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domingo, 26 de agosto de 2018

Um criador divino e a parcimónia



Por que não considero que o Universo tenha sido criado por um ente sobrenatural, cônscio-intencional, descrito como *deus*?

Por uma questão de *parcimónia* -- deus aparece simplesmente pela lacuna do nosso conhecimento quanto as origens do cosmos...por haver um mistério a desvendar.

Parcimónia é um conceito de frugalidade, economia ou precaução ao chegar a uma hipótese ou curso de ação. Seu significado pode ser traduzido por "menos é melhor". Trata-se de um princípio geral que tem aplicações desde a ciência até a filosofia e em todos os campos relacionados a elas.

Doenças, germes, não são fruto de demónios ou da fúria divina. Tempestades? Forças atmosféricas naturais impulsionados pelo Sol. 
O próprio Sol? Não, também não é um deus, mas um reactor de fusões ocorrendo espontaneamente na natureza.

Nos últimos séculos desde o vigoroso avanço do conhecimento humano, ciência e naturalismo tem marcado golos e vem obtendo uma série de triunfos. Nem sequer uma única vez, fenómeno algum que nós acabamos por entender, foi comprovado ser a ação de algo sobrenatural...

Imagine um cavalo que ganhou centenas de corridas e continua sem perder, continua crescendo em vitalidade e força. Quem não iria querer investir ou apostar nele com tal recorde de vitórias? Agora pense num cavalo rival que sempre falhou no passado miseravelmente -- tal como uma explicação recaindo na existência do sobrenatural que tem falhado como mecanismo explanatório durante todo este período...um recorde de 100% de falhanços.

Intencionando investir o seu dinheiro, em qual dos cavalos uma pessoa sensata iria investir o seu precioso dinheiro?... Penso ser clara a resposta.

Esta é a situação que nos deparamos quando confrontados com algum novo mistério, como a questão "qual a causa/origem do cosmos"... Com base no recorde, sendo parcimoniosos, temos todo motivo para esperar que, quando nós finalmente descobrirmos e validarmos a resposta, iremos encontrar o que encontramos todas as outras vezes que resolvemos um mistério: a causa/origem é natural.

Texto de Asor Otsenre

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Há comportamentos sexuais contranatura?




Como podemos distinguir o que é biologicamente determinado do que as pessoas tentam meramente justificar através de mitos biológicos? Uma boa regra é: "a biologia permite, a cultura proíbe." A biologia está disposta a tolerar um espectro muito alargado de possibilidades. É a cultura que obriga as pessoas a tornarem reais determinadas possibilidades ao mesmo tempo que proíbe outras. A biologia permite que as mulheres tenham filhos - algumas culturas obrigam as mulheres a efetivarem esta possibilidade. A biologia permite que os homens tenham relações entre si - algumas culturas proíbem-nos de concretizar essa possibilidade.

A cultura tende a afirmar que apenas proíbe o que não é natural. No entanto, de uma perspetiva biológica, nada há que não seja natural. O que for possível também é, por definição, natural. Um comportamento verdadeiramente contranatura, que vá contra as leis da natureza, não pode existir, por isso não necessitaria de qualquer proibição. Nenhuma cultura se deu ao trabalho de proibir os homens de fazerem fotossíntese, as mulheres de correrem mais depressa que a velocidade da luz ou os eletrões negativamente carregados de serem atraídos uns pelos outros.

Na verdade, os nossos conceitos de "natural" e de "não natural" não provêm da biologia, mas da teologia cristã. O significado teológico de "natural" é "de acordo com as intenções de Deus, criador da Natureza". Os teólogos cristãos argumentam que Deus criou o corpo humano com a intenção de que cada membro e órgão servisse determinado propósito. Se usarmos os nossos membros e órgãos para o propósito pretendido por Deus, então trata-se de uma atividade natural. 
Contudo, a evolução não tem um propósito. Os órgãos não evoluíram com um propósito e a forma como são usados está em constante alteração. Não existe um único órgão no corpo humano que só faça o trabalho que o seu protótipo fez quando surgiu, há centenas de milhões de anos. Os órgãos evoluem para executarem determinada função, mas a partir do momento em que existem, podem ser adaptados a outros usos. As bocas, por exemplo, surgiram porque os organismos multicelulares mais antigos precisavam duma forma de introduzir nutrientes nos seus corpos. Ainda usamos as bocas para esse fim, mas também as usamos para beijar, falar e, se formos o Rambo, para arrancar as cavilhas de granadas. Será algumas destas utilizações não natural apenas porque os nossos antepassados, semelhantes a vermes, de há 600 milhões de anos não faziam essas coisas com as suas bocas?

