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sábado, 19 de maio de 2018

A Doação de Constantino ou como uma mentira torna poderosa uma igreja.




Um dos documentos forjados que mais rendibilidade têm dado à Igreja Católica é o decreto de 30 de Março de 315, Constitutum Constantini ou Privilegium Sanctae Romanae Ecclisae, a famosa Doação de Constantino, como ficou conhecida. Neste documento, que foi apresentado como tendo sido redigido pelo próprio Constantino, além de se relatar o seu processo de conversão, por ação do papa Silvestre, o imperado declara que:

"na medida em que o nosso poder imperial é tanto mais terreno, decretamos que a sua santíssima igreja romana será venerada e referenciada e que a sagrada sede do bem-aventurado Pedro será gloriosamente exaltada e passará a usufruir de uma glória superior ao nosso Império e ao seu trono terrestre. [...] A dita sede regerá as quatro principais de Antioquia, Alexandria, Constantinopla e Jerusalém, assim como todas as Igrejas de Deus em toda a parte. [...] Finalmente, devemos saber que doamos a Silvestre, papa universal, o nosso palácio, bem assim como todas as províncias, palácios e distritos não só da cidade de Roma e de Itália, como de todas as regiões de Ocidente."

Trata-se duma criminosa falsificação, feita a mando do papa Estêvão II (752-757), e por este utilizada para forçar a aliança militar do rei franco Pepino e de seu filho Carlos Magno com a igreja para combater os Lombardos que ameaçavam as riquezas e o poder do papado romano. Após a derrota dos Lombardos, o rei Pepino, convencido de que Estêvão II era o sucessor de São Pedro e do imperador Constantino, devolveu à igreja Católica todas as terras que por direito lhe pertenciam, graças à Doação de Constantino.

Mediante esta vigarice, a igreja Católica acumulou um património e um poder de tal modo imensos, que ainda hoje vive dos rendimentos que lhe proporcionou esse enorme e infame delito, origem do Estado da Igreja. O texto mais antigo que se conhece da referida Doação figura nos manuscritos das Decretales pseudoisidorianas (c. 850), mas só se tornou público no século XI, quando já era universalmente reconhecido como autêntico um documento que raríssimas pessoas tinham efetivamente visto.

O papa Leão IX (1049-1054), nos seus escritos, cita amplas passagens da falsa Doação para justificar o primado do bispo de Roma, mas só com o papa Gregório VII (1073-1085) se transformou na base fundamental do direito canónico. Os papas posteriores, como Urbano II (1088-1099), Inocêncio III (1198-1216), Gregório IX (1227-1241) ou Alexandre VI (1492-1503), serviram-se amplamente desse documento para se impor aos príncipes, anexar territórios, etc...

Um curiosidade histórica relativa a este monumental engodo, que tanto prejudicou os reis europeus, foi protagonizada por Otão III (983-1002) que, num documento datado de 1001 e dirigido ao papa Silvestre, considera a referida Doação como falsa e nula, o que não impediu que continuasse a produzir os seus efeitos. Neste documento, Otão III, depois de repudiar a corrupção e as malversações que haviam caracterizado os papas, escreve: 

"Distorceram as leis pontificais e humilharam a igreja romana, e papas houve que chegaram ao ponto de reclamar a maior parte do nosso império. Não se interrrogavam porque o tinham perdido por sua própria culpa, nem se preocupavam com o que haviam delapidado com as suas loucuras, estavam apenas interessados, depois de terem dispersado aos quatro ventos as suas próprias possessões, em descaregar as culpas do acontecido sobre o nosso próprio império e em reclamar a propriedade alheia, isto é, a nossa e a do nosso império. São mentiras por eles inventadas [ab iilis ipsis inventa], nomeadamente pelo diácono João, também conhecido por Dedo-cortado, que redigiu um documento com letras de ouro e forjou uma enorme mentira cobrindo-a com o nome de Constantino, o Grande. "

A impostura foi finalmente detetada em 1440 por Laurenzio Valla, cónego de Latrão e secretário pontifício que, ao analisar o texto e ao recensear todos os seus elementos estilísticos e históricos, incluindo os anacronismos, concluiu tratar-se duma falsificação. No entanto, o medo de vir a ser executado pelo papa coibiu Valla de proceder à publicitação da sua descoberta que só foi conhecida em 1519, o mesmo ano em que Martinho Lutero, e não se trata duma coincidência, começou a sua luta contra a igreja, ao criticar duramente o vergonhoso negócio pontifício das indulgências. A igreja Católica, claro está, continou a garantir com empenho a autenticidade da Doação de Constantino e só quando, em pleno século XIX, os dirigentes das nações europeias sacudiram a tutela do Vaticano, a igreja reconheceu finalmente que se tratava, de facto, de um documento forjado.

Seja como for, em virtude de uma espécie de norma moral cristã,cuja origem e teor nos são totalmente desconhecidos, aigreja Católica, apesar de ter fundado o seu Estado e o seu poder temporal sobre a referida mentira e a subsequente série de expoliações, nunca manifestou até hoje o menor indício de estar arrependida, nem esboçou qualquer gesto para devolver o seu património ilícito aos seus legítimos proprietários.Muito pelo contrário, a hierarquia católica, exatamente como na época de Outão III, continua a exigir da sociedade civil que esta financie a sua péssima gestão.


Texto de MENTIRAS FUNDAMENTAIS DA IGREJA CATÓLICA, de Pepe Rodriguez

terça-feira, 8 de maio de 2018

O imperador Constantino e a aliança com a Igreja Católica




Com a abdicação simultânea de Diocleciano e de Maximiano a 1 de Maio de 305, abrindo uma crise interna no império Romano, deu-se a grande oportunidade para o futuro das Igrejas cristãs. A subida ao poder, como augustos, de Constâncio Cloro e de Galério, resultou num enfraquecimento geral do Estado. Ocupados em guerras intestinas que opunham entre si os diferentes imperadores, não havia tempo para continuar com as campanhas de extermínio contra os cristãos, iniciadas por Diocleciano. Assim, em Abril de 311, Galério assinou um édito que conferia o estatuto ao cristianismo de religio licita (religião lícita). Um ano depois, Constantino, deu ordem para que fossem restituídos às igrejas os bens confiscados e lhes fosse entregue uma contribuição do tesouro imperial.

Mas o imperador Constantino não se limitou a ser apenas generoso. Por essa altura, deu-se uma disputa intestina feroz na Igreja do Norte de África que opunham duas fações cristãs - a Igreja dos santos comandada pelo Maiorino (depois por Donato), e a Igreja Católica chefiada pelo Mensúrio (e depois por Ceciliano). Os primeiros diziam que os Católicos eram os traditores (traidores), acusando de se terem aliado aos perseguidores romanos enquanto estes haviam resistido, não entregando os textos sagrados como Mensúrio havia feito, como preferiram ser mártires a ser apóstatas. A partir de 313 o confronto entre as duas fações tornou-se insanável e o cisma instalou-se entre as duas igrejas.

Lembro que disputas e guerras entre fações cristãs era algo banal nos primeiros séculos. No início do séc. III, o Bispo Hipólito de Roma citava 32 seitas cristãs em luta umas com as outras, e em finais do séc. IV, o Bispo Filastro de Bréscia referia-se a 128 seitas e 28 heresias. As comunidades cristãs sempre em guerra umas contra as outras, tentando cada uma impor a sua própria doutrina aos restantes seguidores de Jesus, e todas hostilizando os judeus, davam um espetáculo deplorável e nunca visto no contexto religioso da Antiguidade. Foi com Constantino que a fação Católica acabou por se impor. Lembro que atualmente a situação é ainda pior, pois o cristianismo está dividido em várias grandes religiões e em centenas de seitas de todos os tamanhos e dimensões, cada uma reivindicando o título e verdadeira e autêntica seguidora de Jesus.

