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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Deuses como moda




A caixote do lixo da história está repleto de deuses descartados. Os deuses sobrevivem por algumas centenas ou alguns milhares de anos, mas os homens cansam-se deles e inventam novos deuses, ou mudam subtilmente os antigos deuses até ficarem irreconhecíveis.

Todos os deuses populares começam os seus anos de veneração nas mentes de um pequeno grupo de pessoas e, através de vários meios, expandem o seu alcance e se tornam aceites por grandes grupos de pessoas.

Às vezes os conquistadores impõem os seus deuses preferidos aos povos conquistados. Ou os missionários convertem as pessoas, talvez com a ajuda de incentivos como escolas, hospitais ou empregos.

Quando as pessoas se convertem, geralmente começando com os mais jovens, elas crescem amando e confiando nos seus novos deuses tanto quanto faziam com os antigos. E os velhos deuses são esquecidos. Os velhos deuses perdem o respeito e podem até se tornar alvo de piadas e brincadeiras irônicas.

As pessoas gostam de pensar que os seus deuses são reais e as suas crenças são verdadeiras, mas o processo de espalhar a crença nos deuses não tem nada em comum com a forma como descobrimos as verdades - tem muito mais em comum com a moda, uma moda bastante lenta, mas uma moda.

Realmente, um deus é uma moda temporária - não uma verdade eterna.


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

sábado, 16 de novembro de 2019

Apenas mais uma religião...



Os muçulmanos dir-te-ão que o alcorão nunca mudou em 1400 anos, ainda é original como ditado pelo anjo Gabriel.

A questão que isso levanta é a seguinte: onde está o alcorão original? 

Se pudéssemos vê-lo, poderíamos compará-lo com um alcorão contemporâneo para ver se eles são idênticos. O problema é que não existe um alcorão original. Isso NÃO EXISTE. Portanto, não sabemos se o alcorão foi alterado. E quando os muçulmanos dizem que está inalterado, eles estão mentindo, pois eles não sabem. Isso é algo que eles apenas e simplesmente acreditam.

Ao discutir o alcorão, os muçulmanos frequentemente contestam sua interpretação, alegando que tu não falas o árabe. Eles argumentam que o alcorão só pode ser entendido corretamente no seu árabe original. Mas como eles sabem que o alcorão foi originalmente escrito em árabe? Eles não sabem. Sem o alcorão original, como eles poderiam saber? De fato, este é um tópico que estudiosos do alcorão debatem há décadas.

O primeiro alcorão conhecido foi encontrado em 1972 durante a restauração da grande mesquita de Sanaa, no Iêmen. Foi datado de cerca de 70 anos após a morte de Maomé. E não está escrito em árabe! Está escrito em siríaco ou aramaico da síria, uma das principais línguas da época.

Portanto, os muçulmanos não sabem se o alcorão foi escrito em árabe, eles APENAS ACREDITAM nisso.

Praticamente todos os muçulmanos te dirão que o alcorão contém as palavras reais de deus ditadas por Gabriel a Maomé, mas elas não podem te mostrar que deus existe ou que existem anjos. Então eles também não sabem que isso é verdade, APENAS ACREDITAM nisso.

Não nos devemos surpreender. Se as religiões fossem comprovadamente verdadeiras, não seriam religiões, seriam ciência ou história. O Islão, longe de ser uma religião perfeita, como afirmam os muçulmanos, é uma trapalhada de histórias sobrenaturais e fantásticas, todas baseadas em fundamentos de crença e fé cega.

O Islão é apenas mais uma religião.


Texto de Bill Flavell

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Origens: bíblia e o alcorão




Atualmente, muitas pessoas entendem as origens duvidosas da bíblia - os autores desconhecidos e datas desconhecidas, as adições tardias, as redações e as traduções duvidosas. Acrescente a isso relatos fantásticos, a ênfase na fé e a nossa incapacidade de validar a maior parte do livro, e resta-nos algo que só pode ser tratado como ficção com, talvez, pequenas fragmentos de verdade espalhadas por aqui e ali.

Mas pergunte aos muçulmanos sobre o alcorão e terás uma história muito diferente. Eles dir-te-ão que o alcorão é original e inalterado ao longo de 1.400 anos, e que contém as palavras exatas de deus ditadas por um anjo.

Mas como eles sabem disso? Depois de conversar com muitos muçulmanos, concluo que eles não sabem disso. É uma questão de fé cega, nada mais.

Recentemente me deparei com um artigo intitulado "O alcorão na Bolsa de Estudos Recentes", de Fred M. Donner. Ele aparece num livro com o título "O alcorão em seu contexto histórico", editado por Gabriel Said Reynolds.
Donner é um peso pesado no campo dos estudos islâmicos. Ensinou história do Oriente Médio na Universidade de Yale por sete anos e ensina na Universidade de Chicago desde 1982 no Departamento de Línguas e Civilizações do Oriente Próximo. Ele é diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade. Escreveu já quatro livros sobre a história primitiva do Islão.

Nada disso significa que seus pontos de vista estão corretos, mas ele também não pode ser dispensado com um aceno de mão. Donner é um estudioso que deve ser levado a sério. 

Um parágrafo em "O alcorão na Bolsa de Estudos Recentes" chamou a minha atenção:

"Os estudos do Alcorão, como um campo de pesquisa académica, parecem estar num estado de desordem. Aqueles que estudam as origens do Islão precisam admitir coletivamente que simplesmente não sabemos algumas coisas muito básicas sobre o Alcorão - coisas tão básicas que o conhecimento delas geralmente é dado como garantido por estudiosos que lidam com outros textos e incluem perguntas como: "Como o Alcorão se originou? De onde veio e quando apareceu pela primeira vez? Como foi escrito pela primeira vez? Em que tipo de linguagem foi - é - está escrita? Que forma tomou primeiro? Quem constituiu sua primeira audiência? Como foi transmitido de uma geração para outra, principalmente nos primeiros anos? Quando, como e por quem foi codificado? Aqueles que estão familiarizados com o Alcorão e com a erudição, saberão que fazer apenas uma dessas perguntas imediatamente nos mergulha num reino de graves incertezas e tem o potencial de desencadear intensos debates ".

Então, como os muçulmanos sabem que o alcorão é 100% original e é a palavra de deus? Talvez eles gostassem de nos dizer...