Da mesma forma, as asas não apareceram de súbito em toda a sua glória aerodinâmica. Evoluíram a partir de órgãos que serviam outro propósito. De acordo com uma teoria, as asas dos insetos evoluíram há milhões de anos a partir de protuberâncias no corpo de insetos sem asas. Os insetos com saliências tinham uma superfície maior do que os insetos sem elas e isso permitia-lhes absorver mais luz solar  e, assim, manterem-se mais quentes. Num lento processo evolutivo, estes painéis solares ficaram maiores. A mesma estrutura, que era boa para uma absorção solar máxima - muita superfície, pouco peso -, por coincidência também conferia aos insetos alguma apoio quando estes pulavam e saltitavam.. Os que tinham proteburâncias maiores podiam pular e saltitar para mais longe. Alguns insetos começaram a usá-las para deslizar, e a partir daí foi um pequeno passo para as asas capazes de lançar um inseto no ar. Da próxima vez que um mosquito lhe zumbir ao ouvido, acuse-o de comportamento não natural. Se fosse bem-comportado, e se contentasse com o que Deus lhe deu, usaria as suas asas apenas como painéis solares.

O mesmo tipo de multifunções aplica-se aos nossos órgãos e comportamentos sexuais. O sexo evoluiu, inicialmente, para a procriação e os rituais de corte como forma de avaliar a boa forma de um potencial parceiro. No entanto, muitos animais usam as duas coisas para uma multiplicidade de propósitos sociais, que têm pouco a ver com a criação de pequenas cópias de si mesmos. Os chimpanzés, por exemplo, usam o sexo para cimentar alianças políticas, estabelecer intimidade e aliviar tensões. Será que isso não é natural?


Extrato do livro Sapiens: História breve da Humanidade, de Yuval Noah Harari

terça-feira, 21 de novembro de 2017

A aparente complexidade do cosmos



A aparente complexidade do cosmos em geral e da natureza em particular (na realidade são ambas e a mesma coisa, ou seja, tudo o que é natural), não é prova da existência de um deus.

O cosmos não é complexo a ponto de só poder ser explicado por uma suposta entidade consciente e intencional.

A aparente complexidade do cosmos deve-se à quantidade abismal de variáveis e processos em acção que são difíceis de sistematizar de uma forma descritiva que permita uma previsão e compreensão globalizante.

É como a previsão meteorológica.

Não é possível criar um modelo perfeito de previsão de movimentos das massas de ar porque é um modelo probabilístico orgânico que depende de tantas variáveis que a única maneira de haver um sistema de previsão seria ter um que contabilizaria TODAS AS VARIÁVEIS que condicionam os movimentos dos ventos.

Basta que um avião caia e haja uma explosão para que se alterem as condições de temperatura num local e que se alterem variáveis suficientes do sistema para que qualquer previsão fosse alterada.

Basta que haja um acidente que provoca uma fila de trânsito que aumente as emissões de CO2 e isso vai alterar o equilíbrio de todo o sistema.

Basta que haja um fogo florestal ou o rebentamento de uma conduta para que se alterem factores de temperatura e humidade relativas suficientes para alterar as variáveis que condicionam o funcionamento do sistema climatérico.

Por isso é que é IMPOSSÍVEL criar um sistema de previsão climatérico perfeito. Porque seria necessário um sistema que simulasse TODOS os factores que contribuem para esse sistema organicista e muitos dos factores são imprevisíveis.

É como costumam dizer: "O bater de asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar um furacão em Nova Iorque."

Portanto, a aparente complexidade do cosmos é apenas devido à imensidade do cosmos e à quantidade de variáveis que estão em acção.

O mesmo se aplica ao "micro-cosmos" terrestre, ou seja à "natureza".

A atitude correcta perante a aparente complexidade é a de a analisar e tentar arranjar modelos descritivos correctos o suficiente para poder sistematizar e prever fenómenos naturais. É o que os cientistas, nos últimos 200 anos têm feito. Nunca serão modelos perfeitos pois têm sempre que ignorar as variáveis mais subtis. Mas são perfeitos o suficiente para nos permitir prever eventos ou resultados com um grau de precisão aceitáveis.