Voltando à luta intestina entre a igreja dos santos e a igreja Católica, o imperador Constantino fez mais que marginalizar a igreja de Donato ao entregar à igreja de Ceciliano avultados bens. O imperador já tinha um projeto político ambicioso destinado a adaptar a realidade eclesial às suas necessidades pessoais e imperiais, e a transformar duradouramente as relações entre as igrejas cristãs, dando grandes poderes à Igreja Católica.

O imperador Constantino, logo desde o início, achou-se por direito questionar as decisões conciliares que lhe não era favoráveis, tal como o de convocar ele próprio os concílios gerais dos bispos. Este desprezo e mesmo insulto com que tratava a hierarquia católica, nunca levantou qualquer protesto por parte da mesma. E a razão é simples, devia-se à generosidade das suas doações tal como no trato real que dispensava aos bispos convocados para os seus concílios. E foi assim que o imperador comprou vontades, apoios, decretos conciliares à medida e até uma igreja inteira, a católica, cujo hierarcas depressa amealharam uma riqueza e um poder ilimitados, o famoso Patrimonium Petri (Património de Pedro).

Foi pelos anos de 315-316 que Constantino começou a cristianizar as leis do seu império, dando proteção aos mais desprotegidos e, ao mesmo tempo, tornando mais rigoroso o direito matrimonial (ramo do direito que continua a ser até hoje uma das grandes obsessões do clero católico). Foi em 318 que reconheceu oficialmente a jurisdição episcopal, foi em 321 que autorizou as igrejas a receber heranças, em 320 ou 321 declarou o domingo dia de festa, efeméride que fora até então festejada como o dia do Sol, e entretanto, foi dando grandes ajudas para a construção de dezenas de igrejas luxuosas financiadas com dinheiros públicos, etc.

Esta ligação entre o imperador e a Igreja Católica tornou-se tão íntima que os bispos passaram a assumir funções que até então era exclusivas do Estado. A exemplo, em julgamentos, o testemunho dum bispo tinha mais força do que o dos cidadãos distintos (honoratiores) e era inatacável! Mais, foi reconhecida aos bispos jurisdição própria em causas civis (audientia episcopalis), o que significava que quem tivesse um litígio se podia dirigir ao bispo que cuja sentença seria considerada "santa e venerável", por decreto de Constantino. O bispo tinha o poder de sentenciar, mesmo contra o desejo expresso duma das partes e a sua decisão era inapelável, limitando-se o Estado a executar a dita.

Claro que o imperador nunca deixou de controlar os assuntos eclesiásticos. Quando surgiu a disputa do arianismo, Constantino apoiado pelo seu conselheiro, o Bispo Ósio de Córdova, convocou para Niceia uma assembleia geral dos bispos, e tendo como ordem do dia a discussão da doutrina de Ario. Esta assembleia aconteceu em 325 e estiveram cerca de 300 bispos. O concílio empreendeu a elaboração dum símbolo onde ficasse definida a cristologia ortodoxa. Aos títulos de "Deus de Deus, luz de luz" foi acrescentado o de "consubstancial ao Pai" (homoousis). Este inesperado acrescento, certamente sugerido por Ósio de Córdova, acabou por ser aceite na sequência do especial empenhamento de Constantino, pois os padres conciliares não podiam recusar o que quer que fosse ao imperador.

Quando chegou o momento de firmar o texto assim redigido, o imperador deixou claro que os clérigos que o negassem a fazê-lo seriam imediatamente desterrados pelas autoridades imperiais. Apenas Ario e os seus partidários egípcios, demasiado comprometidos com essa fórmula condenada, resistiram a essa chantagem, sendo imediatamente recambiados para longínquas localidades das províncias danubianas. Por amor à unidade, por respeito ao imperador, ou por simples cobardia, os presentes e mesmo aqueles que consideravam o homoousios como uma fórmula herética, aceitaram vincular-se à decisão tomada.

Foi a 19 de Junho de 325 que o concílio foi encerrado, com grande banquete oferecido pelo imperador, em honra dos bispos assistentes, tão grande que muitos deles chegaram a pensar se já não estariam no reino de Deus. O imperador, durante o banquete, fez um discurso em que exortou os bispos à unidade, à modéstia e ao zelo missionário, além de ter presenteado pessoalmente cada um deles com cartas em que se ordenava aos funcionários imperiais que distribuíssem todos os anos trigo aos pobres e aos clérigos das diversas igrejas. E assim partiram os bispos reconfortados, entusiasmados e ainda mais submissos do que nunca. Constantino havia-os conquistado definitivamente para a sua causa e estava satisfeito com o concílio. A unidade das Igrejas católicas finalmente uma expressão visível, restando aos cismáticos a possibilidade de se lhe juntarem em condições humilhantes enquanto que as personnae non gratae que se negaram a subscrever a profissão de fé, iam já a caminho do exílio. Tudo isso era, em grande parte, obra sua, o que lhe dava a possibilidade de intervir diretamente nas questões eclesiásticas.

Só depois é que os bispos mais perspicazes se aperceberam que, ao aceitarem tão facilmente às imposições de Constantino, tinham trocado a livre iniciativa que detinham pelo logro da cooperação com o Estado. É facto que depois de terminado o concílio, os bispos Eusébio de Nicodemia, Máris de Calcedónia e Teógnis de Niceia disseram publicamente que tinham aceitado as imposições do imperador por o temer e que desejavam retratarem-se. De Constantino receberam guia de marcha para a Gália, e a exigência que as igrejas de Nicodemia e de Niceia elegessem novos bispos, o que foi prontamente obedecido. O bispo de Teodoro de Laodiceia, na Síria, suspeito de querer imitar os seus pares rebeldes, recebeu uma carta brutal do imperador em que era convidado a meditar na triste sina de Eusébio e Teógnis, o que o fez calar-se. E foi assim que a partir de Outubro de 325 que Constantino, passou a policiar a fé no interior do corpo episcopal. Foram bastantes os bispos que se assustaram e a falarem entre si estas apreensões.

Para a história fica a vergonhosa memória dum concílio (de Niceia) em que uma caterva de bispos cobardes e vendidos à vontade arbitrária do imperador Constantino deixou que este definisse e impusesse alguns dos dogmas fundamentais da Igreja Católica, como a consubstancialidade entre Pai e o Filho e o credo trinitário. Constantino foi constituído em teólogo por sua exclusiva graça, com o seu capricho definiu para sempre o que os católicos deviam crer a respeito de Jesus. E, no entanto, o credo que rezam todos os católicos não procede duma qualquer inspiração que o espírito santo tenha iluminado os bispos co concílio, mas da santa coação exercida pelo brutal imperador romano sobre esses homens que Jesus teria desprezado. O exemplo do nazareno dando a vida pelas suas ideias devia parecer uma ingenuidade detestável a uns bispos que não hesitaram em renegar a sua fé e consciência em troca de poderem continuar a encher a pança.

Com uma hierarquia eclesial tão servil, foi fácil para o imperador servir-se a seu bel-prazer da Igreja Católica, seja para manter unido o império no quadro duma religião única, como para uso e abuso da sua megalomania pessoal. Constantino auto designava-se "bispo para os assuntos exterior" (episkopos tôn extos) da igreja; fez-se apelidar de "salvador designado por Deus" e "enviado do Senhor", ou seja, apóstolo; ordenou que lhe fossem prestadas honras de representante de Cristo (vicarios Christi); exigiu ser tratado de "nossa divindade" (nostrum numem) a seguir ao sacritissimus que, mais tarde, seria usado por alguns imperadores cristãos; quis que o eu palácio fosse considerado um templo (domus divina) e a sua residência privada considerada um sacrum cubiculum. E quando morreu, Constantino foi inumado como se tivesse sido o décimo terceiro apóstolo. Em resumo, Constantino fez com a Igreja Católica e as suas crenças, tudo o que lhe deu na gana, comportou-se como seu amo enquanto os bispos engoliam em seco e aceitavam... e foram enriquecendo à medida que o seu poder se fortalecia.

