segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Da clava à fé: Quem realmente possui deus no coração? PARTE II




Quem é capaz de fazer mais besteira, uma pessoa com ou sem deus?

PARTE 2 DE 3

*Por Antônio F. Bispo

Viver acusando um ao outro de não possuir deus, ou de estar servindo a ele de modo errado é uma característica marcante dos grupos que se dedicam a venerar o deus de Abraão, tido pelos tais como sendo o único e verdadeiro deus criador de todas as coisas. Um único deus, três grandes religiões, milhares de subdivisões e muito sangue derramado ao longo de 6 mil anos para provar quem é mais cheio dele ou quem o agrada mais.

Como já dito antes, para os tais, deus pode ser tanto uma arma de ataque quanto um instrumento de defesa a depender dos interesses envolvidos e das situações de conflitos. Há ainda em tais grupos o que se alegram mais em supor que o outro esteja errado e por assim dizer vão acabar sofrendo prejuízo no futuro, do que cuidar da própria vida. Em certos casos o prazer da desgraça alheia supera o regozijo da própria recompensa caso houvesse.

Nos casos dos grupos cristãos por exemplo, principalmente os que tem surgido nos últimos 100 anos, para cada um deste que se divide, ou estão interessado na lucratividade fácil e manipulação das massas para os mais diversos tipos de mercados, ou estão acusando um ao outro de heresia, de não possuírem deus, o espirito santo, a verdadeira graça divina, a verdadeira liturgia, de não serem realmente salvos e por esse motivo saem, fundam uma nova igreja, mas em questão de dias repetem tudo que faziam nas igrejas anteriores mesmo tendo saído de lá por julgar tais “doutrinas” erradas.

A maioria dos teístas acreditam ter respostas prontas para todas as grandes questões da humanidade, baseados apenas em pressuposições vãs e incoerentes, mas que de certa forma são interpretadas como alto índice de fé e intelectualidade para os de mesma linha de raciocínio. Geralmente são respostas “enlatadas”, prontas para consumo, não pensadas, apenas repetidas de grupo em grupo, de geração em geração, numa tentativa de responder de forma inteligente utilizando-se de premissas tolas. Os que tem respostas prontas para dar o tempo inteiro baseado em palavras vãs, são tidos como sábios pelos integrantes do grupo, mesmo que tal resposta não passe de uma tremenda baboseira.

Como falsos médicos que não sabem realizar um verdadeiro diagnóstico e fazer a recomendação certa para recuperação seus pacientes, tais pessoas tem praticamente a mesma receita para todo tipo de sintoma, não importa onde esteja doendo ou qual a causa do problema. Tem sempre aquela velha e chata frase que faz “brochar” qualquer tentativa de explicação lógica por parte dos que ainda não foram “zumbizados” pela “química da fé”.

É o fim dos tempos! É por que desobedeceu a deus! É por que não deu o dizimo! É por que não estar indo para a igreja! É por que se rebelou contra o ungido do senhor! É FALTA DE DEUS NO CORAÇÃO...Afff! Essa é a pior e a mais irritante de todas elas! Para não gerar conflitos, em certos casos é melhor nem contra argumentar com os tais. Você vai ficar chateado e não vai fazê-los entender a bobagem que estar dizendo por que a programação mental deles mental fora feito para esse fim.

Baseados nessa parametrização de respostas, vão sempre chegar mesma conclusão dos fatos pois são incapazes de fazerem uso de suas faculdades mentais quantos as diversas causas e efeito de uma mesma situação.

Desse modo, quando uma pessoa cristã comete suicídio logo dizem: “é falta de deus no coração”!

Quando um conjugue cristão, cumpridor dos ritos litúrgicos de sua fé desde o berço, inconformado com a separação conjugal ou por descobrir que foi traído por seu parceiro também cristão, acaba tentando tirar a própria vida ou a vida de quantos sejam possível na ocasião e de imediato seus irmãos de fé dirão: “é falta de deus no coração”!

Bandidos cristãos, alguns até membros ativos de comunidades evangélicas, saem todo dia à caça, a fim de praticarem os mais diversos delitos, e antes de saírem, rezam um pai nosso, fazem o sinal da cruz, sobem ao monte para orar, jejuam ou prometem dar o dizimo de todas as suas “conquistas” quando regressarem da caçada e mesmo assim alguns dirão que a atitude deles é falta de deus no coração mesmo sendo estes praticante das liturgias constantemente.