Por isso é que se conseguem construir aviões, foguetões, automóveis, telemóveis, televisores, computadores, etc.

Porque se compreendem os fenómenos físicos intrínsecos que governam tudo.

Quando se atribui a aparente complexidade a uma divindade, é porque se desistiu de pensar. É porque se é intelectualmente preguiçoso e se prefere a resposta fácil de "foi deus".


Por Rui Batista

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O que prova a micro evolução




Os criacionistas preferem acreditar nos mitos e na magia em vez de aceitarem as evidências e a Razão. Mas, dado o enorme peso das evidência, até mesmo os criacionistas acham difícil negar a micro evolução (mudanças dentro de uma espécie, como mudanças na forma dum bico de ave). Então eles admitem que a micro evolução é real. 

Boa. Mas o que é que a micro evolução prova? Ela prova que existe um mecanismo que causa variações genéticas entre as gerações. E prova que algumas variações genéticas podem se disseminar numa população ao longo de várias gerações.

Há apenas mais uma coisa que precisamos saber, as mudanças genéticas numa população são cumulativas. Digamos que uma micro-alteração ocorre numa população, quando uma segunda micro-alteração ocorre na mesma população, será ADICIONADA à mudança anterior. Enquanto uma população sobreviver, não há limite para o número de micro-mudanças que podem se acumular.

Ao acumular muitas pequenas mudanças ao longo das gerações, uma barbatana pode se tornar nnuma perna (os ossos podem mudar de forma e tamanho)? Claro que pode. Poderia uma perna desaparecer completamente ou quase completamente? Claro que poderia. Poderia uma aba de pele se tornar uma asa? Claro que poderia. 

Em determinado momento, o acumular de mudanças genéticas significaria que os membros dessa população evoluída, não poderiam mais se acasalar com um membro da população original (assumindo que alguns sobreviveram). Nesse ponto, dizemos que uma nova espécie evoluiu. Isto será micro evolução ou macro evolução?

Em algum momento, uma população que fez a sua vida escalando árvores poderia mudar e ganhar a vida correndo na savana e comer uma dieta totalmente diferente. Isto será micro evolução ou macro evolução? A realidade é que existe apenas uma micro evolução. Mas dê à micro evolução tempo suficiente e as pressões da seleção e terás a macro evolução. Com tempo e a  seleção natural, a macro evolução é INEVITÁVEL.

Em quatro mil milhões de anos, a vida na Terra teve muito, muito tempo, e muitas pressões da seleção natural.


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Os Teofísicos



Nós todos os conhecemos e provavelmente há milhões deles no mundo. Eles acreditam em Deus, mas não são teólogos. Eles acreditam na ciência, mas não são cientistas. 

Eu os chamo de Teofísicos.

Dizem que a Física, em particular a Cosmologia do Big Bang, é a prova de que Deus existe. De alguma forma eles esquecem o facto de que apenas 7% dos 2 000 (estranhos) membros da Academia Nacional de Cientistas (os mais ilustres cientistas dos EUA), acreditam em Deus. †

Eles também esquecem o facto de que os Físicos e Astrónomos são aqueles que têm os níveis mais baixos de crença de todas as disciplinas científicas. Se a Física realmente mostrou que Deus existe, então essas são as pessoas que o deveriam saber. E elas rejeitam firmemente essa ideia.

Por que é que os Teofísicos estão tão errados?

Eles baseiam os seus argumentos na especulação, não em fatos, e assumem que as leis que governam a matéria no mundo quotidiano em que habitamos, também devem ter governado o pré-universo infinitesimal em que ainda não existia nenhuma matéria. Eles dizem isso apesar de saberem que o mundo quântico funciona de maneiras inesperadas, bizarras e contra-intuitivas.

Eles vão insistir que não havia nada, e de repente houve o Big Bang e logo de seguida havia tudo. E como algo não pode vir do nada, eles concluem que Deus deve ter criado tudo.

Mas não havia mesmo nada? Bom, nós não sabemos. Os físicos agora duvidam que exista algo como "nada". Pois parece que há sempre algo, mesmo num vácuo aparentemente vazio. Parece que a natureza do "nada", afinal... é algo.