Mais, esse imperador que amedrontava a igreja, era tido por "chefe amado de Deus", "bispo da grei, nomeado por Deus" ou "exemplo de uma vida de temor a Deus, que ilumina toda a Humanidade", foi, na verdade, um personagem que frequentava cultos pagãos, homem cruel e sanguinário, responsável por massacres de populações inteiras, organizador de jogos de circo onde feras e ursos famintos despedaçavam às centenas de inimigos seus, um pai que degolou o seu próprio filho, Crispo, um marido que estrangulou a sua própria esposa, um parente que assassinou o sogro e o cunhado...em duas palavras, um autêntico princeps christianus (príncipe cristão). A sua mãe que a igreja converteu em "Santa Helena", passava por uma princesa britânica, quando for uma taberneira pagã com estabelecimento nos Balcãs, concubina de Constâncio Cloro, pai de Constantino. Aliás, Constantino era conhecido pelo filho da concubina.

Como é óbvio, um homem tão fascinante, poderoso e mau como foi esse imperador, não podia morrer sem fazer à história um cruel manguito, era-lhe impossível "ascender aos céus" não sem antes se rir dos bispos que tratara como títeres e da igreja Católica que ele fizera entrar na história. Daí que quando ficou doente, começou por ir a banhos quentes em Constantinopla e às relíquias de Luciano, patrono e protetor do arianismo, que fora discípulo do próprio Ario. Só por último, recebeu na sua quinta, Archyrona de Nicodemia, as águas de batismo, apesar de ter desejado recebe-las nas margens do Jordão, a exemplo de Jesus. Constantino veio a falecer a 22 de Maio de 337, depois de ter recebido o batismo que lhe fora administrado por outro correligionário de Luciano, de nome Eusébio. Visto assim, é evidente que o primeiro princeps christianus se despediu deste mundo como herege, pormenor que é fonte de muitos problemas para os historiadores "ortodoxos" mas que lhe foi perdoado até pelo santo Ambrósio, inimigo acérrimo do arianismo.

Foi pela mão desta personagem que a Igreja Católica começou, de facto, o seu caminho. Foi transformada numa instituição de poder, e tudo fez para se arrogar representar de forma exclusiva e ortodoxa a mensagem de Jesus, conforme se encontra consignada nos evangelhos, que ela própria escolheu e manipulou, sem nunca cuidar em lhe ser fiel.


Fontes:
Historia de las religiones, Siglo XXI, vol.5
Mentiras Fundamentais da Igreja Católica, Pepe Rodrigues

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Jesus e os acontecimentos após ressurreição - Parte IV



Fechando esta pequena série de textos sobre a historicidade de Jesus baseada nas únicas fontes de "informação" disponíveis, chega-se aos acontecimentos durante e pós ressuscitação de Jesus, demostrando-se como esta personagem já é um mito, tal como se aponta dados que colocam em apuros a doutrina da Igreja Católica.

"Perante este inspirado testemunho de Mateus sobre o que se passou a seguir á morte do messias judeu:
“Jesus, dando, de novo, um forte grito, expirou. A cortina do templo rasgou-se de alto a baixo em duas metades, a terra tremeu e fenderam-se as rochas; abriram-se os túmulos, e muitos corpos de santos que dormiam ressuscitaram e, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição d’Ele, vieram à cidade santa e apareceram a muitos. O centurião e os que com ele guardavam Jesus, vendo o abalo de terra e tudo o que havia sucedido, tiveram realmente medo e disseram: Verdadeiramente, este era o filho de Deus” (Mt 27,50-54).

Só se pode tirar uma de duas conclusões: ou o relato é uma refinada mentira. O que faz do resto da história da ressurreição uma pura invenção, ou a humanidade de então denotava inimagináveis índices de estupidez. Uma convulsão como a relatada ter-se-ia difundido em todo o Império Romano como a “notícia do século”. Teria, de certeza, arrastado em peregrinação até á cruz do suplício todos os habitantes do império, judeus e romanos sem excepção, o sumo-sacerdote e o imperador incluídos, para reconhecer no executado o único e verdadeiro “filho de Deus”, a exemplo do que sucedera com o centurião e os seus soldados. Em vez disso, o que se viu? Ninguém se deu por tido nem achado numa sociedade faminta de deuses e de prodígios, nem se espalhou o pânico pela população, sobretudo numa altura em que uma boa parte dos judeus esperava o iminente fim dos tempos, ocorrência que o próprio Jesus tinha também acreditado, nem conseguiu sequer que os apóstolos suspeitassem que mesmo à sua beira algo de maravilhoso se estava a passar. O cúmulo do absurdo, em suma.

Além do mais, como poderiam passar despercebidos e sem criar alvoroço os muitos santos que, segundo Mateus, saíram dos túmulos e se passearam no meio dos habitantes de Jerusalém? Uns santos que ninguém sabe quem sejam, qual o motivo da sua santidade, quem os terá reconhecido e a quem terão aparecido e que, como diz explicitamente o texto, ressuscitaram antes do próprio Jesus, facto que por si só invalida toda a doutrina sobre a ressurreição dos mortos. Com efeito, esta só é possível enquanto consequência da ressurreição de Jesus e não ao contrário. Os santos ressuscitados de Mateus acabaram por constituir, assim, um quebra-cabeças para a própria Igreja."


Extrato do livro Mentiras Fundamentais da Igreja Católica, de Pepe Gonzalez

domingo, 29 de abril de 2018

Jesus e a ressurreição - Parte III



Já foram dedicados dois textos à historicidade possível de Jesus usando os evangelhos, a única fonte possível e disponível. E chegamos a um dos pontos chaves da crença cristã, a ressurreição. Eentão, o que temos sobre ela, o que sabemos realmente?

"Quando um profano em mistérios teológicos começa a ler as passagens neotestamentárias que relatam a ressurreição de Jesus – que é o episódio fundamental em que se baseia o cristianismo para demonstrar a divindade de Jesus -, espera encontrar uma série de relatos pormenorizados, sólidos, documentados e, sobretudo, concordantes entre si. Acontece, contudo, que é justamente a impressão contrária que lhe transmitem os textos dos quatro evangelistas. São a tal ponto contraditórios os relatos de Mateus, Marcos, Lucas e João que, se as suas declarações fossem apresentadas num qualquer tribunal de justiça, nenhum juiz poderia aceitar os seus testemunhos como base probatória exclusiva para emitir uma sentença. Basta comparar os relatos que nos apresentam para nos apercebermos da fragilidade da sua estrutura interna e, portanto, da sua escassa credibilidade.

Se resumirmos a cena, tal como a atestam os quatro evangelistas inspirados pelo espírito santo, obteremos o seguinte quadro:

- Em Mateus, as mulheres vão ver o sepulcro; dá-se um abalo de terra; desce do céu um anjo, remove a pedra que tapa a entrada do túmulo e senta-se nela; e deixa os guardas [romanos] “como mortos”.

- Em Marcos, as mulheres (que não só as Marias, dado que Salomé se lhes junta) vão ao túmulo na intenção de ungir o corpo de Jesus; não há abalo de terra; a pedra da entrada já se encontra removida; dentro do túmulo encontra-se um jovem sentado à direita; não há rasto de guardas.

- Em Lucas, as mulheres (as duas Marias e Joana, que substitui Salomé, e “as demais que estavam com ela”) levam unguentos; também não há qualquer abalo de terra nem guardas; aparecem dois homens, aparentemente vindos do exterior do sepulcro; anunciam ás mulheres que Jesus aparecerá aos discípulos em Emaús (e não na Galileia como é afirmado nos dois textos precedentes); Pedro constata de visu a prodigiosa ocorrência.