Texto de Bill Flavell



sexta-feira, 1 de novembro de 2019

A origem do personagem Deus



Antes de 1928, a origem do personagem deus era difícil de explicar. Nesse ano foi descoberta uma cidade do povo fenício, Ugarit. As escavações revelaram uma cidade muito importante.

Documentos encontrados em Ugarit, civilização anterior a Israel, permitiram aos pesquisadores compreenderem os escritos hebraicos.
Diversos depósitos de tabuletas de argila na escrita cuneiforme foram encontradas, constituindo uma biblioteca do palácio, uma biblioteca de um templo, duas bibliotecas privadas, mais uma outra biblioteca e arquivos com 420 tabuletas, todas datando da última fase de Ugarit, a cerca de 1 200 a.C.

Sete alfabetos diferentes eram utilizados em Ugarit: hieróglifos egípcios e luvitas, e os cuneiformes eteocretense, sumério, acádio, hurrita e ugarítico.
A obra de literatura mais importante descoberta em Ugarit é o Ciclo de Baal, que descreve a base da religião e do culto do Baal fenício (canaanita). Inclui também textos mitológicos, cartas, documentos de compra e venda de terras, tratados internacionais, e uma grande quantidade de listas administrativas.
Estes arquivos tiveram grande importância para o estudo bíblico, continham uma descrição detalhada das crenças religiosas fenícias anteriores à existência dos hebreus, mostrando paralelos significativos com a literatura hebraica bíblica o que levou a uma nova apreciação do velho testamento.

RELIGIÃO UGARÍTICA
A religião ugarítica estava centrada no deus-chefe, Ilu ou El, o "pai da humanidade", "criador da criação". Os mais importantes entre os principais deuses eram Hadade, o rei dos Céus e Atirate ou Asherah (familiar aos leitores da bíblia), mas havia muitos outros. Os textos ugaríticos forneceram informações sobre a religião dos fenícios, que em essência era a religião dos antigos israelitas.
A suprema autoridade divina em Ugarit era El, um dos nomes do deus de Israel (Génesis 33:20). El era o soberano, mas outro deus administrava as coisas na terra por El, como seu vizir, Baal, familiar do antigo testamento. A posição de Baal como "rei dos deuses" em Ugarit ajuda a explicar o "problema de Baal" no antigo testamento. O reino do norte cultuava Baal.
Os hebreus cultuavam a deidade, El, e usavam até alguns salmos e outros temas da literatura fenícia. Os atributos do El hebraico são os mesmos que o El ugarítico. A bíblia associa Iaveh (Jeová) a El (Gen. 14:18-20, 33:20, Exod. 6:3, etc.).
Os deuses como Baal e Asherah, de origem fenícia, eram igualmente louvados pelos hebreus antigos.

ASHERAH
Asherah ou Athirat (em ugarítico), era a mãe dos deuses, consorte de El, deusa do mar, deusa dos rebanhos e colheitas.
Asherah, a benevolente mãe que intercede pelos seus filhos, já pertencia ao panteão do Império Acadiano, surgido em 2334 a.C. com Sargão (r. 2334 – 2279 a.C.) e que existiu até o reinado de Shu-Turul (r.2168 - 2 154 a.C.).

BAAL HADAD
Baal Hadad foi o deus mais adorado entre os fenícios. É o deus das tempestades, da chuva, da névoa, do orvalho, é aquele que nutre as lavouras e traz a fertilidade para a terra, embora não seja o deus da vegetação.
Baal é um título e significa Senhor, Dono ou Lorde, título utilizado por outros deuses.
Baal Hadad ocupa uma posição subordinada apenas ao deus El, é o regente do mundo, substituto de El.

OS HEBREUS
Os hebreus, no início de sua história, não era um povo distinto dos fenícios. Começaram a se agrupar formando uma comunidade separada dos fenícios em torno de 1.200 a.C. quando a comunidade ugarítica estava em declínio.
Era uma comunidade inexpressiva, até quando Omri ascende ao poder, fundando a dinastia Omrida (885-843 a.C.). Ahab, filho de Omri, foi um dos maiores reis hebreus, devido a sua política de sancionar tanto o culto de Javé (Jeová) quanto o culto de Baal. Depois Israel entra num período de decadência. (Ref. Keith W. Whitelam. «The invention of Ancient Israel: the silecing of Palestinian History»). Pelo menos até o fim da dinastia Omrida os hebreus eram politeístas.
Em 722 a.C., Israel foi conquistado pelos assírios.

RUMO AO MONOTEÍSMO.
Passo 1. A corte de Jerusalém que se exilou em Judá, sustentava a ideia de que El ou IHVH (Iaveh) era o deus supremo. Aproximadamente duzentos anos depois Judá foi conquistado pelos babilônios (Cativeiro da Babilônia).

Passo 2. Durante o cativeiro babilônico, surgiu a ideia de que existia um Deus único, Iaveh.

Passo 3. Quando os hebreus foram libertos e voltaram para suas terras, reconstruíram o templo e passaram a considerar Iaveh (Jeová) como deus único. Os relatos orais do passado hebreu eram fantasiosos e discordantes, então em 398 a.C. resolveram escrever estes relatos, onde foram incluídos lendas assírias e babilônicas. Este relato resultou na Bíblia.

Nos relatos: 

1. O rei Sargão foi transmutado em Moisés.
2. Os 50 anos do cativeiro babilônico foram transformados em 400 anos do cativeiro no Egito, onde nem existia escravidão nem nunca estiveram levas de judeus.
3. O reino inexpressivo de Davi foi transformado num reino forte com um exército de 1,3 milhão de combatentes.
4. A história dos hebreus foi recuada para alguns milénios de antiguidade.
5. Estes escritos foram atribuídos à inspiração divina, o que prevalece até hoje.

Texto de Djair Lima

sábado, 26 de outubro de 2019

O personagem Jesus Cristo



Nos primeiros três séculos, a diversidade de perspectivas sobre quem era Jesus e o que significava ser cristão eram enormes, tanto que no consenso atual dos historiadores e teólogos recomenda-se falar nos cristianismos primitivos, (no plural).

O NOVO TESTAMENTO
O cânone do novo testamento demorou a ser estabelecido, até porque o cânone do Judaísmo, o antigo testamento, ainda não estava definido.
É possível que o cânone judaico só tenha sido definido no século II.
No início, os cristãos consideravam os livros sagrados judaicos.