Há outros paradoxos que devem fazer pensar os nossos ... Teofísicos. Aqui estão mais dois:

 » Em Julho de 2012, os cientistas do CERN no Large Hadron Collider, confirmaram a existência do Boson de Higgs. O campo de Higgs e sua partícula associada, o bóson, são agora conhecidos por darem massa a partículas elementares. Os modelos atuais mostram que o universo quando muito cedo, era extremamente quente, em torno de 10^32 graus Kelvin. A essa temperatura, o campo de Higgs não teria sido capaz de dar massa aos primeiros elétrons e quarks. Assim, parece que a massa do universo nos seus primeiros momentos, era exatamente ZERO.

» O universo atual contém energia negativa e positiva. Medições recentes mostraram que a quantidade energética do universo é ZERO. Lembre-se que a energia e a massa são intercambiáveis, são as duas faces da mesma moeda, então temos zero massa transformando-se num universo de energia zero.

Evidentemente que o universo é muito estranho, talvez mais estranho ainda do que podemos imaginar. Estamos agora no início de o entender, mas há uma coisa que já se pode ter certeza: se tu aplicares o mesmo pensamento que funciona para carros, futebol e churrascos, tu NUNCA o irás entender. Os homens e mulheres que se dedicam afincadamente a este problema, provavelmente irão conseguir entender, jogando fora todos os nossos preconceitos do quotidiano.

E isso nos leva de volta aos nossos Teofísicos. Essas pessoas estão aplicando a lógica de jardim de infância, aos problemas mais intratáveis e difíceis ​​da humanidade. A verdade é que eles não fazem isso para resolver esses problemas, eles fazem-no para encontrar lacunas de modo a fazer uma ligação ao seu deus de estimação. Eles são ignorantes ou desonestos. Ou as duas coisas juntas.



† Edward J. Larson e Larry Witham, Nature 394, 313 (23 de Julho de 1998) ‡ Religião e Ciência nos Estados Unidos, Pew Research Center, novembro de 2009


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

domingo, 11 de dezembro de 2016

Não confiem na ignorância



Algumas pessoas dizem que acreditam em deus porque não compreendem como é que, sem deus, o universo poderia existir. Ou porque também não entendem como a vida pode surgir da matéria inorgânica, ou como a inteligência pode existir sem deus.

São pessoas que admitem que a sua ignorância as leva a deus, mas essas pessoas não podem negar que um dia poderemos vir a descobrir como todas essas coisas aconteceram sem ele. Estas não são mais que as pessoas que baseiam suas vidas no que não sabem, ao invés do que sabem.

Também há outras pessoas que dizem que acreditam em deus porque não percebem como é que sem deus, um espermatozóide e um óvulo podem criar uma vida humana ou como o amor ou a moralidade podem existir. Alguns até dizem que não sabem como poderia simplesmente chover sem deus. Essas pessoas também crêem em deus através da ignorância. Mas, neste caso, elas baseiam suas vidas no que não sabem, mas que deveriam saber.

Aqui está minha dica para qualquer pessoa de ambos os grupos: 
baseia a tua vida no que tu sabes, não no que tu não sabes. Não construas tudo sobre uma fundação de ignorância. Porque tu não podes confiar na ignorância.


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

domingo, 20 de novembro de 2016

Quebrando nossas intuições



Às vezes, ao olhar para trás, pode ser possível ter uma visão do que será o futuro. Há coisas que entendemos hoje que seriam incompreensíveis ou até mesmo absurdas, para as pessoas no passado.

A ideia de que a Terra poderia ser esférica foi uma vez totalmente contra-intuitiva, inverossímil mesmo - pois com certeza que as pessoas na parte de baixo da Terra iriam cair, ou não era? Não fazia sentido algum! 
Outra ideia era que a Terra não era apoiada fisicamente por nada. Certamente, a Terra tem que ser apoiada ou caso contrário, ela não cairá? Se olharmos para a "cosmologia" antiga, encontramos tentativas de explicar esse mistério. Dizia-se que a Terra era plana e apoiada por tartarugas, elefantes, deuses, pilares, ou pendurado por um fio.