Políticos cristãos dos mais diversos segmentos inclusive da “bancada dos santos”, tem sido alvo das mais diversas investigações referentes a desvio de verbas e utilização indevida da máquina pública. Nesse caso, as ovelhinhas que os puseram lá e tantos outros dizem que isso é falta de deus no coração.

Tem sido publicado quase que diariamente nas mais diversas mídias sociais, casos de líderes religiosos de batina ou paletó acusados ou flagrados cometendo os mais diversos crimes como pedofilia, adultério, formação de quadrilha, apropriação indébita de bens alheios, transporte de armas e entorpecentes e até de homicídios com ocultações de cadáveres, e muitos para justificar, argumentam que os tais só fizeram isso por “falta de deus no coração” ...

Afinal, quem realmente tem deus no coração? Para que serve esse deus? Ele é um conceito, uma ideia, um título que as pessoas recebem após uma certidão de batismo ou de nascimento em países cristãos, ou é apenas um álibi que serve como suporte toda vez que alguém não quer assumir responsabilidade pelos seus atos?

O que caracteriza realmente os atos de uma pessoa que realmente tem deus, já que cada grupo vive acusando um ao outro de não ter deus? Existe alguma fita métrica que possa “medir o grau de armazenamento de deus” na vida de um sujeito para que assim possam dizer se esse tem ou não deus no coração? É o número de vezes que ele vai a uma igreja? O número de bíblia que esse tem em casa? A função eclesiástica que ele ocupa? O nível de subserviência as lideranças eclesiásticas?

Não importa qual das opções que você escolheu, você provavelmente errou em todas elas segundo o ponto de vista de fé do grupo qual você não estar inserido. Você nunca vai estar agradando a deus segundo a visão da “concorrência”. Você nunca será salvo, você sempre será um desviado, um herege, um filho da perdição... No dia em que decidires mudar de grupo, agora então será tudo isso e mais um pouco para o grupo que você acabou de abandonar. Você sempre será um fracassado e errante enquanto estiver no seu grupo religioso e sempre será um desviado e traidor quando fores para um grupo “mais certo” que o seu. Você sempre vai estar errado para a maioria, e certo apenas para o seu pequeno grupo, não importa o que você faça.

Triste fim dos que entregam suas vidas em submissão total aos representantes do deus bíblico! Do nascimento até a sepultura, confusões, ameaças de morte, promessas de castigo e recompensas será o legado dos tais. Vão nascer, crescer e se reproduzirem fazendo besteiras consigo mesmo e uns com os outros em nome do improvável e do invisível.

Agora vejam: moramos em um país onde quase 90% das pessoas afirmam serem cristãs e mesmo assim, “não ter deus no coração” é a resposta mais escolhida para quem deseja terceirizar suas responsabilidade ou reduzir o outro a nada. Como dito antes, quem acusa outro de não ter deus, indiretamente estar afirmando ser superior ao acusado, do mesmo modo que um antigo primitivo se vangloriava de fazer uso de uma clava para demarcar território e subjugar inimigos!

Parem que está feio! Cada vez que alguém repete argumentos como esses, só deixa claro que sua fé ou o seu deus não tem utilidade nenhuma, são apenas instrumentos de ataque e de defesa para estabelecer domínio sobre outros.

Nesse vasto país cristão, cheio de gente rezando e orando sem parar, cresce a cada dia o número de crimes praticados por cristãos, aumenta-se a população carcerária cristã, e a corrupção nos mais diversos níveis parece ser moda, inclusive em nosso congresso, exatamente por aqueles que jugam ser a nata da santidade gospel no Brasil! Tudo isso tem acontecido apesar de todo dia dezenas de novas igrejas entrarem em funcionamento, centenas de atos proféticos serem impetrados, milhões de bugigangas ungidas serem comercializadas, e dezenas de milhões de pessoas cultuando nas mais diversas horas do dia em igrejas diferentes. Será que não percebem que tem alguma coisa funcionando errado ou que literalmente não funciona?

Se não fosse as poucas pessoas ajuizadas que continuam procurando fazer o bem e a justiça independentemente de estarem sendo ou não supervisionadas por um ser invisível as coisas seriam bem piores.

Muita gente vive o tempo inteiro dizendo: “ENQUANTO DEUS FOR MEU CHÃO, NÃO HÁ QUEM ME DERRUBE”! Acho que ao usarem essa frase, as pessoas querem dizer o seguinte: “Enquanto eu puder pôr em deus a responsabilidade de meus atos, poderei viver de modo irresponsável e eternamente no mundo da fantasia, e para não assumir que fui eu quem fracassei eu uso #DEUSNOCOMANDOSEMPRE#. Pronto! Bonitinho e todo mundo aceita uma frase que tenha deus no meio!