O PRIMEIRO AUTOR CRISTÃO
A primeira epístola aos Tessalonicenses, escrita por Paulo provavelmente no ano 51, foi o primeiro texto de autor cristão, cita trechos do Pentateuco e dos profetas israelitas. Da vida de Jesus, Paulo só fala da última ceia, que foi crucificado e ressuscitou, e cita um ou outro ensinamento de Jesus. Não se sabe porque ele não fez a biografia de Jesus. As biografias de Jesus só foram escritas a partir do ano 65, quando Paulo já tinha encerrado a sua carreira apostólica.

COMUNIDADE DE JERUSALÉM
Há citações de que inicialmente os apóstolos originais, de Jesus e membros da família do Nazareno fundaram a comunidade cristã da Judeia, que pode ter acabado entre os anos 66 e 70.
As igrejas fundadas por Paulo veneravam o grupo de Jerusalém. Com o fim deste grupo acaba qualquer autoridade central.

CRISTOLOGIAS
Com o fim desta autoridade central houve uma explosão de diversidade de doutrina sobre quem afinal era Jesus. Cada doutrina é chamada de cristologia, segundo Chevitarese, são quatro cristologias convivendo entre os anos 50 a 60.

a) Para Paulo, Jesus era o Cristo porque ressuscitou.
b) Para o evangelho de Marcos, quem fez Jesus se tornar o Cristo foi o batismo por João Batista.
c) Os evangelhos de Mateus e Lucas consideram que Jesus se tornou o Cristo a partir do seu nascimento.
d) Enquanto João vê Cristo como pré-existente no próprio mundo.

Ainda deve-se considerar que fragmentos dos evangelhos judaicos – cristãos citados por autores posteriores como Jerónimo (347-420) havia pelo menos três evangelhos da mesma linha, o Evangelho dos Nazarenos, o Evangelho dos Ebionitas e o Evangelho segundo os hebreus, que apresentava a ideia que Jesus não era divino e segunda pessoa da santíssima trindade.
O Evangelho dos Nazarenos, que parece uma versão do evangelho de Mateus, acreditava que Jesus era um ser humano especialmente bom, adotado por deus no momento do batismo.
O Evangelho dos Ebionitas fala que houve um certo homem chamado Jesus, que tinha cerca de 30 anos de idade. E foi ele quem nos escolheu.
Por outro lado, o bispo cipriota Epifânio de Salamina, morto em 403, regista que leu no Evangelho dos Ebionitas que Jesus era uma espécie de anjo encarnado – inferior a deus, mas não totalmente humano.

BIBLIOTECA PERDIDA
Em 1945, foi encontrada uma jarra selada enterrada, que continha treze códices de papiro embrulhados em couro. Os códices contêm textos sobre cinquenta e dois tratados maioritariamente gnósticos, três trabalhos pertencentes à Corpus Hermeticum e uma tradução parcial de A República de Platão. Muitos gnósticos acreditavam que Jesus não era o mesmo deus do antigo testamento, e sim, filho ou primeiro ministro do verdadeiro deus supremo.

IDEIAS EXISTENTES NA FORMAÇÃO DO CÂNONE
Marcion de Sinope rejeitava o deus sanguinário dos Judeus, e diferenciava o bondoso pai de Jesus. Ele achava que Jesus não era um humano de verdade, rejeitava o nascimento de Jesus e o cumprimento de profecias do antigo testamento na vida do Messias.

EVANGELHOS CANÓNICOS
Bispos e pensadores cristãos, como Irineu de Lyon, começaram a defender a definição de um cânone, mas este debate não parecia ter um fim, até que o cristianismo passou a ser a religião oficial do império Romano e o Imperador Constantino passa a promover a uniformização do cristianismo, e a determinação de um cânone único e coerente, o que deixou de fora dezenas de textos de cristãos judeus, gnósticos e outros "hereges". Mas Constantino não concluiu o seu projeto.
A primeira lista dos livros do novo testamento tal como é hoje, foi do ano de 367, determinada pelo bispo Atanásio de Alexandria.

A INFÂNCIA DE JESUS
Os autores dos evangelhos canónicos quase nada falam da infância e adolescência de Jesus. Jesus só aparece bebezinho e depois aos 12 anos numa passagem triunfal no Templo de Jerusalém.
Os primeiros cristãos tentavam imaginar, como era Jesus antes da vida pública.
Então foram escritos os evangelhos da infância, como o de Tomé. Especialistas como Bart Ehrman, professor de história do cristianismo antigo da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (EUA), consideram que estes trechos são midrash (textos inventados para completar narrativas, comum entre os judeus).
Um trecho de Tomé relata que Jesus estava moldando passarinhos com barro num sábado, dia santo judaico. Um judeu chama a atenção de Jesus e o menino bate palmas e as aves saem voando.
Estes textos são questionáveis, retratam um menino Jesus usando poderes milagrosos de forma fantasiosa. Num trecho, um menino começou a desfazer umas represas que ele tinha feito nas margens de um riacho. Jesus irritou-se e fez o menino secar completamente. Noutro trecho um menino passou correndo e esbarrou no seu ombro, Jesus ameaçou o menino que caiu e morreu. Noutro os aldeões vão reclamar dele com José e eles ficaram cegos e ele amaldiçoou um de seus professores. Noutro ele ressuscita um amiguinho que caiu do telhado da casa. Fez madeira crescer milagrosamente para que José terminasse seus trabalhos de carpintaria.
Especialistas como o franco alemão Oscar Culmann(1902-1999), chegam a agradecer a deus pela não inclusão dos evangelhos da infância no novo testamento.

EVANGELHOS GNÓSTICOS
Para alguns seguidores de Jesus, Tomé (gémeo, em aramaico) apelido Dídimo (gémeo) ou Dídimo Judas Tomé, autor do evangelho de Tomé, era gémeo de Cristo.
Também nas narrativas canónicas, Jesus pede aos apóstolos que lhe digam quem ele é. Tomé lhe disse: "Mestre a minha boca é totalmente incapaz de dizer o que és".
Disse então Jesus. "Não sou teu mestre, pois bebeste e te embriagaste da fonte borbulhante que eu mesmo guardo".
O evangelho de Tomé representa ideias gnósticas, que o conhecimento secreto transmitido por Jesus é o responsável pela salvação e não a fé na morte e ressurreição, pois ali nem se fala em paixão de Cristo, ele é sempre descrito como o "Jesus vivente".
O evangelho de Tomé cita que Pedro fala: "Maria tem de nos deixar, pois as mulheres não são dignas de viver".
Jesus contradiz: "Eis que eu a guiarei para torná-la masculina, para que também ela se torne espírito vivente, como vós que sois homens, pois toda mulher que se fizer homem entrará no reino dos céus".
Outro texto narra: A companheira do Salvador é Maria de Magdala. O salvador amava-a mais do que a todos os discípulos, e ele a beijava com frequência na sua boca (os termos em destaques estão ilegíveis no original).