- Em João, há apenas uma mulher; Maria Madalena, que, no entanto, não vai ao túmulo com a intenção de ungir o corpo; não vê ninguém no sepulcro e corre a avisar não um mas dois apóstolos, que atestam o sucedido; depois disso, enquanto Maria, no exterior do túmulo, chora, aparecem dois anjos sentados, um à cabeceira e outro aos pés, no lugar onde estivera o corpo do crucificado; Jesus aparece à mulher nesse mesmo momento.

Em resumo, os quatro evangelistas coincidem todos em dois pontos apenas: no desaparecimento do corpo de Jesus e nas vestes brancas e luminosas que trazia vestidas o transformista anjo-jovem-dois homens-dois anjos.

Não é preciso ser ateu ou maldoso para chegar à evidente conclusão de que estas passagens não possuem a mais pequena credibilidade. Não há nada que justifique a existência de tantas e de tão graves contradições em textos supostamente escritos por testemunhas diretas, redigidos todos eles num lapso de tempo de uns trinta anos a quarenta anos (entre o primeiro, Marcos, e o último, João), e inspirados por Deus… excepto se se tratar de uma pura elaboração mítica forjada para completar o perfil da personalidade divina de Jesus. Ao assimilá-la ás proezas lendárias dos deuses solares jovens e expiatórios que o haviam precedido, , a figura de Jesus podia competir com o seu mais direto rival de então, Mitra, que tivera um nascimento idêntico ao que lhe será atribuído e que, tal como ele, ressuscitou também ao terceiro dia."

Continua...

Extrato do livro Mentiras Fundamentais da Igreja Católica, de Pepe Gonzalez

sábado, 28 de abril de 2018

Jesus, a sua historicidade pela bíblia - Parte II



Como foi descrito no primeiro texto, tudo o que se sabe da vida de Jesus, resume-se aos evangelhos, sendo que o que há para além deles, deixam profundas dúvidas sobre a sua autenticidade e credibilidade.

Voltando então aos evangelhos, o que podemos então saber sobre o nascimento de Jesus, acontecimento importantíssimo pois deve ser descrito como é que o ser divino é concebido, como foi a sua infância, sua vida antes do início da pregação, a sua pregação, porque foi acusado e executado.

"Tenha sido gerado ou não por uma virgem, o facto, portanto, é que Jesus nasceu. Dado aparentemente simples, dir-se-ia. Acontece, no entanto, que sobre ele não há concordância entre as duas "biografias" de Jesus. Se pegarmos em Lucas, poderemos ler: "E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo se alistasse (Este primeiro alistamento foi feito sendo Quirino presidente da Síria). E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. E subiu também José da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém (porque era da casa e família de Davi), A fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz. E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem." (Lucas 2,1-7)

Sabendo-se que o recenseamento foi realizado por Públio Sulpício Quirino, em 6,7 d.C.,como consta na crónica histórica de Flávio Josefo, é evidente que essa foi a data de nascimento de Jesus. Mas, se pegarmos em Mateus, leremos que Jesus nasceu nos finais do reinado de Herodes, o Grande (Mateus 2,1), que morreu em 4 d.C. e que José e Maria se estabeleceram na Galileia depoi do nascimento de Jesus, e não antes. Assim, logo de entrada, temos de situar o nascimento do Messias entre duas datas, afastadas entre si uns dez anos ou mais, e localizar a residência de seus pais em dois pontos opostos da Palestina. Nada mal como resultado: e temos nós apenas dois biógrafos canónicos da infância de Jesus e um só Espírito a "inspirá-los".

Na opinião da maioria dos peritos, Jesus nasceu provavelmente numa data compreendida entre 9 e 5 a.C., no meio judeu da Palestina e viveu em Nazaré, uma modesta cidade da Galileia, onde trabalhou no ofício familiar de carpinteiro-pedreiro, até uma idade compreendida entre os 30 e os 40 anos, altura em que parte ao encontro de João Batista. Pelo ofício que tinha, situar-se-ia provavelmente entre as classes médias palestinas, o que o pôs inevitavelmente em contato com os judeus fariseus e o partido que constituíam, do qual esteve certamente muito próximo, sem, no entanto, ter chegado a militar nele.Parece igualmente evidente que conheceu em profundidade a seita dos essénios e as ideias que professavam, já que algumas delas são axiais no seu discurso político.

Sobre o nascimento e a infância de Jesus, dispomos apenas dos dados que nos são apresentados pela sua "biografia" mítica, dados que obviamente não podemos reter para definição da historicidade do personagem humano. Também desconhecemos por completo a vida que terá levado antes da sua aparição em público como pregador. Ou seja, as escassas referências biográficas de Jesus - segundo as passagens do Novo Testamento que podem ter tidas por presumivelmente históricas -, começam apenas quando, por motivos desconhecidos para os historiadores, Jesus deixa Nazaré, a sua família e o seu meio social e se vai encontrar com João Batista na ribeira do Jordão.

Jesus passou uns tempos com João Batista, chegou até a ser tomado por seu discípulo,(...).
Entretanto, numa data compreendida entre 28 e os finais de 35 d.C., João Batista foi preso e imeditamente executado. Jesus que já se havia afastado do seu círculo, assumiu a continuação da missão de João, ampliando, contudo, o seu âmbito. Deixou de batizar e começou a propagar que o "reino de Deus" não era algo que estivesse por vir, mas que, pelo contrário, já viera.

Sabendo que se dirigia a massas desesperadas, Jesus não só começou a fazer curas - como, aliás, ainda hoje fazemos xamanes-, como a reduzir as exigências da Lei, centrando estas no amor a Deus e ao próximo.

Voltando um pouco atrás na biografia do Jesus histórico, constataremos que em questões particularmente sensíveis não dispomos de qualquer informação. Assim, por exemplo, ignoramos se Jesus foi casado ou ficou sempre solteiro. A Igreja sustenta contra ventos e marés que Jesus foi celibatário e nisso se baseia para impor o celibato obroigatório ao clero. A afirmação da Igreja é uma especulação sem qualquer fundamento. Sabemos igualmente que teve um ambiente familiar normal, com irmãos e irmãs, e que aqueles, conforme afirma Paulo (I Cor 9, 3-5), se encontravam casados. Sabemos ainda que Jesus, como judeu que era, estava submetido à lei judaica e que esta impunha a todos os indivíduos, sem excepção,o casamento. A tradição judia não valorizava o celibato, razão por que é praticamente inimaginável que, dada a cultura de então, um celibatário pudesse alcançar credibilidade ou prestígio social. Na idade em que começou a pregar - a menos que sofresse (ou tivesse sofrido) de alguma deformação física terrível, hipótese em que lhe teria sido impossível ganhar ascendência sobre as massas-, Jesus seria certamente casado e teria seguramente filhos.

Quando deixou Nazaré para começar a sua vida messiânica, deixou igualmente a sua família. É, pois, provável que tenha deixado para trás esposa e filhos, como consta, aliás, que fizeram alguns dos seus discípulos, o que não era nada de anormal nem de socialmente criticável, nos dias de então. Seja como for, especulações à parte, nunca poderemos ter certezas sobre qual terá sido o seu estado civil. É, de facto, paupérrima a informação de que dispomos sobre Jesus.

Depois de ter dedicado algum tempo da sua vida - entre um a três anos- à pregação da sua mensagem, Jesus - numa data compreendida entre o ano 30 e a Primavera do ano 36 - foi preso, acusado do delito de rebeldia face à autoridade imperial romana por se ter autoproclamado "rei dos Judeus" e, consequentemente, executado. É possível que as pressões exercidas pelo Sinédrio judeu, escandalizado com o facto de Jesus reivindicar para si a dignidade messiânica e a realeza davídica, tenham pesado consideravelmente no referido desenlace, na medida em que forçaram e aceleraram a sua detençao. Mas de modo algum, no entanto, quanto à decisão relativa à sua morte.