Então descobrimos a gravidade e encontrámos um mecanismo que permite que os planetas esféricos, que de modo nenhum são suportados, façam sentido. Hoje em dia nem sequer pensamos nisso - o intuitivo se tornou evidente. Hoje é difícil imaginar como um planeta apoiado por alguma coisa poderia fazer sentido. Essa ideia se tornou tão idiota que até as crianças se riem dela.

Quando olhamos ao nosso redor, encontramos muitas coisas que antes eram intuitivamente impossíveis, mas agora são comuns e óbvias. Tomemos, por exemplo, a ideia de enviar mensagens invisíveis por milhares de quilómetros de distância à velocidade da luz, e até mesmo atravessarem paredes sólidas. Isso se tornou possível quando descobrimos a radiação electromagnética (EM) e a aprendemos a usá-la. Hoje, o mundo está ligado por radiação EM transmitindo rádio, TV e mensagens de telemóvel por todo o mundo.

A maioria das mudanças fundamentais em nosso entendimento são provocadas pela descoberta de algo que anteriormente não sabia que existia, como gravidade ou radiação EM.

É provável que ainda haja mais coisas que ainda teremos que descobrir? Definitivamente que sim. Por exemplo, sabemos que há algo a que chamamos de matéria escura, mas não temos ideia do que é ou de onde veio - os cálculos mostram apenas que esse algo existe. Talvez ao descobrir o que é a matéria escura, a nossa percepção do que é intuitivo e do que é contra-intuitivo, mude.

A intuição é útil, mas devemos reconhecer as suas limitações - a intuição é baseada no mundo com o qual estamos familiarizados e, uma vez que nos movemos para além deste mundo, ela pode nos decepcionar. É por isso que eu abano a cabeça quando as pessoas religiosas insistem que um universo não pode se auto-criar, e estão totalmente convencidas que é óbvio que assim seja!

Bem, mas não é óbvio. É improvável que nossas intuições se estendam até ao surgimento do Universo, antes que houvesse matéria e antes que houvesse átomos ou mesmo elétrons. Nós já conhecemos o mundo que é muito pequeno, o mundo quântico, e ele é estranho e contra-intuitivo. E o mundo pré-quântico pode ser ainda mais estranho.

Então vamos deixar esses jogos filosofando para de trás de nós. O trabalho de descobrir o que aconteceu há 13,7 mil milhões de anos, não é algo que as nossas intuições falíveis nos irão ajudar. É um trabalho para aceleradores de partículas de alta tecnologia, com poderes de computação maciça, matemáticas avançadas e com os cérebros mais inteligentes do planeta.


E é improvável que a especulação religiosa no Facebook vai ajudar muito.


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

terça-feira, 1 de novembro de 2016

O significado de "Significado"




Um argumento religioso recorrente é que o Mundo TEM que ter um “significado”.
Mas o que é que isso realmente significa? 
Em geral significa que o Mundo tem que ter um “propósito”. 

- Que o Universo não pode existir sem uma finalidade inteligível aos seres humanos. 
- Que as boas ações serão recompensadas e as más punidas. 
- Que os sofrimentos humanos têm uma justificativa e que os sofredores serão consolados. 
- Que a existência tem um objetivo que transcende a mera biologia. 
- Que a morte não pode ser simplesmente o fim de tudo.

O único problema é que esses são os nossos DESEJOS e não uma constatação.

O significado real do “significado” é pura e simplesmente aquilo que DESEJARÍAMOS que fosse verdade. 
É curioso que o religioso ADMITE que esses são seus DESEJOS e não algo que ele deduziu de alguma observação ou a partir de algum argumento racional. 

Mas NADA indica que o que DESEJAMOS seja REAL apenas porque desejamos que seja.

 
Texto da autoria de Lauro Augusto Monteclaro Cesar Jr.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

De que és feito?




Tu és feito de moléculas. Algumas delas irão ficar contigo para toda a vida, mas a maioria não. Elas podem estar alguns minutos, horas, anos ou décadas como parte de ti e depois poderão estar a fluir num rio, flutuar numa nuvem ou dar uma volta em qualquer coisa viva, talvez num micróbio, numa formiga ou no seu cônjuge. 

Algumas moléculas são passageiras, apenas te acompanham num passeio mas algumas fazem realmente parte de ti: elas irão te ajudar a ficar de pé, a respirar ou a pensar. Mas as passageiros são úteis também: algumas até se sacrificam por ti. Elas entram em ti como uma molécula, o teu corpo divide-as até ficarem separadas e elas deixam-te como  uma molécula diferente, ou como várias. 