As piores épocas da história humana não foram quando as pessoas “andaram sem deus”, antes sim, foi quando “deus” estava no comando, “dirigindo” as pessoas por meio dos seus representantes.

Para os que tem coragem de “meter a cara” em pesquisas livres de um direcionamento político-eclesiástico proposital, irão perceber que as coisas mais absurdas que as pessoas já fizeram e ainda fazem até hoje não é pela falta de deus, mas por alegarem estarem cheias dele e estarem dispostas a cumprir sua vontade. Parecem que nunca leram na bíblia, que a vontade de deus ou o modo de servi-lo era sempre baseado na truculência e na submissão forçada a ele.

Há pouquíssimos relatos de pessoas que cometeram loucuras alegando estarem cheias do “capeta”, mas diariamente a cada instante, nos mais diversos cantos do globo pessoas são insultadas, humilhadas, excomungadas, menosprezadas, torturadas ou mortas em nome de deus ou a mando dele. Estatisticamente uma pessoa “com deus” é mais perigosa, ou potencialmente agressiva do que uma pessoa “sem deus”. Os que se dizem monoteístas também são mais propensos a intolerância religiosa dos que fazem parte de culturas politeístas.

Finalizaremos esse raciocínio na terceira e última parte desse texto. Fiquem conosco!

CONTINUA...

Texto escrito em 15/11/17

*Antônio F. Bispo é graduando em jornalismo, Bacharel em Teologia, estudante de religiões e filosofia.


Por António Ferreira

domingo, 10 de dezembro de 2017

Da clava à fé: a ideia de deus como arma de ataque e de defesa, PARTE I




Comentários sobre comportamentos sociais 


PARTE I DE 3

*Por Antônio F. Bispo

O mundo mudou, muitas coisas mudaram, mas algumas outras continuam do mesmo jeito. Uma delas é o instinto de sobrevivência, de procriação, de demarcação de territórios e de obter alimentos. No passado, segundo alguns antropólogos, alguns hominídeos usavam a clava, um porrete enorme de madeira como ferramenta de ataque e defesa para obter o que queria. A depender do tamanho do indivíduo e de suas habilidades com a clava, esse objeto poderia ser usado também para subjugar oponentes, conseguir mais esposas, mais territórios, mais alimentos e mais respeito do grupo.

Com o passar do tempo, vário objetos substituíram a clava. Um míssil transcontinental poderia ser o exemplo máximo que alcançamos hoje em dia a esse respeito.

Há porem outras ferramentas que tem sido usada ao longo da história e que tem um poder maior e mais duradouro do que esse antigo porrete de madeira. Com ele também é possível subjugar oponentes, conseguir mais esposas, aumentar territórios, controlar a produção de alimentos, e impor respeito de modo forçado aos outros. O peso dessa ferramenta depende muito da ingenuidade alheia e o efeito do seu impacto varia de acordo com a ignorância de quem recebeu a “pancada”. Quanto mais ingênuo, amedrontado e ignorante for um indivíduo mais efeito surtirá sobre este o peso dessa clave.

Desde quando passamos a viver em sociedades, não possuir determinados objetos ou características físicas, significava não ter sucesso nas conquistas pessoais e nas caçadas em busca de alimentos. Quanto a isso também muita coisa não mudou. Um pênis pequeno e seios minúsculos por exemplo, sempre foram motivos de fazer com que indivíduos ficassem para trás na hora de escolher ou serem escolhidos por parceiros para acasalamento e construção de família. Em nossa sociedade atual, isso pode ser substituído por coisas grandes como carros, casas, iates, mansões (tudo grande) ou muita grana.

Apesar de nossa sociedade se considerar evoluída, ainda há algo que pode causar tanta vergonha nas pessoas quanto não ter um grande órgão reprodutor, seios fartos ou muito dinheiro para compensar tudo isso. Esse algo se chama a falta de fé em deus.

Numa sociedade teísta, acusar uma outra pessoa de não possuir deus é tão humilhante e degradante quanto era dizer no passado que uma mulher era infértil ou que um homem era sexualmente impotente ou incapaz de proteger a própria família.