O DOCUMENTO Q
Há uma ideia que nos primórdios do cristianismo havia um documento hoje perdido contendo os chamados lógia (declarações) de Cristo, o documento Q, que parece ter dado origem ao Evangelho de Tomé e aos Evangelhos de Mateus e de Lucas.

CONCLUSÃO
O personagem Jesus Cristo construído a partir desta descrição histórica, certamente não é a verdadeira pessoa, o Jesus que deu origem ao cristianismo.


Texto de Djair Lima

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Quando os judeus tinham crença noutros deuses




A Bíblia está repleta de referências a outras divindades além de Yahweh: os profetas não negaram a existência desses deuses, eles simplesmente não achavam que os judeus deveriam adorá-los.

Existe apenas um Deus, de acordo com o dogma religioso judaico. Não existe outro. Tendemos a supor que nossos antepassados ​​devotadamente acreditavam no mesmo. Mas a verdade é que a Bíblia também mostra, repetidas vezes, que esse não era o sistema de crença predominante entre os antigos israelitas.

Os diferentes escribas que escreveram a maior parte do cânon bíblico acreditavam que o mundo incorpóreo era povoado por uma multidão de deuses, mas que os hebreus não deviam adorar nenhuma dessas outras divindades, apenas Yahweh. Isto é explicitamente declarado no segundo Mandamento: "Não terás outros deuses além de mim" (Êxodo 20: 3).

O versículo "Quem entre os deuses é semelhante a ti, Senhor? Quem é semelhante a ti?"(Êxodo 15:11), é ainda mais explícito sobre outros deuses que existem junto com Yahweh.

Entre os livros da Bíblia, encontramos referências a muitos outros deuses, às vezes com referências explícitas aos milagres realizados por eles. Esses deuses geralmente são membros do panteão dos deuses semitas ocidentais, aqueles adorados por pessoas que falam línguas intimamente relacionadas ao hebraico.

Sem dúvida o mais importante desses deuses foi Ba'al ("mestre"), que é mencionado cerca de 90 vezes na Bíblia. Ba'al era um título honorífico do deus Hadad, da mesma maneira que "Adonai" ("meu mestre") é um título honorífico para o Senhor.



Obviamente, Ba'al não é o único deus do panteão semítico ocidental a ser mencionado na Bíblia. O pai de Ba'al, Dagon, o deus da colheita, também aparece, novamente em histórias destinadas a mostrar a superioridade de Yahweh sobre ele.

Em 1 Samuel, capítulo 5, somos informados de que, depois que os filisteus capturaram a Arca da Aliança, eles a levaram ao Templo de Dagon em Ashdod. Mas isso resultou na destruição milagrosa de sua estátua de culto. Yahweh vence novamente.

O pai de Dagon era El, o chefe do panteão semita ocidental. O nome Israel mostra que El era originalmente o deus tutelar de Israel (está bem ali no nome!), Mas com o tempo, Yahweh tomou o lugar de El: “Quando o Altíssimo (El Elyon) dividiu a herança entre as nações, quando separou os filhos de Adão, estabeleceu os limites do povo de acordo com o número dos filhos de Israel. Pois a porção do Senhor (Yahweh) é o seu povo; Jacó é a herança de sua herança”(Deuteronômio 32: 8-9).

Neste texto antigo, podemos ver que El e Yahweh ainda eram vistos como duas divindades separadas, com Yahweh subordinado a El. Mas, com o passar do tempo, El e Yahweh se combinaram: as duas divindades começaram a ser vistas como a mesma.

Em Êxodo 6:3, Deus diz a Moisés: "Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó, pelo nome de Deus Todo-Poderoso (El Elyon), mas pelo meu nome Jeová não lhes era conhecido". Assim, os antigos só conheciam Deus como El, mas, com o passar do tempo, descobriram que El era apenas outro nome de Javé.

El tinha um consorte, a deusa Asherah, e quando Yahweh tomou o lugar de El, Asherah se tornou consorte de Yahweh. É-nos dito que a Asherah foi adorada no templo mais antigo de Jerusalém - não explicitamente, mas nos disseram definitivamente que os símbolos dela foram removidos do templo, então eles precisavam estar lá em primeiro lugar (1 Reis 15:13 e 2 Reis 23:14).

Foi apenas no final do período do Primeiro Templo, durante o reinado do rei Josias (a segunda metade do século 7 a.C.) que os objetos de culto de Asherah foram retirados do templo de maneira bastante dramática. Há várias referências às reformas monoteístas de Josias, como: "Josias despedaçou as colunas sagradas, derrubou os postes sagrados e cobriu os locais com ossos humanos." (2 Reis 23:14, Nova Versão Internacional)

Na verdade, El era o pai de muitos deuses além de Dagon, vários dos quais foram explicitamente mencionados na Bíblia.

Mot, a personificação da morte, é descrito em várias passagens como uma divindade. Diz-se que em Jó 18:13 ele tem um filho, e em Habacuque 2:5 nos dizem que ele abre bem a boca e engole almas.

Outro filho de El era o próprio mar, chamado Yam (a palavra ugarit e hebraica para "mar"), embora a Bíblia chame o deus "Raabe". Por exemplo, Jó 26:12 diz que Deus "divide o mar com seu poder, e pelo seu entendimento ele fere Raabe." Lendas de um deus da tempestade, como Ba'al, derrotando o mar são muito comuns no antigo Oriente Próximo.

O sol e a lua, o amanhecer e o anoitecer, assim como outros fenômenos naturais, também foram deificados nas antigas religiões semíticas do Ocidente e provavelmente no antigo Israel também, embora isso seja menos aparente na Bíblia.

É provável que Beit Shemesh tenha sido um centro de adoração ao sol, já que o nome do lugar significa literalmente "Casa do Sol". Jericó provavelmente foi em algum momento um centro para a adoração à lua. O nome da cidade em hebraico é "Yerikho"; e a palavra hebraica para lua é Yarekh, que outras línguas semíticas ocidentais usam como o nome do deus da lua.