A olho nu não conseguimos ver as moléculas. Nós não temos essa capacidade de ver tão pequeno o suficiente ou rápido o suficiente. Em vez disso, vemos ilusões formadas por mil milhões ou muitos milhões de milhões delas. As ilusões parecem robustas, mas não o são. A realidade é um borbulhar, uma bebida fervente de minúsculas partículas que se deslocam demasiado espaçadas numa grande extensão de nada. A Natureza pinta as caricaturas mais minimalistas das coisas e nós transformamo-las em rochas sólidas, mesas, pessoas e tudo o mais. Nós somos a Natureza apercebendo-se de si própria. 

É a realidade. É de perder o fôlego, simplesmente extraordinário, comovente e inspirador. Quando temos tudo isto, quem precisa do Génesis?


Traduzido e adaptado de Bill Blavell

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Será que a aparência do design prova um designer?




O argumento teleológico para deus, também conhecido como o argumento do design, remonta há pelo menos tanto tempo quanto Sócrates. 
É a ideia de que nós vemos evidências dum projeto (ou a aparência de design) na natureza, e o design pressupõe um designer. Na verdade, dada a extraordinária complexidade da natureza, tal concepção pressupõe um designer extremamente inteligente. 
A força deste argumento é que ele é aparentemente lógico pois não depende duma falácia como muitos outros argumentos para justificar deus. Mas isso não significa que o argumento é válido ...

Um dos problema é que "a evidência do design" ou a "aparência de design" são difíceis de definir. Na verdade, eu nunca vi ninguém tentar definir esses termos. Em vez disso, os proponentes deste argumento dependem de analogias. Eles costumam dizer (segundo William Paley), se tu veres um relógio caído no chão, tu não terás nenhum problema em perceber que o relógio foi produzido ou criado, enquanto que a pedra que está ao lado dele já não foi. 

Claro que nós SABEMOS como os relógios foram produzidos. Sabemos que eles são projetados por seres humanos. Mas podemos estender esta analogia a outras coisas complexas quando não sabemos como elas foram produzidas?

Se a complexidade é o critério para "evidência do design", poderíamos olhar para os flocos de neve. Os flocos de neve são todos diferentes, mas todos tem seis lados, então temos projetos complexos e que tem várias simetrias surpreendentes. Poderiam mil milhões de flocos de neve ser produzidos por ACASO e tudo atender a essa especificação exigente? Bem, sim. Percebemos em grande detalhe como os flocos de neve se formam e sabemos que é um processo totalmente natural. 

Alguns defensores do argumento teleológico podem reclamar que os flocos de neve são um mau exemplo, porque eles não têm nenhuma função, eles podem dizer que não há evidência para o design quando uma coisa é complexa e desempenha uma função. 
OK, nós poderíamos olhar para um rio. Rios exercem a função do transporte de água para o mar e são parte dum ciclo hidrológico complexo. Apesar das curvas e voltas, e atravessando diferentes tipos de geologia, às vezes por milhares de quilómetros, os rios são sempre concebidos com um declive para permitir que a água flua, e com margens fluviais para impedir que a água fuja por um caminho particular. Eles são uma maravilha da engenharia. Claro, nós sabemos como se formam os rios e sabemos que é um processo totalmente natural. 

Assim, tanto a complexidade como a função, não pressupõem necessariamente o design inteligente. E quanto aos seres vivos? Os seres vivos são muito mais complexos do que qualquer floco de neve ou rio, serão eles a prova do design? Na verdade, as coisas vivas são duma ordem de magnitude muito mais complexa do que um relógio de bolso e elas têm muitas e variadas peças com funções específicas, tais como a circulação de sangue ou capacidade de visão. Podemos assumir que uma coisa viva é projetado da mesma forma que podemos assumir que um relógio de bolso foi concebido? Não, não podemos. 

 Os seres vivos são produzidos duma forma única que os torna diferentes de qualquer outra coisa. Os seres vivos surgiram através da reprodução. A reprodução não tem nada em comum com a fabricação. Relógios são feitos de peças fabricadas e montadas num artigo final. Os seres vivos começam como uma única célula e desenvolvem-se através da divisão e diferenciação celular. Relógios são feitos dum único projeto e são idênticos mas a reprodução garante que a prole seja diferente dos seus pais. Cada coisa viva vem diretamente duma longa cadeia de seres vivos anteriores, mas os relógios de bolso não. 