Desde que a ideia de deus foi apresentada como forma de escapismo ou solução para os problemas pessoais e sociais, todos querem ter deus, por que ter deus é algo simbolicamente bom. Serve como amuleto de sorte, como escudo para se defender dos inimigos e das “recalcadas”. Serve como forma de terceirizar suas responsabilidades e também como uma grande clava, para que do modo mais gentil possível possa-se fazer com que outros indivíduos se submetam a ti e te ofereçam de modo espontâneo parte de todos os seus recursos por tempo indeterminado. Grande evolução da clava, não acham? Uma clava invisível, com efeito capaz de afetar pessoas à longa distancias de espaço e de tempo.

A ideia de deus também é um dos caminhos para aceitação coletiva nas maiorias dos grupos sociais das sociedades ocidentais. Não ter fé em deus é sinônimo de impotência extrema, é algo “broxante” nas relações com pessoas criadas no conceito de fé desde o berço, e o único “viagra” capaz de melhorar essa situação é confessar de modo público que você também tem fé nesse ou naquele ser invisível. Fica mais evidente sua fé se você for capaz de entrar em guerra contra tudo e com todos para defender essa ideia. Isso causa a mesma impressão que aqueles brutamontes causavam ao soltarem urros bater nos peitos. Hoje brigar pela ideia de deus é como um êxtase, que eles costumam chamar de unção do espirito

Nem que você seja um hipócrita, um leviano, um desumano, um desordeiro, um homicida, um pedófilo... não importa se todas as suas falas ou seu modo de vida de modo geral seja antagônico a ideia do sagrado, diga apenas que acredita em deus e tudo se resolve e todos irão te aceitar! Você vai conseguir manter estáveis suas relações com a maioria dos indivíduos mesmo que você seja uma ameaça para a sociedade local. Esse tipo de relação assemelha-se aqueles fetiches entre casais que decidem usar consoles para apimentar suas relações e satisfazer um ao outro só naquele instante. Ambos sabem que na realidade não possuem aquele objeto desejado, mas para um prazer momentâneo entre quatro paredes é o suficiente.

Assim também funciona boa parte das relações teístas: não importa se seu parceiro é o líder do crime organizado, responsável pela execução de centenas de pessoas anualmente e todo o caos social provocado. Não importa se ele é o comandante principal da quadrilha dos engravatados que rouba a nação inteira. Não importa se é um molestador de criancinhas ou estuprador de carteirinha. Se ele disser que crer em deus, tudo fica tranquilo e o sujeito vai dizer: “ah, que bom, ainda bem que você não é ateu”...

Nesse estilo de construção social, a capacidade de acreditar em algo sobrenatural é mais valorizada que as habilidades técnicos cientificas dos indivíduos, e mais valorizada ainda do que o mérito que um indivíduo adquire por sua conduta moral ou por serviços prestados. Tanto é que alguns dos indivíduos mais bem pagos em nosso país usam a fé como clava para subjugar as pessoas e pelo poder dessa clava são bem remuneradas. Alguns grupos até imitam certinho os homens primitivos, produzindo sons guturais e ininteligíveis para se comunicarem em reuniões sociais e expressarem o quanto “estão cheios” de poder do além.

Os tais indivíduos, apesar de viverem na era da comunicação avançada, deixaram de dizer uga-uga como faziam no passado e passaram a dizer xiribicanta, ripalapatrás, e tantos outros sons frutos de glossolalia que nem eles mesmo sabem o que estão dizendo. Algumas “fêmeas” do grupo, até reproduzem uma dança semelhante a danças antigas de acasalamento, batendo cabelo, girando em círculos e soltando urros misteriosos.

Uma clava, uma fé e um alvo a ser atingido. Pessoas modernas, hábitos antigos e os ciclos se repetem. Quando se tinha a intenção de deixar uma pessoa impotente era só lhe tomar a clava. Hoje se quiseres deixar uma pessoa impotente, acuse-o de não ter fé em deus. Ela será obrigada a se retratar publicamente se quiser ter sua vida social de volta, correndo normalmente (hipocritamente).

Para a construção de uma sociedade mais justa e equilibrada, será que realmente ter fé é mais importante que possuir habilidades técnicos sociais e meritocracia? Se é tão importante ter fé, parece que essa tem surtido o efeito contrário pois a desordem crescente entre os que dizem possuir deus não condiz com a fé professada. Por outro lado, é notório que as “tribos” estão em constante conflito, invadindo o “território” uma das outros, usando todo tipo de clavas, para subjugar membros de um grupo para outro. Deve ser pelo motivo de termos entrado na era industrial e tudo pode ser comercializado, inclusive a fé.

Acuse o outro de não ter fé, julgue-o como um perdido e que precisa ser amparado e logo você terá clientes para o seu negócio.

CONTINUA...