Na manifesta atitude de resignação com que, tudo leva a crer, Jesus aceitou a inevitabilidade da sua execução, pode ter pesado bastante a sua absoluta convicção de que o fim do mundo e o consequente advento do "reino de Deus", estava para muito breve. Sobre este facto fundamental, a única informação que aduz o Novo Testamento é que Jesus foi crucificado depois da execução de João Batista, durante uma Páscoa, sendo Pôncios Pilatos governador da Judeia e Caifás, sumo sacerdote. Ora, o consenso hoje existente entre os peritos é que foi no ano 35, uma data bastante plausível, para situar a morte de João Batista. Por outro lado, visto que Pôncio Pilatos e Caifás deixaram as suas funções no ano de 36, podemos considerar como bastante plausível a data proposta pelo erudito Hugh J. Schonfield para a crucificação de Jesus, ou seja, a Páscoa do ano de 36.

Se relacionarmos esta data com a data provável do nascimento de Jesus (entre 9 e 5 a.C.), é evidente que este não pode ter morrido aos 33 anos, como defende a tradição, mas numa idade mais avançada e que se situaria entre os 45 e os 41 anos."

Continua....


Extractos do livro Mentiras Fundamentais da Igreja Católica, de Pepe Gonzalez

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Jesus, o mito - Parte I



Apesar dos milhares de livros que já se escreveram sobre Jesus de Nazaré, é tão pouco o que se sabe acerca da sua vida real, que muitos investigadores continuam a alimentar sérias dúvidas sobre a sua historicidade. A nossa principal fonte de informação sobre a sua existência são os Evangelhos, mas estes, sendo por natureza confissões de fé, são textos apologéticos, mitificados, com tantos vazios e silêncios inexplicáveis, que qualquer historiador, que se pretenda rigoroso e objetivo, tem dificuldade em os aceitar.

Nas fontes pagãs (Suetónio e Tácito), deparamos apenas com umas vagas referências indicando que no século II era comum a crença de que Jesus tinha sido uma personagem real. Nas fontes judias antigas, Jesus é brevemente mencionado no Talmude e numas tantas passagens da obra do historiador Flávio Josefo. Nessas passagens, no entanto, a imagem que nos é dada de Jesus em nada difere da que nos é transmitida pelos Evangelhos, razão por que são precisamente sobre essas que incidem as dúvidas dos peritos quanto à sua autenticidade. Interrogam-se sobre se não serão acrescentos posteriores cristãos, introduzidos com o intuito de beneficiar da autenticidade histórica que conferem os textos de Josefo. Restam assim, como fontes exclusivas, os quatro Evangelhos, obras muito duvidosas,…, e notavelmente contraditórias entre si.

No entanto, dado que os Evangelhos começaram a ser escritos uns quarenta anos depois do desaparecimento de Jesus, parece bastante razoável afastar a hipótese de se tratar de uma personagem inventada. Com efeito, quando se recolheu a tradição oral sobre Jesus, pouco tempo tinha, de facto, decorrido sobre a sua vida e a memória coletiva, especialmente a dos opositores, teria denunciado publicamente o embuste. Aceitaremos, pois, a historicidade de Jesus. Tal não nos dispensará de separar nos textos o possivelmente real do evidentemente mítico e, por razões de mera prudência intelectual, limitar-nos-emos a aceitar como muito provável apenas os dados dos Evangelhos que quadrem razoavelmente bem como as informações históricas comprovadas.

Continua… 

Extrato do livro Mentiras Fundamentais da Igreja Católica, de Pepe Gonzalez

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Sol Invictus, Mitra e Jesus




Com efeito, existe documentação comprovativa de que o próprio imperador Constantino (306-337), que impôs a Igreja Católica romana, mandou realizar sacrifícios em honra do Sol, cunhou moedas com a frase “Soli Invictus Comiti, Augusti Nostri”, ordenou que os seus exércitos recitassem todos os domingos (o dia do Sol) uma prece ao “Deus que dá a vitória”, etc. Quando o seu segundo filho, Constâncio II (337-361), chegou ao poder, o culto rendido a divindades pagãs passou a ser proibido sem excepção e o papa Libério, substituiu a celebração do nascimento do Sol Invictus Mitra pelo do nascimento de Jesus. Constâncio morreu quando se preparava para enfrentar Julião (361-363) que havia sido proclamado imperador pelas legiões e a quem a igreja, já poderosa, pusera o nome de Apóstata por ter tentado restabelecer a heliolatria.

A partir de então, a figura mítica solar de Jesus Cristo destronou a do Sol Invictus, apesar de a ter abundantemente plagiado, e passou a ocupar o lugar que esta ocupara, adaptando a sua própria forma exterior ao sólido molde de crenças lendárias que havia deixado o culto pagão. A documentação existente comprova, com efeito, que Mitra nasceu de uma virgem, num 25 de Dezembro, numa cova ou numa gruta, que foi adorado por pastores e magos, foi perseguido, fez milagres, foi morto e ressuscitou ao terceiro dia… e que o rito central do seu culto era a eucaristia, uma eucaristia cuja forma e fórmulas verbais são em tudo idênticas às que acabaria por adoptar a Igreja cristã.

São de tal modo idênticos o ritual pagão de Mitra e o supostamente instituído por Jesus, que São Justino (c. 100-165), na sua Apologia, ao defender a sua liturgia cristã perante a pagã, se vê obrigado a tentar inverter a realidade e a encobrir o plágio cristão afirmando que “a imitação do qual [a eucaristia cristã], foi o próprio diabo a fazê-lo com os Mistérios de Mitra, pois vós sabeis, ou podeis saber, que eles também tomam pão e uma taça de vinho nos sacrifícios em que participam os iniciados e pronunciam certas palavras a esse respeito”. A astúcia do diabo, conforme a pinta Justino, não é muito habitual. Não é todos os dias que se vê o diabo instaurar a eucaristia cristã num culto pagão centenas de anos antes que alguém, incluindo os próprios profetas de Deus, pudesse imaginar que uma seita judia sem importância acabaria por se converter na poderosa Igreja Católica romana!

Extrato de "As Mentiras da Igreja Católica", de Pepe Rodríguez

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Desmontando a bíblia - Os evangelhos



Porquê existem 4 evangelhos e não 5 ou 8?

A história de como os quatro evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas e João foram escolhidos pela Igreja como autênticos e inspirados dentre os mais de cem que então existiam é muito interessante. Um dos critérios da escolha foi o dos milagres. Segundo a Igreja, alguns dos prodígios dos evangelhos apócrifos eram pouco sérios ou muito fantasiosos. Mas houve outros motivos para decidir que somente os quatro evangelhos escolhidos tinham sido inspirados pelo Espírito Santo e os outros não.

A seleção dos evangelhos canónicos foi feita no concílio de Niceia (325) e ratificado no de Laodiceia (363). O modus operandi, ou o processo utilizado, para distinguir entre textos verdadeiros e falsos, foi, segundo a tradição, o da “eleição milagrosa”. Foram apresentados, de facto, quatro versões para justificar a preferência pelos quatro livros canónicos:

1- Santo Irineu, no ano 205, assim o explicou: “O Evangelho é o pilar da Igreja. A Igreja está espalhada pelo mundo inteiro e o mundo tem quatro regiões. Convém, portanto que existam quatro evangelhos”. E também: “O Evangelho é o sopro do vento divino da vida para os homens, e, assim como existem quatro pontos cardeais, também devem existir quatro evangelhos”. Além disso, “o Verbo criador do Universo reina e brilha sobre os querubins, e os querubins têm quatro formas, por isso o Verbo obsequiou-nos com quatro evangelhos”. Curiosamente, os quatro escolhidos só foram aceitos pelos Padres da Igreja pouco antes de serem declarados inspirados.