A Bíblia se refere ao sol e à lua, é claro, geralmente mostrando que Deus tem total controle sobre eles, como é quando ele os pára no céu (Josué 10:13), mas não se refere a eles explicitamente como divindades personificadas.

No entanto, os antigos hebreus os adoravam claramente, como os outros semitas ocidentais. Ezequiel (8:16) relata ter visto pessoas adorando o sol no templo. Podemos inferir isso porque a Bíblia condena especificamente sua adoração, e somos informados de que Josias tomou medidas para impedir o culto no final do período do Primeiro Templo, na segunda metade do século VII AEC. Essas ações incluíam a remoção de objetos de culto do próprio templo (2 Reis 23:11).

A Bíblia também conta que os antigos hebreus adoravam um deus chamado Moloch, que estava associado aos amonitas e ao sacrifício de crianças. Este culto também foi marcado por Josias na mesma reforma (por exemplo, 2 Reis 23:10).

Os livros históricos da Bíblia foram escritos por um grupo “adeptos de Yahweh” e, portanto, são profundamente críticos da adoração de outros deuses em Judá. Ainda assim, é claro pela descrição deles que o politeísmo era a norma no período do Primeiro Templo. Foi somente durante a reforma do rei Josiah que o "único partido de Yahweh" realmente assumiu o controle e começou a tirar outros deuses da mente da Judeia.

Mas note que eles não alegaram que outros deuses não existiam. Eles apenas declararam que sua adoração era proibida por Yahweh, ou como diz Êxodo 34:14: "Pois não adorarás outro deus: porque o Senhor, cujo nome é ciumento, é um Deus ciumento".

Aparentemente, foi apenas durante o exílio babilônico (cerca de 586 aC a 500 aC) e o período seguinte do Segundo Templo (500 aC a 70 dC), que o judaísmo progrediu da crença de que Yahweh é o único deus que deveria ser adorado, à crença que ele é o único deus que existe. Ou seja, nasceu o monoteísmo.


Autoria de Elon Gilad, Colaborador do Haaretz

domingo, 23 de junho de 2019

Um deus ignorante



A escravatura hoje é crime. Lógico, não é? As igrejas cristãs condenam essa prática horrível. Mas quando os portugueses e outros a praticavam, há séculos, não era. Os padres diziam que não era crime. Até estava na Bíblia!

Então o deus dos cristãos não sabia que a escravatura era crime e só aprendeu recentemente?

O deus só aprendeu quando os homens aprenderam. É lógico, porque o deus é uma invenção dos homens.
Se o deus, inteligência infinita, bondade infinita, existisse, tinha proibido a escravatura desde o início. E teria ensinado a praticar higiene, desinfeção, antibióticos, eletricidade, matemática, química, física, hidráulica, cosmologia, navegação, impressão, direitos humanos, eu sei lá as coisas maravilhosas que um deus sábio podia ter ensinado à humanidade, milhares de anos antes que os seres humanos as descobrissem sozinhos.

Em vez disso, o que está na Bíblia são ideias tão ignorantes como as do povo primitivo que escreveu o livro. O mundo feito em seis dias, a terra plana, proibição de comer porco e marisco, as mulheres menstruadas são impuras, burros falantes, bruxas, demónios e mortos que ressuscitam.

O deus antigo era tão ignorante como o povo que o adorava. Lógico: tinha sido imaginado por eles.


Fonte: Carlos Cabanita

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Religião e personificação




Segundo o dicionário “personificação” se refere a “indivíduo que representa, simboliza ou faz lembrar alguma coisa abstrata”.

Em outras palavras, podemos dizer que o processo de personificação, que associa uma pessoa a um conceito abstrato ou a algo que não é humano, é a chave para o entendimento das crenças religiosas.

Uma pessoa tende a ser mais religiosa na medida exata em que vê o mundo por uma ótica personificada. Quando associa aspectos humanos a praticamente qualquer coisa.

Os deuses e espíritos nada mais são do que a atribuição de característica humanas a fenômenos da natureza, objetos, animais e principalmente conceitos abstratos.

Um deus nasce sempre que algo “se faz pessoa”.

Por que as pessoas fazem isso? Por que precisam tornar o rio, a montanha, o mar, o céu, a chuva, os animais, a morte, a alegria, a esperança ou a bondade um ser humano?

Isso é relativamente simples de explicar. Não suportamos a indiferença do mundo e por isso preferimos que coisas e conceitos sejam “gente” como nós.

Quando um conceito “se faz gente”, podemos conversar, negociar, implorar e até pretender dar ordens para ele.

Um mundo povoado por mentes humanas é infinitamente mais aceitável do que um mundo povoado por leis impessoais e por fenômenos indiferentes a nossa sorte.

Não há nenhuma crença religiosa que não possa ser traduzida em termos de personificação de algo abstrato ou não humano. 


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A bíblia e a Terra plana





A Bíblia suporta a noção primitiva de uma terra plana. No sexto século, um monge cristão chamado Cosmas escreveu um livro intitulado Topographia Christiana, descrevendo a estrutura do mundo físico. Baseando seus pontos de vista na Bíblia, Cosmas disse que a Terra é plana e cercada por quatro mares. [1]

A profecia de Apocalipse 1: 7 foi a base para a sua conclusão. Afirma que quando Cristo voltar, “todo olho o verá”. Cosmas argumentou que, se a Terra fosse redonda, as pessoas do outro lado não veriam a segunda vinda de Cristo. [2]

Suporte adicional para a idéia de uma terra plana está contido nos versículos que mencionam os “quatro cantos da terra” (por exemplo, Isaías 11:12; Apocalipse 7: 1) e os “confins da terra” (por exemplo, Jeremias 16: 19; Atos 13:47).

Por causa de tais ensinos da Bíblia, a maioria dos pais da igreja primitiva achava que a Terra é plana. [3] De fato, a visão do mundo contida no livro de Cosmas foi aceita por vários séculos como doutrina cristã ortodoxa [1]. Mesmo no século XV, quando Cristóvão Colombo propôs navegar a oeste da Espanha para alcançar as Índias Orientais, a noção bíblica de uma Terra plana era uma importante fonte de oposição a ele.