Assim, a analogia entre um relógio de bolso e uma coisa viva é falsa, pois estas são duas categorias diferentes de coisas e não podemos simplesmente assumir as duas categorias como tendo origens semelhantes. Seria como olhar para a categoria de coisas chamadas corpos celestes e determinar que elas surgiram por um processo de acreção causada pela gravidade e, em seguida, assumindo que a categoria de coisas chamadas refrigerantes também acontecem por acréscimo causado pela gravidade. Sim, isso é um absurdo, mas é assim que estão assumindo as categorias de "coisas fabricadas" e as categorias de "coisas vivas" como acontecendo da mesma forma. 

A maneira de descobrir as origens dos seres vivos não é fazendo uma analogia falsa, mas traçando o longo caminho da cadeia de seres vivos anteriores para perceber onde ela te leva. Até agora, como temos sido capazes de fazer isso, não encontramos evidências para o design, mas encontramos evidências da mudança gradual e da crescente complexidade ao longo das eras.


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Ateísmo versus Religião

  • Ateísmo: 

O entendimento de que no dado ponto do espaço-tempo onde a singularidade aconteceu, o potencial quântico colapsou em conjuntos de pares de partículas e anti-partículas virtuais devido a flutuações no vácuo quântico, ocasionalmente produzindo um valor diferente de zero e, posteriormente, a acreção solar e planetária condensou os gases remanescentes da expansão em estrelas e planetas cuja composição frequentemente inclui produtos químicos orgânicos que naturalmente formam ligações moleculares e, no nosso caso, auto-catalisadoras, ou seja, replicadores simples que preencheram os oceanos da Terra primitiva, eventualmente, crescendo em sofisticação, formando membranas lipídicas em torno de bolhas que protegem o RNA e, eventualmente, o núcleo DNA dos organismos unicelulares primeiros, que desenvolveram a capacidade de viver em colónias, tornando-se organismos multicelulares simples, como esponjas, as quais tornaram-se organismos intermediários, como os pólipos, que se tornaram invertebrados primitivos os quais ramificaram-se em vertebrados, dentre os quais alguns se tornaram peixes e, em seguida, anfíbios, um dos quais (Tiktaalik), é famoso entre os primeiros a rastejar para a terra seca, onde anfíbios ramificaram-se em répteis, que ramificaram-se tanto em mamíferos quanto aves, alguns detre os quais sobreviveram ao evento de extinção que matou os dinossauros tornaram-se primatas arborícolas que depois desceram das árvores e aprenderam a andar erectos a fim de carregar alimentos/ferramentas/filhotes e, obviamente, este protótipo humano eventualmente deu origem à nossa espécie. 

Pode parecer pouco intuitivo, mas foi assim que toda esta merda onde estamos e somos, aconteceu. 




  • Religião: 

A crença de que sempre existiu um homem invisível e o homem invisível criou magicamente o mundo e duas pessoas e essas duas pessoas multiplicaram-se em milhares de milhões e o homem invisível ameaçou as pessoas com uma eternidade de torturas a menos que ele fosse regado com louvores e honras e o homem invisível escreveu um livro através de um escritor fantasma, mas as pessoas editaram e reescreveram o livro diversas vezes, para que ele significasse aquilo que elas queriam que significasse. 
Tudo isso aconteceu porque um dia o homem estava entediado.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

O Tempo

O tempo (cronológico) não existe! É um conceito inventado pelos homens para que estes se consigam sincronizar uns com os outros para desempenhar tarefas. 

Obviamente que, em oposição ao conceito de ‘deus’, o conceito de tempo (cronológico) atualmente é UTIL à humanidade! Sem este conceito andaríamos todos às turras para conseguir combinar estar próximos uns dos outros em determinadas circunstâncias. 



Existem eventos que podem parecer que se repetem ou não (como o ‘nascer’ do Sol, embora NUNCA um ‘nascer’ do Sol possa ser efetivamente considerado uma repetição, porque o Sol também se move e assim, ‘nasce’ em locais diferentes todos os dias, se tomarmos em consideração o próprio Universo). 