2 - Depois de os bispos terem rezado muito, os quatro textos voaram por si sós e foram pousar-se sobre um altar.

3 - Puseram todos os evangelhos em competição sobre um altar e os apócrifos caíram ao chão, enquanto os canónicos não se mexeram; 3) depois de escolhidos, os quatro foram colocados sobre o altar e foi pedido a Deus que se neles houvesse qualquer palavra falsa os fizesse cair ao chão, o que não sucedeu com nenhum deles.

4 - O Espírito Santo, na forma de uma pomba, penetrou no recinto de Niceia e pousando no ombro de cada bispo sussurrou a cada um deles quais eram os evangelhos autênticos e quais os apócrifos. Esta última versão revelaria, além do mais, que uma boa parte dos bispos presentes no concílio eram surdos ou muito incrédulos, visto ter havido grande oposição à selecção – por voto maioritário, que não unânime – dos quatro textos canónicos actuais.


Os Evangelhos atuais são oriundos dos textos originais?

Esse é outro ponto importante a ser esclarecido, porquanto, nas traduções e nas pregações dos líderes religiosos das correntes cristãs tradicionais isso é afirmado e reafirmado sem o menor constrangimento.

Em primeiro lugar, as versões originais não existem!

O professor Julio Trebolle Barrera (? - ), doutor em teologia, licenciado em Filosofia Pura e Ciências Bíblicas, informa-nos que “Os autógrafos dos livros do NT perderam-se para sempre”. (BARRERA, 1999, p. 398).

O ex-evangélico Bart D. Ehrman (1955- ), considerado a maior autoridade em Bíblia do mundo, Ph.D. em Teologia pela Princeton University, especialista em Novo Testamento, igreja primitiva, ortodoxia e heresia, manuscritos antigos e na vida de Jesus, afirma em seu livro O que Jesus disse? O que Jesus não disse?, afirma o seguinte:

[...]Eu sempre voltava a meu questionamento básico: de que nos vale dizer que a Bíblia é a palavra infalível de Deus se, de fato, não temos as palavras que Deus inspirou de modo infalível, mas apenas as palavras copiadas pelos copistas– algumas vezes corretamente, mas outras (muitas outras!) incorretamente? De que vale dizer que os autógrafos (isto é, os originais) foram inspirados? Nós não temos os originais! O que temos são cópias eivadas de erros, e a vasta maioria delas são centúrias retiradas dos originais e diferentes deles, evidentemente, em milhares de modos.

[...]Uma coisa é dizer que os originais foram inspirados, mas a verdade é que não temos os originais. Então, dizer que eles foram inspirados não me serve de grande coisa, a não ser que eu possa reconstruir os originais. E além disso, a vasta maioria dos cristãos, em toda a história da Igreja, não teve acesso aos originais, fazendo de sua inspiração um objeto de controvérsia. Nós não apenas não temos os originais, como não temos as primeiras cópias dos originais. Não temos nem mesmo as cópias das cópias dos originais, ou as cópias das cópias das cópias dos originais. O que temos são cópias feitas mais tarde, muito mais tarde. Na maioria das vezes, trata-se de cópias feitas séculos depois. E todas elas diferem umas das outras em milhares de passagens.

Na Bíblia de Jerusalém, ao se introduzir os evangelhos sinópticos – Mateus, Marcos e Lucas, os tradutores colocam várias considerações; dentre elas, destacamos:

[...]Conhecemos atualmente mais de 2000 manuscritos gregos escritos em pergaminho que nos dão o texto dos evangelhos sinóticos, escalonando-se entre o quarto e o décimo séculos. Todos esses manuscritos oferecem entre si variantes de minúcias. Os textos que usamos atualmente, seja para estudar os Sinóticos, seja para traduzi-los nas línguas modernas, são os dois mais antigos desses manuscritos: o Sinaítico, proveniente do mosteiro de Santa Catarina do Sinai, hoje conservado do Museu Britânico, e sobretudo o Vaticano, conservado na Biblioteca Vaticana. Ambos são datados de meados do séc. IV.

Vê-se, portanto, que embora dizendo que as traduções são fiéis aos originais, esses originais, nos quais se baseiam, não são, verdadeiramente, originais, pois nenhum dos seus autores, sejam eles quem forem, viveu até o século IV para contar a história que consta dos Evangelhos.

Necessário é também relatar que a bíblia[em especial os Evangelhos] sofreram sérios acréscimos com o fim de apoiar uma certa doutrina ou prática litúrgica ou costume moral.

Esses factos têm feito com que os estudiosos da bíblia venham negar a questão de a bíblia ser um livro inspirado por Deus econsequentemente livre de erros.


Quem são os autores dos evangelhos?

Sempre estamos às voltas com pessoas muito crédulas, que acham que os nomes que constam dos títulos dos Evangelhos designam os seus autores. Em razão disso acreditam, também, que os personagens Mateus e João faziam parte daquele grupo de doze apóstolos que conviveram com o Mestre de Nazaré, e que foram, portanto, “testemunhas oculares dos eventos relatados".

Percebemos que, mesmo que imbuídos de muita boa vontade, falta a ambos o conhecimento do que a crítica moderna pensa sobre as reais epígrafes dos Evangelhos.

O que nos fez aflorar irresistível curiosidade de pesquisar o assunto, foi o teor do seguinte passo:

Atos 4,13: “Ao verem a intrepidez de Pedro e João, sabendo que eram homens iletrados e incultos, admiraram-se".

Como João, a exemplo de Pedro, um homem “iletrado e inculto”, poderia escrever um Evangelho tão rebuscado como o atribuído a ele? Fora isso, ainda se percebe nele um palavreado bem acima do que se poderia esperar para um simples pescador (Mt 4,18-22), sem que, com isso, queiramos desmerecê-lo; mas é fato. Essa mesma linha de raciocínio deve-se aplicar também a Pedro, já que, no Novo Testamento, existem duas cartas atribuídas a ele. Quanto a João, além do seu Evangelho, existem duas cartas e o Apocalipse que são atribuídos a ele. Em relação ao Apocalipse, veja-se, mais à frente, o que diz Pepe Rodríguez (1953-).

Primeiro, é de relatar que boa parte dos tradutores das diversas bíblias em suas introduções, divergem muito no que concerne à verdadeira autoria dos evangelhos, ao que parece, cada um comenta o que melhor convém para a doutrina de sua catedral.*

Vamos trazer alguns estudiosos e exegetas para vermos o que pensam a respeito dos autores e de outros importantes pontos dos evangelhos.

a)Pepe Rodriguez:

" A primeira coisa que salta à vista, quando nos abeiramos do Novo Testamento, é o facto de os textos que o compõem serem tão tardios. Só começaram a ser escritos num período compreendido entre o último quartel do século I d.C e o primeiro quartel do século II d. C., à excepção das epístolas de Paulo, escritas entre 51 e 67 d.C. Mas o que parece ainda mais incompreensível e absurdo é que quem tinha muito para testemunhar nada escreveu, ou quase nada, enquanto os que nada tinham para testemunhar acabaram sendo os redactores da maior parte dos textos do cânone neotestamentário. É tão ilógico como se uma dezena de historiadores ou de jornalistas (que, propagandistas como eles, eram os apóstolos ou enviados), presente no momento em que se estava a dar o maior prodígio da história humana, tivessem ficado totalmente calados e o ocorrido não tivesse de qualquer modo ficado documentado e só tivesse sido dado a conhecer quarenta anos depois, e, ainda e apenas, através de escritores desvalorizados de um par de ajudantes de duas dessas supostas testemunhas privilegiadas. Senão vejamos: O Evangelho de Marcos é o documento mais antigo de que dispomos sobre a vida de Jesus. Ora, Marcos não foi discípulo de Jesus, nem o conheceu pessoalmente. O que sabe sobre ele foi o que, depois da crucificação, ouviu a Pedro nas prédicas públicas. O Evangelho de Lucas e os Actos, do mesmo autor, são documentos fundamentais para conhecer a origem e o desenvolvimento da Igreja primitiva. Ora, Lucas não foi apóstolo. Também ele escreveu de ouvir dizer. Compôs os seus textos a partir de passagens que plagia de documentos anteriores e de diversas proveniências. E, por outro lado, do que havia escutado de Paulo, que não só não fora discípulo de Jesus, como até 37 d.C. – um ano depois da crucificação de Jesus – se revelara um perseguidor fanático e tenaz do cristianismo nascente.