Quanto à questão de o que mantém a terra plana no lugar, a Bíblia indica que a resposta é “pilares”. Os pilares da terra são mencionados em vários versos no Antigo Testamento (I Samuel 2: 8; Salmos 75: 3; Jó 9: 6). Esses versículos refletem a crença dos antigos hebreus de que a terra repousa sobre pilares. [4]

Referências:
1 White, Andrew D. Uma História da Guerra da Ciência com a Teologia na Cristandade , vol. II (Nova Iorque: D. Appleton e Cia., 1910), pp. 67, 68.
2 “Os fantasmas”, Ingersoll, vol. Eu, pp. 301, 302
3 Draper, John W., História do Conflito entre Religião e Ciência.
4 A Nova Bíblia Inglesa com os Apócrifos , Oxford Study Edition (Nova York: Oxford University Press, 1976) (americanhumanist.org)


Texto de Asor Otsenre

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Adoradores sobre constantes ameaças



Diga não a todos que usam “livros sagrados” para te ameaçar, te explorar, te subjugar, te iludir ou te amedrontar!

Na busca pela melhoria nas relações entre os povos, muitos não percebem que o ato de submeter-se as ameaças em nome uma divindade qualquer, continuará sendo sempre um entrave ao progresso e harmonia social.

As pessoas adoram a deus por que o amam ou por que são ameaçadas por ele e por seus representantes? Existe realmente o livre arbítrio quando há somente a opção de adorá-lo e ser salvo ou não adorá-lo e ser condenado? Para que se haja um livre arbítrio é necessário que se haja uma multiplicidade de escolhas e não apenas duas que te levem ao mesmo caminho pela coação e medo.

Quem inventou tudo isso? Um ser celestial completo de tudo e que de nada precisa ou homens gananciosos com o intuito de manipulação e controle social? Por que há tantas contradições nas qualidades surreais atribuídas ao deus bíblico? Pode alguém ser mal e bom simultaneamente? Poderia ser justo e injusto ao mesmo tempo? Seria possível ser completo de tudo e criador de tudo e ao mesmo tempo vazio, carente de atenção a ponto usar todo tipo de coação para ser venerado?

No mundo moderno em que vivemos, o espaço para a tirania tem sido cada vez mais reduzido ou monitorado. As pessoas tem se unido em uma proporção bem maior que antes para que tiranos sejam enquadrados em seus devidos lugares e os “machões” que antes faziam tremer todo um vilarejo com sua fama de valente sejam reduzidos a contos folclóricos e se percam nas areias do tempo.

Muito antes mesmo da Lei Universal dos Direitos Humanos serem promulgadas, do século 17 para cá, várias colônias conquistadas por europeus e asiáticos começaram se declarar independentes de seus exploradores. O oprimido passou a rebelar-se e a ideia de que os governantes tem o direito divino de governar foi cada vez mais questionada, enfraquecendo assim as bases seculares de governos antigos, fazendo com que os povos pudessem interagir cada vez mais nos processos de construções sociais deixando de ser apenas meros fantoches do clero e da monarquia. Vários movimentos filosóficos contribuíram para incendiar tais movimentos populares e mudar a concepção do povo sobre si mesmo e sobre o mundo ao seu redor.

Além disso, várias revoluções populares mudaram o curso da história e estamos aperfeiçoando cada vez mais, métodos para que o homem não seja oprimido pelo próprio homem e igualdade entre os povos seja algo cada vez mais palpável.

Alguns modelos de ritos religiosos ainda tem sido um entrave nesse processo da busca pela igualdade social, quando líderes gananciosos exploram seus fiéis para enriquecimento próprio além de dividirem mais uma vez as classes dos homens entre os que “servem a deus” e os que “não servem” fazendo com que as pessoas acreditem que somente por meio daquela instituição ou rito serão salvas, contribuindo com a segregação, fanatismo e ideia de menosprezo para com os que não fazem parte daquele segmento.

Enquanto uns constroem pontes lutando por interesses que beneficiarão a todos, outros constroem abismos, segregando, rotulando e classificando tudo e a todos a seu redor com os termos mais pejorativos possíveis por não crer ou não praticar determinada em crença ou rito litúrgico.

Os que constroem pontes geralmente prezam pela evolução social como um todo, por uma melhoria coletiva que gere lucro, dividendos ou benefício em comuns nos mais variados ângulos. Os que constroem abismos, geralmente o fazem em nome de uma divindade qualquer, quando na verdade estão apenas criando feudos particulares onde os vassalos irão trabalhar apenas em prol desse senhor feudal, cujo poder adquirido será para opressão dos que lhe servem. E depois dirão: “assim deus mandou, assim deus o quer, assim o farei! E quem não obedecer será castigado dessa ou daquela forma!

A diplomacia, a política (não me refiro a politicagem) e o direito tem sido as principais ferramentas utilizadas para pôr fim ou pelo menos amenizar os abusos que temos cometidos uns contra os outros nos últimos milênios. Essas ferramentas estão cada vez mais sendo aperfeiçoada por uns grupos e usado em mau intento por outros e mesmo assim estamos progredindo na busca pela igualdade e justiça social.

Hoje em nosso país por exemplo, se um homem ameaçar bater em sua companheira ou em qualquer pessoa ele pode ser severamente punido ou reprimido por meio de leis que procuram inibir ou evitar tais comportamentos.

Se um empregador humilha, agride ou assedia seus funcionários causando danos morais, físicos ou psicológicos a esse, poderá haver mais de uma instancia jurídica para punir tais abusos e fazer justiça ao que fora humilhado ou abusado.

Piadas com negros, gordos, loiras, gays, bullying e citações que possam constranger alguém também estão sendo severamente combatidas, coisa que há menos de duas décadas passava-se despercebida ou como um caso de pouca importância, pois era habitual e até certo ponto aceitável esse comportamento. Claro que em algumas situações podem haver excessos de censura quando o intuito de aparecer em público é maior que o desejo de defender a si mesmo ou a outros de tais abusos. Nesse caso o “oprimido” deseja apenas ser opressor de modo sorrateiro.

Pela nossa constituição é ilegal fazer ameaças a outrem bem como força-lo a fazer algo que este não queira ou que não tenha condições físicas ou psicológicas para executá-las. Até mesmo numa relação marital legal por exemplo, o sexo não consensual entre marido e mulher pode ser considerado estupro se um dos conjugues não estiver a fim por algum motivo.