Portanto, uma máquina do tempo é uma ilusão que o nosso próprio pensamento, a nossa própria imaginação nos leva a crer que seria possível inventar, pois achamos que, entrando nessa máquina, poderíamos “voltar” ao ‘tempo’ dos nossos avós (mas o tempo dos nossos avós não existe). 

Apenas existe o presente, e sendo assim, para todos os efeitos, não existe passado nem futuro. 

 Claro que as nossas memórias nos ajudam a guardar coisas que fizemos antes do “agora”, mas isso não quer dizer que o “antes do agora” continue a existir. Já existiu, ou melhor, já aconteceu, mas deixou de acontecer, ou melhor: MODIFICOU-SE! 

Portanto, podemos é dizer que a matéria que nos constitui modifica-se, e isso leva-nos a conseguir poder ‘medir’ as ocorrências dessa modificação se tomarmos em consideração um ou outro evento que possa ser relativo ao primeiro. 

Albert Einstein chamou a sua “magna” teoria de “Teoria da Relatividade” precisamente porque tudo é relativo. 

O “tempo” que costumamos utilizar para informarmos aos nossos amigos sobre “quantos anos temos”, é relativo às voltas que o nosso planeta dá em torno do Sol. 

Portanto, eu, que tenho 49 anos, posso afirmar que a matéria que constitui o meu corpo, e que está sempre em constante modificação (tal como tudo neste Universo), já deu 49 voltas em torno do Sol. 

Os humanos resolveram designar cada uma dessas voltas com o termo “ano”. 

Mas se alguém vivesse no planeta Marte, que, por exemplo, demora 657,45 dias (dos ‘nossos’ aqui da Terra) a dar uma volta em torno do Sol, então, ao fim de 12 anos daqui da Terra, essa “pessoa” que vivesse no planeta Marte, teria vivido apenas 6,39 “anos marcianos”. 

Vá, queres voltar então ao passado? Qual deles? Ao “passado terrestre” ou ao “passado marciano”? 

Isto a princípio pode parecer tudo muito complexo, mas isso deve-se apenas ao facto de nós humanos termos necessidade de criar conceitos que nos auxiliem a conviver com os outros seres humanos neste planeta, que depois nos esquecemos de que os nossos próprios conceitos acabam por ser pequenas prisões que nos fecham no nosso próprio entendimento para conseguirmos compreender o Universo em que vivemos. 

Provavelmente, poderás querer utilizar o termo “espaço-tempo”, pois a ciência criou e passou a utilizar esse termo para mais facilmente conseguir explicar eventos relacionados com a matéria e medi-los com um mínimo de compreensão humana. 

E porque é que é tão difícil conseguir compreender que o tempo não existe? Bem, observemos o ‘céu’ noturno. 

A luz das estrelas que vemos no ‘céu’ noturno (‘céu’ – outro termo que designa um conceito que não existe, eheh…) dizia eu: a luz das estrelas que vemos no ‘céu’ noturno já não existe tal como o vemos. Se olhares para todas as estrelas no ‘céu’, poderás estar a olhar para aquilo a que poderemos chamar de ‘passado’. 

Mas, se o tempo não existe, porque falamos em “olhar para o passado”? Porque o que existe aproxima-se mais do conceito “espaço-tempo” e não do conceito “tempo”. Ou seja, é impossível separar o conceito “tempo” do conceito de “matéria” (ou “espaço”). Por isso, matéria e “tempo” (ou espaço e “tempo”) são a mesma coisa. 

Então, “tempo” (por si só, não existe). 

Ou melhor, usando a terminologia científica, “O tempo não flui. O tempo simplesmente é.” 

Esse é o mais comum e maior engano de todos, julgar que o tempo seja algo que possua uma existência própria e independente… 
Tempo é relação, e relação não existe como coisa independente, existe apenas enquanto se relaciona… 
Logo o tempo existe apenas como resultado da dinâmica do universo se expandindo, como relação entre os eventos ocorrendo em um espaço dinâmico, não pode existir portanto nem para a frente nem para trás, apenas no instante mesmo em que se dá.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Natureza consciente?

A natureza não é uma entidade consciente, intencional e causística. 
Pelo menos não o é até que se consiga provar que é. 

Portanto, falar de “imaginação da natureza” é um mero antropomorfismo poético que se está a fazer.