesus terá de ser abandonada, se aceitarmos a anterioridade de 900 anos dos fatos sobre Krishna. Em vista destes fatos, parece que o Cristianismo está em uma situação difícil, sendo apenas uma religião fundamentada em traços de outras religiões da Antiguidade. Há um importante contraste, entretanto, entre a religião de Krishna e a Bíblia: a primeira tem uma ênfase panteísta, ao passo que a última afirma haver uma distinção entre Deus e o mundo; a perspectiva do Hinduísmo é filosófica e ética, enquanto a perspectiva cristã pretende ser histórica. 

Para mim, não faz a menor diferença se ele nunca existiu, mas notem que a historicidade de Jesus é essencial para a “salvação eterna” prometida para o cristão, e esse é o ponto psicológico da aceitação do mito cristão. Apesar da enorme “coincidência” ente os ensinamentos de Jesus e Buda (que viveu 500 antes), o último ensinamento da senda óctupla do Budismo é a “concentração correta” - a intensificação do fator mental presente em todo estado de consciência, uma tentativa deliberada para elevar a mente ou a consciência a um nível mais purificado -, mas Jesus nunca ensinou esse tipo de meditação, antes o objetivo dele não era para que lutássemos para alcançar um estado de supraconsciência, mas sim que o conheçamos e o sigamos, numa clara demonstração de persuasão para a dominação. 

O texto bíblico relata-nos que Jesus era o Cordeiro de Deus que veio tirar o pecado do mundo (um plágio do deus Mitra). A segunda vinda de Jesus, minha última consideração, é visto como o juiz vindouro que virá buscar sua igreja para si mesmo na ressurreição e, conforme meu entendimento das Escrituras, quando ele vier estabelecerá o reino prometido a Davi e a Israel. Na primeira parte de sua segunda vinda, ele resgata sua noiva; e, na parte final, ele vem para julgar e reinar sobre a Terra. Como as várias religiões do mundo têm posições contraditórias em relação à natureza de Deus, ao pecado, à salvação e às outras crenças, todas elas (inclusive o Cristianismo) não podem estar corretas sobre o que é verdade. 

A lei básica da Lógica é chamada de a lei da não contradição. Duas proposições opostas uma à outra não podem ser as duas verdadeiras ao mesmo tempo. Não posso tomar algo por verdade, se isso já não for verdade; posso descobrir que algo é ou não verdade e aceitar ou rejeitar essa verdade. Aquilo que aceitamos como verdade sobre a “palavra de deus” exclui todas as outras possibilidades sobre a afirmação da verdade que criamos. 

Quando colocamos várias religiões lado a lado, descobrimos um número excessivo de perspectivas contraditórias, uma em oposição à outra. Não é possível que todas elas sejam verdadeiras, mas Jesus afirmou “que ele era a verdade, o caminho e a vida”, e que ninguém vem ao Pai exceto por intermédio dele. Essa perspectiva é estreita e exclusiva. 

O Cristianismo, conforme tradicionalmente se acreditou por dois mil anos, é perigoso, destrutivo e aviltante. Acreditar que Jesus é o único Salvador do mundo, que ele é Deus em carne e que é necessário crer nele para ter a vida eterna, é um ponto de vista prejudicial. O Cristianismo, no entanto, nunca foi aceito unanimemente e, tampouco, essa abordagem será bem-sucedida no futuro.