Texto escrito em 13/11/17 
*Antônio F. Bispo é graduando em jornalismo, Bacharel em Teologia, estudante de religiões e filosofia.


Por António Ferreira

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Símbolo cristão afinal não é um peixe mas sim, uma vulva.



O ichthys (peixe) em forma de vulva ou o "peixe de Jesus" foi uma vez um proeminente símbolo pagão que representava quase todas as deusas pré-cristãs da fertilidade: Atargatis, Afrodite e Artemis, mas para muitos outros que não seguem este meu raciocínio, então vamos ignorá-los por agora.

O sincretismo cristão precoce evoluiu tomando símbolos pagãos existentes e dar-lhes um novo significado. Um exemplo disso é o da antiga deusa Asherah que foi adorada na Terra Santa durante o tempo dos primeiros israelitas. Karen Garst, editora da Women Beyond Belief, apresenta uma breve história sobre Asherah, a antiga deusa da nova vida, e seu símbolo, a serpente, que troca a sua pele para demonstrar a regeneração.

Assim como com a cobra, o cristianismo assumiu o símbolo da fertilidade pagã ichthys e alterou-o para representar uma religião que, em última instância, promoveu a subjugação das mulheres e as culpou por tudo o que é de errado no mundo.
Adorável!


Artigo completo e fonte: Patheos


À procura do designer







Fazem-me esta pergunta amiúde:


"Bill Flavell, é lógico assumir que não há um designer inteligente, nem mesmo por trás da estrutura de ADN?"

Não assumo que não existe um designer inteligente. É uma possibilidade que eu não descarto completamente. No entanto, não o coloco em cima na minha lista de possibilidades, porque cada um dos milhares de todos esses mistérios que desvendamos até agora, tem sempre uma explicação natural. Então, eu sempre vou procurar uma explicação natural primeiro. Tenho a certeza de que ainda não esgotámos todas as possibilidades e sei que somos muito bons em encontrar explicações naturais.

Claro, você é livre para procurar uma explicação sobrenatural. Embora, honestamente, não sei como você faria isso. Você não pode ter certeza de que há uma explicação sobrenatural para qualquer coisa até que você possa estabelecer que existe um designer sobrenatural. Antes de ter estabelecido isso, logicamente, tudo o que você tem é uma possibilidade.

Como determinaria que existe um designer sobrenatural? Onde você olharia? Como você olharia?

Eu faria uma sugestão; ignore os deuses dos antigos. Os deuses nórdicos, deuses gregos, deuses romanos, deuses babilônicos, deuses sumerios, deuses do Vale do Indo, deuses cananeus e seus derivados do panteão abraçânico. Esses deuses foram fundados sobre ignorância e superstição. Eles usaram fantasia e magia para explicar as coisas do dia a dia e ficaram muito errados. Se você está procurando um super-deus transcendental com inteligência inimaginável, não olhe para dentro do lixo das eras das trevas.

Sugiro que você procure um designer que, até agora, é desconhecido para nossa espécie; Um que concordaria na nossa insistência de que possuir pessoas como escravas é errado e que tratar as pessoas de forma independente, independentemente do seu gênero, etnia, idioma ou orientação sexual, está certo.

Se houver um designer, não espere que ele tenha a moral de um chefe da Idade do Ferro; espero que ele compreenda o universo melhor do que nós. Isso descarta todos os deuses que já ouvimos até agora.

Explica-me como é que chegas aí.


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Pode comparar-se o cérebro com um computador?



Tenho deparado ultimamente, em certos grupos frequentados por crentes, tentativas vãs de comparar o funcionamento do cérebro e o funcionamento de um computador, para tentar validar o Design Inteligente.

A comparação entre o cérebro humano e um computador não é linear e será sempre tendenciosa ou limitada, quando se tenta estabelecer uma relação entre os modos operacionais.

O cérebro humano tem uma ROM genética. É a herança genética que adquirimos através do processo evolutivo. Uma ROM é uma memória só de leitura (Read-Only Memory). Vem já escrita de fábrica e não pode ser apagada.

Mas, a partir do momento em que estabelecemos contacto com informação e estímulos externos (e isso começa a ocorrer ainda no útero, numa altura em que o sistema nervoso central já está desenvolvido), essa informação é armazenada numa espécie de EPROM, mas muito melhor, porque é dinâmica e não requer que seja totalmente apagada para renovar os dados.

Não! O cérebro humano funciona como um intermédio entre EPROM e RAM, alterando a base de dados e inclusivamente alterando o motor de inferência que analisa esses dados.