Mateus, pelo contrário, foi apóstolo. Porém, uma parte do seu Evangelho foi escrita a partir de documentos anteriores redigidos por um outro Marcos que, esse, não fora apóstolo. Resta João Zebedeu que foi, também ele, apóstolo. Acontece, contudo, que o Evangelho de João e o Apocalipse não são obra sua, mas de um outro João. Foram escritos por um tal João, o Ancião, um grego cristão que se baseou não só em textos hebreus e essênios, como nas recordações que conseguiu obter de João, o Sacerdote, identificado como “o discípulo amado” de Jesus (mas que não é João Zebedeu), um sacerdote judeu muito amigo de Jesus que foi viver para Éfeso e onde veio a morrer em idade muito avançada.

Porém, como mostrámos no seu devido momento, o texto do Evangelho de João, escrito pelo grego João, o Ancião, em princípios do século II, revela um Jesus absolutamente deformado, que fala com uma prepotência descarada, contrariamente à humildade que o caracteriza nos relatos dos três sinópticos".

b)Bart D. Ehrman:

"Embora evidentemente não seja o tipo de coisa que os pastores costumem contar às suas congregações, há mais de um século existe um forte consenso de que muitos dos livros do Novo Testamento não foram escritos pelas pessoas cujos nomes estão ligados a eles.

Por que surgiu a tradição de que esses livros foram escritos por apóstolos e por companheiros dos apóstolos? Em parte de modo a garantir aos leitores que eles foram escritos por testemunhas oculares e companheiros das testemunhas oculares. Uma testemunha ocular merece a confiança de que iria contar a verdade sobre o que realmente aconteceu na vida de Jesus. Mas a realidade é que não é possível confiar em que as testemunhas ofereçam relatos historicamente precisos. Elas nunca mereceram confiança e ainda não merecem. Se testemunhas oculares sempre fizessem relatos historicamente precisos, não teríamos a necessidade de tribunais. Quando precisássemos descobrir o que realmente aconteceu quando um crime foi cometido, bastaria perguntar a alguém. Casos reais demandam muitas testemunhas, porque seus depoimentos diferem entre si. Se duas testemunhas em um tribunal divergissem tanto quanto Mateus e João, imagine como seria difícil chegar a um veredicto.

A verdade é que todos os Evangelhos foram escritos anonimamente, e nenhum dos autores alega ser uma testemunha. Há nomes ligados aos títulos dos Evangelhos (“o Evangelho segundo Mateus”), mas esses títulos são acréscimos posteriores aos próprios livros, conferidos por editores e escribas para informar aos leitores quem os editores achavam que eram as autoridades por trás das diferentes versões. Que os títulos não são originalmente dos Evangelhos é algo que fica claro com uma simples reflexão. Quem escreveu Mateus não o chamou de “Evangelho segundo Mateus”. As pessoas que deram esse título a ele estão dizendo a você quem, na opinião delas, o escreveu. Autores nunca dão a seus livros o título de “segundo fulano".

c)Karen Armstrong:

"Não sabemos quem escreveu os evangelhos. Quando apareceram, eles circularam anonimamente, e só mais tarde foram atribuídos a figuras importantes da Igreja primitiva. (60) Os autores eram cristãos judeus, (61) que escreviam em grego e viviam nas cidades helenísticas do Império Romano. Eram não somente escritores criativos – cada um com suas tendências particulares –, mas também redatores competentes, que editaram materiais anteriores. Marcos escreveu por volta de 70; Mateus e Lucas no final dos anos 80, e João no final dos anos 90. Os quatro evangelhos refletem o terror e a ansiedade desse período traumático".

d)Geza Vermes:

"é óbvio para qualquer leitor imparcial, sem viés religioso, que, se o Quarto Evangelho está certo, seus precursores têm de estar errados, ou viceversa. Os Sinópticos e João não podem estar simultaneamente corretos, pois o primeiro atribui a Jesus uma carreira pública que dura um ano, ao passo que João a estende em dois ou três anos, mencionando duas ou possivelmente três celebrações da Páscoa consecutivas durante o ministério de Jesus na Galileia e na Judeia. Do mesmo modo, se for exata a datação de João da crucificação na véspera da Páscoa, isto é, em 14 Nisan, os Sinópticos, que descrevem a Última Ceia como um jantar de Páscoa e situam os acontecimentos que conduzem à execução em 15 Nisan, têm de estar errados. Ou para hebraizar e adaptar apropriadamente o provérbio inglês à situação da Páscoa judaica, não é possível guardar o pão ázimo e comê-lo.

A mesma opinião majoritária considera a identidade do autor indeterminável. Exceto pelo título: “segundo João”, que é ambíguo – que João? – e que somente mais tarde foi vinculado ao texto, o próprio Evangelho, do Capítulo 1 ao Capítulo 20, não menciona nenhum autor. No Capítulo 21, anexado por alguém que não era o evangelista (cf. Versículo 24), há uma tentativa de identificá-lo com “o discípulo amado de Cristo”, que se supõe tacitamente ser o pescador galileu João, filho de Zebedeu".

e)Tom Harpur:

"O Evangelho de Marcos não faz segredo do fato de que os primeiros discípulos era pescadores iletrados. Às vezes, ele até os apresenta como pessoas meio estúpidas. A ideia de que qualquer um deles tenha ajudado a criar e escrever um novo gênero literário, o Evangelho, não pode ser verdadeira. Nenhum Evangelho foi escrito por uma testemunha ocular. S. Paulo, o mais antigo escritor do Novo Testamento, nunca se encontrou com Jesus histórico – só com o Cristo mítico.

Assim, ninguém sabe com certeza quem criou os Evangelhos, e em que data. É preciso lembrar que eles nunca foram “escritos” como se escreve um livro hoje em dia. São obras altamente “editoradas” que parecem ter sido compiladas a partir de coletâneas mais antigas de ensinamentos e, acredito, de mitos antigos e autos religiosos descritos nas “Religiões de Mistério"

A única conclusão é que não sabemos se esses evangelhos foram realmente escritos pelos autores em epígrafe[ pelos custos, não], por essas a muitas outras razões, alguns críticos(incluindo o Gil Yossuf) consideram os autores míticos, ou seja, sem existência.

Texto da autoria de Gil Yossuf


Bibliografia: 
ARIAS, J. Jesus esse grande desconhecido. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 
HARPUR, T. Transformando água em vinho: uma visão profunda e transformadora sobre os evangelhos. São Paulo: Pensamento, 2010. 
 RODRÍGUEZ, P. Mentiras fundamentais da Igreja Católica, como a Bíblia foi manipulada. Lisboa, Portugal: Terramar, 2007.

domingo, 2 de abril de 2017

Os evangelhos e o nascimento divino de Jesus



Contra toda a lógica e o que seria previsível, os evangelhos de Marcos e de João não gastam uma linha sequer a referir esses acontecimentos sobrenaturais do encontro de Maria com o anjo Gabriel, sua fecundação e nascimento divino de Jesus, algo de tão fundamental para os católicos, já que se trata, de certo  modo, da mãe do cordeiro da sua crença religiosa. Na realidade, Marcos e João estão apenas e exclusivamente interessados na vida pública de Jesus, razão por que fazem começar as suas respectivas narrativas no momento em que Jesus já com 30 anos (na realidade quase 40 anos) inicia a sua missão messiânica.