Se nas relações pessoais estamos evoluindo, passando a considerar como impuro, imoral, ilegal, injusto e desprezível o ato de fazer ameaças, torturas e constrangimentos a outrem, por que achamos justo e até sagrado o ato de vivermos sobre constantes ameaças de um deus metafisico por meio de um “livro sagrado” e por meio de seus representantes? Qual a sacralidade de viver sob tensão para adorar uma divindade a fim não ser punido por esta?

Se um homem ameaça outro homem de morte consideramos isso um ato reprovável, digno até de prisão preventiva para evitar que um dano maior seja causado ao ameaçado, mas se deus em sua palavra ou seus representantes ameaçam alguém de morte por não lhe render louvores, ou não “aceitar jesus”, não vemos nada de errado nisso.

Por que será? Será que todos de modo inconsciente concordam que deus é apenas uma ideia construída e não um ser pessoal, por isso não se faz necessário questionar os fundamentos de suas ordens e dessas ameaças? Ou os seus adoradores são como hipócritas voluntários, coando um mosquito e engolindo um camelo, exigindo perfeição de quem não é perfeito (os homens) enquanto esconde os abusos daquele qual dizem ser a referência de toda justiça humana?

O deus bíblico é um ser justo e amoroso ou apenas um tirano ávido por incessantes louvores? Seria o deus bíblico um reflexo do próprio ego humano? O que seria ele para desejar incessantemente louvores e adoração a ponto de matar seu próprio povo quando este deixava de adorá-lo? Por que muitos, apesar de irem as ruas em protestos pedir igualdade entre os povos e condenar atos de abusos, não conseguem enxergar no modelo bíblico de deus, atos de extrema arrogância?

Como dito em outros textos, a “igreja do senhor” só tem conseguido se manter de pé bem como a ideia de deus como o ocidente fora ensinado a crer, devido as conversões foçadas pela espada durante a idade média, devido aos abusos da inquisição que ainda hoje deixou seus resquícios e devido as constantes ameaças em públicos que os representantes desse deus fazem para com aqueles que se recusam a dizer que esse é o deus justo, santo, único e verdadeiro. Até boicotes comerciais, industrias e pessoais são promovidos a fim de enquadrar os “rebeldes” segundo a visão dos que lucram com os currais da fé.

Nota-se que em países em que a maioria se dizem ser teístas ou que um “livro sagrado” seja mais importante que a própria constituição do país, os abusos do homem para com o homem ainda continua sendo demasiadamente grande em relação a outros países considerado laicos. Tudo isso resguardado debaixo das “leis de deus”, onde vários trechos mostram claramente que seus servos podem ter escravos pessoais, escravos sexuais, cometer pedofilia, abusar de outrem que não seja da mesma fé, trapacear e até matar “infiéis” e uma série de outros crimes que deixariam no chinelo até mesmo aquele que dizem ser o príncipe das trevas.

Quem sabe não sejam nos livros “satânicos” e “mundanos” que se encontrem as narrações das maiores loucuras cometidas do homem contra sua própria espécie, mas possivelmente estes fatos estejam relatados nos livros das principais religiões que tem como patriarca Abraão e seu deus.

Se perguntássemos a vários líderes do presente e do passado por que deus criou o homem e todo o ser vivos eles diriam praticamente em uma só voz, que todas as criaturas foram criadas exclusivamente para adorar ao senhor, inclusive as classes de anjos, arcanjos e querubins. Todo e qualquer ser, seja pedras, plantas e todo o ser vivo ou inerte deve adorar ao senhor, pois todos foram criados para isso. É isso que eles dizem!

O que estar errado nesse pensamento? Tudo estar errado! A citação inteira estar errada! O modo de concordar estar errado! O modelo de tirania...tudo isso não condiz com a ideia do sagrado.

O desejo incessante de ser adorado por tudo e por todos não são características de um ser completo, auto existente, auto suficiente, eterno, bondoso e fonte de todo amor. Ao contrário disso, o desejo profundo em ser o centro das atenções reflete apenas características de uma criatura vil, medíocre, paupérrima, infantil, não evoluída, com problemas de auto aceitação, de personalidade doentia e de extrema crise existencial.

Homens paupérrimos constroem divindades medíocres, inserem neles suas próprias qualidades doentias e vivem sob ameaças e dogmas que eles mesmos criaram, como se essas realmente tivessem partido daquele que dizem ser a fonte da pureza e justiça universal.

Não há nada mais louco e controverso do que isso: UM DEUS COMPLETO E TODO PODEROSO QUE DE NADA PRECISA PARA CONTINUAR EXISTINDO E QUE MESMO ASSIM AMEAÇA SUAS CRIATURAS COM DESTRUIÇÃO, MORTE E INFERNO ETERNO CASO ESSAS NÃO O ADORE CONSTANTEMENTE!

É na cabeça dos homens que as qualidades surreais dos deuses são criadas! É na crença coletiva que elas são inseridas! Qualquer qualidade dos deuses pode ser manejada para os mais diferentes propósitos e quem já estudou história da igreja por exemplo, sabe como foi criada a ideia do deus cristão e dos dogmas católicos ao longo dos séculos.

Se queremos realmente diminuir as desigualdades entre os povos e construir pontes ao invés de abismos entre os homens, ideias de que deus precisa de seu dinheiro e sua adoração para continuar existindo ou proclamando o seu reino devem passar pelo crivo da razão, da lógica e coerência.

Nós seriamos capazes de construir uma “sociedade celestial” se parássemos de terceirizar nossas responsabilidades e deixássemos de sermos trouxas, dando um percentual eterno de tudo que ganhamos para pessoas que usarão tais recursos para ser tornar cada vez mais poderosas e influentes a ponto de decidir como nos comportaremos além de influenciar nossas emoções, fazendo com que muitos se sintam um lixo se não estiverem sob a “proteção” desse deus ou de seus representantes.

Por meio de nosso silencio e falta de raciocínio alimentamos um monstro que nos encarcera, nos divide e nos põe uns contra os outros o tempo inteiro. Ache o monstro e mude, mude sua vida e seja realmente feliz aqui, agora ou em outra existência se possível.