É "programação dinâmica e auto-modificável", e isso NÃO EXISTE nos computadores (ainda!).

(Para entenderem bem, uma EPROM é uma Erasable Programmable Read-Only Memory. Uma espécie de ROM que pode ser apagada, re-escrita, mas que mantém os dados mesmo quando falta a energia.

E uma RAM é uma memória de acesso aleatório (Random Access Memory), pode ser lida, escrita e apagada à vontade, mas não resiste a uma falha de energia.)

Quando uma criança vê água e brinca com ela, não faz a menor ideia do que é composta, nem como reage a diversas situações.

Não sabe que não é compatível com a electricidade e que pode enferrujar ou mesmo estragar certos materiais.

Por isso é que a minha filha estragou uma boneca que falava porque decidiu dar-lhe banho.

Mas, conforme cresce, vai conhecendo certas características da água, seja por transferência de conhecimentos (alguém lhe explica), seja por empirismo (faz algo e observa o resultado).

A sua "base de dados" acerca da água cresce e altera-se. Coisas que tinha como certas podem ser "corrigidas" através desse conhecimento novo e o que tinha como certo passa para a "zona das memórias" que podem ser acedidas como referência anedótica.

A partir do momento em que a "base de dados" da água vai sendo alterada, o cérebro cria "atalhos" e algumas coisas passam a ser automáticas, como o facto de associar rapidamente a água a más experiências com electricidade e reagir quando se detecta que as duas vão entrar em contacto.

Isso um computador não faz. É um instrumento pragmático com dados e processos de manipulação de dados que não são adaptáveis. Os dados podem ser alterados numa base de dados dinâmica, com acesso aleatório, com grafos, com indexação variável, etc. Mas o programa que processa esses dados NÃO MUDA.

E no cérebro, sim. De facto, pode-se dizer, para quem percebe de programação, que a "programação interna" do cérebro lida com uma versão glorificada de "programação orientada para objectos", em que dados e processos são quase indistinguíveis, sendo todos eles altamente dinâmicos e auto-alteráveis.

Quando um ser humano aprende que 1+1=2, não tem de refazer a operação sempre que se depara com o mesmo problema. Passa a ser automático. O cérebro cria um atalho.

Mas o computador, quando tem de executar um programa simples como:




Tem de executar as operações 1+1 em todas as 1000 iterações.

SEMPRE!!! Não "aprende" que 1+1=2 e simplesmente imprime 2 sem fazer as operações.

Daí se retira que a comparação entre o modo como um computador funciona e o modo como um cérebro funciona, seja uma comparação sem fundamento.

Ainda sobre o exemplo da água, a capacidade de abstracção do cérebro leva a que seja possível criar regras novas por extrapolação ou interpolação de dados e regras. Quase como que um algoritmo de análise silogística não servisse apenas para tirar conclusões, mas também para criar premissas novas.

Coisas como: se a água é incompatível com a electricidade e a água é um líquido... provavelmente todos os líquidos são incompatíveis com a água.

Foi esta capacidade de abstracção e de relacionar objectos e reacções distintas que nos permitiu sobreviver e evoluir.

Todos os nossos antepassados que não demonstravam, mesmo que básica e primitivamente, estas capacidades, tinham uma desvantagem de sobrevivência em relação aos que a demonstravam.

Portanto, a probabilidade de morrerem antes de reproduzirem os seus genes era maior. Esses genes "maus" começaram a desaparecer ou a tornar-se recessivos.

Os nossos antepassados que demonstravam essa capacidade de interligar informação, tinham uma maior probabilidade de sobreviver e transferir os seus genes, tornando-os dominantes.

Simples.

Por Rui Batista

domingo, 3 de dezembro de 2017

Era Jeová/Yahweh um deus para todos?





Yahweh/Javé/Iavé/YHWH (Jeová) era o deus dos israelitas. Ele disse que eles eram os seus eleitos e fez uma aliança com eles que duraria para sempre. Ainda fez milagres para eles, apareceu diante deles, fez-lhes leis, aconselhou-os, ajudou-os e repreendeu-os quando necessário. Invariavelmente, se Jeová mencionou outros povos, não era porque os amava, mas sim porque ele queria que eles fossem mortos ou punidos.

Para o período de cerca 1500 AEC a cerca 450 AEC que é coberto pelo Antigo Testamento, há pouca ou nenhuma indicação de que Jeová jamais pretendeu ser mais do que o deus dos israelitas.