O que é obviamente absurdo.


Por que razão estes dois evangelistas, que não perdem uma única oportunidade de referir os seus outros feitos milagrosos, não relataram o nascimento divino de Jesus?

Só há uma explicação para tal esquecimento: não acreditavam que assim tivesse sido.

Outro autor neotestamentário fundamental, Paulo, mostrou-se ainda muito mais incrédulo relativamente à suposta encarnação divina de Jesus.



in Mentiras Fundamentais da Igreja Católica, por Pepe Rodriguez

sábado, 7 de janeiro de 2017

Os Evangelhos Canónicos



Irei dar um breve resumo tanto dos evangelhos canónicos como ainda de alguns livros que fazem parte do Novo Testamento (NT), no que respeita sobre quem os escreveu e como foram escritos.

Evangelho de Mateus

Desde o século II que se considera que o seu autor seja Levi, filho de Alfeu, um cobrador de impostos que ao converte-se, passou a chamar-se Mateus. É provável que fosse irmão de Tiago, o de Alfeu, também apóstolo. Segundo a Igreja Católica (ICAR), este evangelho foi escrito entre 50 a 60 EC, no entanto a maioria dos peritos independentes situa a redação para 75 a 80 EC.

Mas o evangelho de Mateus, na sua REDAÇÃO ATUAL, deve ter sido escrito em 90 EC, no Egipto e mais precisamente em Alexandria, onde havia uma grande população judia. Uma leitura atenta por peritos independentes, permite concluir que o autor NÃO era judeu, nem sequer foi um mero compilador.

Evangelho de Marcos

Este evangelho foi escrito por um tal de João de Jerusalém, Marcus de nome latino e aparece mencionado em Actos 12:12 e em I Pedro 5:13. Ajudante de Paulo e Barnabé, tendo-os acompanhado na primeira viagem de pregação, chateou-se com Paulo e passou a viajar com Pedro. Provavelmente, este evangelho foi escrito em Itália antes do martírio de Pedro em 64-65 EC ou 67 EC como alega a ICAR. Depois foi para o Egipto e o evangelho que nos chegou, deve ter sido escrito em 75-80 EC.

Esta versão sobre Marcos é confirmada pelo Bispo de Hierápolis, de nome Papias, do princípio do século II.

De notar que após Marcos 16:8, o texto foi cortado, não se sabendo quanto ou o quê. Quanto a Marcos 16:9 a 20 foi acrescentado por um cronista.

Evangelho de Lucas

O evangelho de Lucas tal como o Acto dos Apóstolos, foram escritos por Lucas ou Lucano, nascido em Alexandria e companheiro de Paulo. Paulo tratava-o como "seu colaborador" e "médico amado".
Este evangelho deve ter sido escrito pelo final do século I, ao contrário do que defende a ICAR que aponta para 60 EC e 61-63 EC para os Actos.

Lucas fez uma leitura atenta dos textos de Flávio Josefo para escrever tanto o evangelho como os Actos. Lucas teve problemas com a história de Jesus no que respeita ao nascimento e à sua infância, recorrendo à história do nascimento de Sansão e de Samuel, e ainda da autobiografia de Josefo.

E foi pela leitura atenta que fez das obras de Josefo, que Lucas se apropriou  de qualquer dado que servisse os seus intentos. Como se esperava que o Messias viesse de Belém, Lucas teve de mostrar isso apesar dos pais serem da Galileia. Inventou uma maneira de usar o censo romano da Judeia referido pelo Josefo, pondo José e Maria a viajar da Galileia para Belém. Não lhe interessou o facto desse censo ter sido em 6-7 EC e não durante o reinado de Herodes que morreu em 4 EC.
Tal como colocou Maria e a mãe de João Batista como primas, com vista a colocar um laço de parentesco entre Jesus e João Batista. 
De notar também a disparatada narrativa de Lucas que coloca Jesus a viajar de Betânia para Jerusalém, depois coloca-o a fazer desvios sem sentido. Basta olhar para o mapa de então, para perceber o ridículo da situação.
Lucas 19:41-44, profecia inspirada na descrição da queda de Jerusalém de Flávio Josefo.
Lucas apresenta Pilatos como desconhecedor da lei romana quando ele era o garante dela, já que se alguém se apresentasse como rei dos judeus, era delito para a pena de morte por alta traição contra César. O perfil que atribui a Pilatos é simplesmente absurdo.

Ou seja, a inspiração divina neste evangelho estava em gozo de férias.

Em Actos, a narrativa está centrada em Paulo, e dos doze, apenas Pedro tem algum relevo. Defende posições de Paulo e sataniza quem lhe faz frente, incluindo o irmão de Jesus, Tiago.

O texto mostra que o cristianismo não foi uma religião nos seus primórdios, mas um movimento ou seita judaica messiânica, encabeçada por Tiago, irmão de Jesus e executado o mais tardar em 62 EC por Anano. Facto confirmado pelos manuscritos de Qumran (Mar Morto).

Evangelho de João

A redação deste evangelho é atribuída a João, filho de Zebedeu, mas em análises de conteúdo e estrutura, afastaram essa hipótese.  Como é que um pescador de carácter violento (Boanerge > tempestuoso, filho do trovão), inculto, podia ter escrito textos tão brilhantes e intelectuais como são os textos joânicos?

Enquanto que nos evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas), Jesus fala como judeu, no evangelho de João, Jesus fala como um não-judeu. Como exemplo: 
- Ao referir-se à Lei de Moisés, ele diz "a vossa Lei" em vez de dizer "a nossa Lei";
- Quando diz "Todos os que vieram antes de mim foram ladrões e salteadores".

Torna-se evidente que o material foi composto por um grego cristão, tal como a primeira epístola de João (João, o Ancião) vivo ainda em 140 EC. Era da Ásia Menor e Papias de Hierápolis menciona-o.

Mas então, como é que ele teve acesso a essas recordações?

É com um discípulo direto de Jesus que viveu em Éfeso até princípios do século II, que João, o Ancião, se pode ter encontrado e recolhido as recordações. Seu nome também era João!

Eusébio comenta que em Éfeso havia os túmulos de dois Joãos. O tal João que conhecia Jesus, foi um discípulo de direto de Jesus, era sacerdote judeu e é coerente com o que está escrito no 4º evangelho. Referencias ao ritual judeu e ao culto do templo, em que ele só entra no sepulcro quando Jesus já lá não está, é duma família distinta sacerdotal judia, tinha casa em Jerusalém, foi nela que hospedou a mãe de Jesus. Desconfia-se que foi nessa casa que se deu a Última Ceia e o discípulo dilecto, enquanto dono da casa, ocupou o lugar de honra ao lado de Jesus e pode assim apoiar-se no peito do Messias, como conta o evangelho. 
Na Ceia eram afinal 14 pessoas!

Foi esse discípulo dilecto que foi para Éfeso e velho contou as suas memórias que passaram a ser o quarto evangelho.
Assim, o evangelho de João tem como base as memórias de João, o Sacerdote que apareceu inicialmente como discípulo de João Batista.

Foi composto perto de 110 EC. Em João 19:35 e 21:24, mostra que o redator do texto demarca-se de quem deu as memórias (relator dos factos).

Apocalipse ou Revelação são textos apocalípticos em voga perto de 160 AEC, usam simbologia babilónica e persa.  


Fonte: Mentiras Fundamentais da Igreja Católica, de Pepe Rodríguez.