O monstro pode ser o medo que te inculcaram desde cedo acerca da ideia desse deus. Pode ser seu próprio ego, ou pode ser a opinião dos “filhos de deus” a seu respeito, fazendo com que você se sinta um lixo, um pecador e leve um fardo desnecessário por um caminho a esmo. Em certos casos é até salutar para alguns mandar para a PQP só com um olhar, gente doente e paranoica que tenta nos contaminar com suas maluquices e com tantas ideias contraditórias acerca dessa ou daquela divindade. “Doente” malvado é todo aquele que tentar contaminar outra vez os que estão em processo de cura.

Uma das frases mais bonitas e encorajadoras que podemos dizer uns aos outros numa nova jornada é: “você pode mudar sua vida! Você pode ser o senhor do seu destino se assim você o quiser! Quase tudo pode ser mudado e refeito...

Se existe algum tipo de plano divino por um ser “divino” para a vida do homem, esse plano seria que deixemos de ser trouxa, capachos de gente mal resolvida, ignorante ou mal intencionada que te enxerga apenas como objeto de lucro e poder e usa a ideia de deus e suas ameaças para tais propósitos!

Temos apenas uma vida curta, e vivemos maior parte dela sob medo, tensão e constantes ameaças causando sérios danos a nossa saúde física e mental, tudo isso baseado na ideia de um deus carrasco e tirano, insensível aos problemas dos homens, que deseja apenas ser venerado acima de tudo.

A paz e equilíbrio que procuramos não precisa ser financiada por 10% de tudo que ganhamos nem baseado na obediência cega a pessoas que em certos casos de conduta deplorável. Ela pode estar mais perto do que você imagina. Pensem nisso!

Saúde e sanidade a todos!

Texto de Antonio Ferreira, graduando em jornalismo, Bacharel em Teologia, estudante de religiões e filosofia.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Os superpoderes dos deuses antigos




Se olharmos para a história do homem e da sua relação com os deuses, percebe-se que a maioria das divindades não era omnipotente, apenas tinham alguns superpoderes, como por exemplo, controlar o tempo, criar seres vivos, comunicar à distância, escapar à morte, entre outros poderes. Entretanto, algumas dessas aptidões que durante tantos milénios eram consideradas atributos exclusivos dos deuses, hoje fazem parte do nosso quotidiano como atributos banais.

Hoje, não só nos deslocamos como comunicamos de forma global com uma facilidade tal que faria inveja aos deuses gregos, africanos, ameríndeos ou hindus. Há em África um povo que acredita no deus Chukwu que desejava fazer o homem imortal, mas esse deus teria de ensinar os humanos o modo de atingir esse feito. Segundo reza a lenda, Chukwu enviou um cão pra ensinar os humanos que quando morressem, deveriam espalhar-se cinzas sobre o cadáver para que o corpo ressuscitasse, mas o cão cansou-se na viagem e perdeu-se. Então, Chukwu enviou uma ovelha para difundir a mensagem, mas as ovelhas como não são propriamente uns bichos inteligentes, trocou as instruções de cansada que ficou com a viagem, e disse aos humanos que deviam ser enterrados. E, segundo essa lenda, está encontrada a razão de nós continuarmos a morrer. Uma pena que Chukwu não conhecesse os poderes banais que temos hoje em dia, pois assim teria enviado um tweet ou feito uma publicação no Facebook em vez de usar cães fracos ou ovelhas lerdas.

Quando olhamos para todas esses povos agrícolas da idade do bronze, nota-se uma completa falta de interesse no que toca ao tema da metafísica ou pelo tema que tantos crentes hoje em dia se matam, a vida depois da morte. Apenas se preocupavam com ninharias, assuntos corriqueiros do dia a dia como uma boa produção agrícola, ou com uma boa chuvada nas épocas certas. Por isso, os deuses do antigo testamento não prometem o paraíso ou o inferno depois da morte, apenas prometem chuva a horas para que os hebreus possam se alimentar devidamente, desde que se portem bem ao não adorarem um outro deus rival (do deus único), tal como esta em Deuteronómio 11:13-17.

Realmente, como as coisas mudaram tanto desde esses tempos de tão pouco conhecimento. Hoje, os cientistas arrasam por completo esses deuses hebreus do antigo testamento. Inventaram fertilizantes e pesticidas e alteraram geneticamente as colheitas que tem resultado em produções agrícolas que arrasam os melhores anos agrícolas desses povos antigos. Como se não chegasse, o árido Estado de Israel já não tem que se preocupar com a falta de água ou de chuva, devido à enorme estação de dessalinização construída no Mediterrâneo, de onde vem toda a água potável que necessitam. 


Baseado na obra Homo Deus

terça-feira, 3 de julho de 2018

Matadouros judaicos




No início,a teologia, a mitologia e a liturgia de religiões como o Judaísmo, o Cristianismo e o Hinduísmo centravam-se nas relações entre os humanos, as plantas domesticadas e os animais de criação.

Por exemplo, o Judaísmo bíblico que vigorou até o ano 70 AEC, quando os romanos destruíram o templo de Jerusalém, era dirigido a camponeses e pastores. A maior parte dos seus mandamentos estava relacionada com a agricultura e a vida na aldeia e as suas principais celebrações eram as festas por altura das colheitas. Hoje, as pessoas pensam no templo de Jerusalém como uma grande sinagoga onde os sacerdotes envergando túnicas brancas de um branco imaculado, acolhiam os peregrinos devotos, na qual coros entoavam salmos e o perfume do incenso se espalhava pelo ar.

Na verdade, era mais uma espécie de cruzamento entre um matadouro e uma churrasqueira. Os peregrinos não chegavam de mãos vazias. Traziam com eles filas infindáveis de ovelhas, cabras, galinhas e outros animais, que eram sacrificados no altar divino e posteriormente cozinhados e comidos. Os coros de salmistas mal se ouviam no meio dos mugidos e balidos de bezerros e cabritos. Os sacerdotes com as vestes manchadas de sangue degolavam as vítimas, recolhiam o sangue a jorrar para recipientes e aspergiam-no sobre o altar. O odor a incenso misturava-se com o cheiro de sangue coagulado e da carne assada enquanto enxames de moscas zumbiam um pouco por todo o lado (ver, como exemplo, Números 28, Deuteronómio 12 e I Samuel 2). 

Uma moderna família judaica que festeje um feriado religioso com um churrasco no quintal está muito mais perto do espírito dos templos bíblicos do que uma família ortodoxa que passe o tempo a estudar as escrituras numa sinagoga.


Excerto de Homo Deus, de Yuval Noah Harari