Então, apareceu Jesus com uma história diferente. Ele disse que ele era o deus do mundo inteiro. Ele também disse que trouxe a salvação e a vida eterna, ou a condenação eterna, para todos. E ele disse que nos ama todos.

Qual é o problema aqui? Se Jeová sempre quisesse ser o deus de todos, por que razão ele escolheu e ficou com os israelitas, como uma abelha numa panela de mel por 1500 anos? Por que razão ele esperou 1500 anos depois de se apresentar a Abraão e antes de enviar o seu filho para dar salvação a todos? Ele condenou arbitrariamente os milhões que viveram durante esse período antes de Jesus ir para a condenação (para não falar sobre os inúmeros milhões que viveram antes de Abraão)?

As pessoas têm lutado durante séculos para encontrar um raciocínio convincente para essas histórias, mas na verdade não é assim tão difícil perceber. A explicação mais simples é que Jeová era o deus local dos israelitas (emprestado e adaptado do panteão cananeu, se os historiadores da antiguidade estiverem certos). Os israelitas (judeus) não tinham intenção de compartilhar Jeová com ninguém, pois ele era O SEU protetor e legislador.

Então, um pregador judeu começou a pregar "virar a outra bochecha" e rejeitou a filosofia do olho por um olho de Jeová. Ele pregou a salvação, o céu e o inferno, coisas que Jeová não achou dignas de menção! É claro que Jesus era um judeu que pregava aos judeus, por isso não podia rejeitar o seu deus. Em vez disso, ele ou os seus seguidores fizeram uma conexão audaz: eles disseram que Jesus era nada menos, nada mais que o filho de Deus!

À medida que o cristianismo crescia, ele se distanciou do judaísmo e tornou-se uma nova religião por direito próprio e que adora Jesus, mas nunca esqueceu completamente a relíquia emprestada dos judeus conhecida como Jeová. O deus-fantasma cananeu vive hoje no coração de mais de 2,2 mil milhões de cristãos.

Essa explicação faz todo o sentido ou tens uma qualquer melhor? 


Traduzido e adaptado de Bill Flavell

sábado, 2 de dezembro de 2017

É o Universo planeado?



Os crentes gostam muito de aludir à aparente harmonia e ordem do cosmos e dos ecossistemas para remeter para um "arquitecto universal" que seria o seu deus.

Os processos naturais explicam tudo muito bem.
Não há necessidade de um "planificador".

Milhões de anos de evolução explicam perfeitamente tudo o que temos actualmente.
Inclusivamente a aparente harmonia das órbitas planetárias, das galáxias, de todo o universo.

Pois, mas o universo NÃO É ORGANIZADO.

O universo é, fundamentalmente caótico (estranho, pois usualmente se usa a palavra "cosmos" para designar o universo e a palavra "cosmos" é o contrário de "caos").

Mas sim, o universo é fundamentalmente um lugar caótico que meramente respeita as leis naturais.

Não há nada que impeça que, a qualquer momento, uma super-nova exploda e se, por pura coincidência, estivermos no caminho da sua "onda de choque", podermos desaparecer totalmente em poucos segundos.

O universo não é consciente, não é intencional.

É o que é, e segue leis naturais da física e da química.

Nem as órbitas planetárias são projectadas.

São aquilo que se formou e que, por razões puramente naturais, resultou.

Planetas (que se formam por efeito da gravidade a partir de um disco de acreção de material que circunda uma estrela) que tenham pouca massa e uma órbita muito acelerada, são projectados para fora de um sistema solar. Os que têm uma massa muito elevada ou uma velocidade de escape muito lenta, vão sendo puxados pela estrela (ou disputados entre duas ou mais estrelas pois a maioria dos sistemas solares são binários ou ternários) e são "engolidos".

Ou desfazem-se (como foi o que aconteceu com um planeta do nosso sistema solar que se desfez e se tornou o cinturão de asteróides que existe entre Marte e Júpiter).

Portanto, o que existe actualmente, são os SOBREVIVENTES.

Nada os colocou propositadamente em órbitas harmoniosas.

Simplesmente foram os que sobraram e agora estão em aparente equilíbrio.

Caros crentes, não confundam casualidade com causalidade só porque têm um cérebro que evoluiu para conseguir detectar padrões de uma forma particularmente eficiente.

O cérebro humano tenta encontrar padrões e ordem mesmo onde não existe nenhuma. Faz parte do modo como funcionamos.

E é por isso que tentam arranjar justificações para tudo.

E quando não conseguem arranjar uma razão lógica que podem comprovar, o vosso cérebro abre uma excepção e aceitam uma explicação ilógica e intestável para conseguir deixar-vos em paz.

E é só isso. :-)


Por Rui Batista

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Crentes, apresentem um deus!



Os crentes afirmam que deus faz isto, faz aquilo, diz isto, diz aquilo, pensa isto, pensa aquilo, foi o responsável por A ou B.

E influenciam o mundo, e agem perante o mundo com base nessa crença de que deus existe, é consciente, é intencional e é interventivo.

E essas pessoas ensinam aos filhos a acreditar no mesmo... SEM PROVAS!!!

E ensinam aos filhos que acreditar é melhor que saber.

E ensinam aos filhos que se não acreditarem terão um castigo póstumo.

E ensinam aos filhos que há uma vida melhor depois de morrerem.

E mata-se em nome da religião.

E colocam em causa avanços científicos em nome da religião.

E mutilam genitalmente crianças em nome da religião.

E negam tratamentos médicos (remédios, transfusões de sangue, cirurgias, etc) em nome da religião.

E marginalizam minorias em nome da religião.

E maltratam pessoas pelas suas características sexuais em nome da religião.

E morrem pessoas a aguardar por uma cura pela fé por causa da religião.

Persegue-se a liberdade de expressão em nome da religião.

Há tratamentos de excepção, incluindo benefícios fiscais, por causa da religião.

Há tentativas de alterar currículos escolares em nome da religião.

E mais podia ser dito, principalmente se eu enunciasse casos específicos, em vez de me limitar a generalizar.

Acho que perante tudo isto, seria de bom tom dos crentes, ao menos conseguirem demonstrar que o ponto central de todas as religiões - UM DEUS - ao menos existe mesmo.

Porque, se não existe, então todas estas coisas estão a acontecer por pura maldade humana.

Fazem isto tudo em nome de deus? Então apresentem um deus.

Parem de usar desculpas e argumentos armadilhados e APRESENTEM UM DEUS.

Enquanto não o fizerem, não passarão de crianças adultas a brincar com um amigo imaginário que lhes foi ensinado acreditarem quando eram crianças e não sabiam distinguir a fantasia da realidade, tornando-se depois adultos que continuam a não saber distinguir a fantasia da realidade.

Só que, em adultos, têm uma maior capacidade para inventar desculpas para justificar aquilo que não conseguem justificar de forma racional... porque não existe.


Por Rui Batista

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Sim, há mais crentes que ateus. Mas a minoria é mais inteligente.



Os crentes gostam muito de referir que existem muitos mais crentes do que ateus, recorrendo assim à falácia do "ad populum".

Há de facto mais crentes do que ateus, mas o que se passa é que a esmagadora maioria das pessoas que existem no mundo são particularmente estúpidas.

Pode-se fazer uma experiência simples. Escolhendo qualquer grupo de pessoas (os habitantes de uma cidade, os habitantes de um país, os hóspedes de um hotel, os alunos de uma turma, uma equipa de futebol, etc) e avaliando o QI de todos, há sempre menos pessoas com um QI particularmente algo, sendo que a maioria terá um QI médio ou abaixo da média.

Ou seja, os inteligentes são sempre a minoria.

Por isso é que estudos efectuados ao longo de décadas demonstram que as pessoas mais inteligentes demonstram uma maior tendência para o ateísmo.

Por isso também há tantos crentes, comparado com o número de ateus.


Por Rui Batista

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Erros e besteiras sobre o Big Bang




Introdução:

Há entre o público em geral um profundo desconhecimento sobre o que de fato significa a Teoria do Big Bang.

O principal problema está logo na leitura do enunciado da Teoria. As pessoas em geral leem que a Teoria se baseia na observação objetiva e clara de que o universo está em expansão em todas as direções.

As galáxias se afastam umas das outras em velocidades alucinantes.

Logo, tem que ter havido um tempo em que todo o universo estava concentrado no espaço de uma única galáxia.

Como não há NADA que impeça imaginarmos o processo continuando, temos de concluir que houve um tempo em que todo o universo estava concentrado no espaço de uma única estrela.

E assim por diante, temos de concluir que houve um tempo em que o universo inteiro estava concentrado num único PONTO.

A esse PONTO, o astrônomo e sacerdote católico Georges Lemaître deu o nome de “átomo primordial”. Nele estaria concentrada TODO o universo. Ponto final.

Isso em nenhum momento implica que o “átomo primordial” tenha “vindo do nada”, “sido criado por Deus” ou “vindo de outro universo”. A Teoria não pode prever nada disso. Será que isso ficou claro?

Então por que será que após ler essa descrição tão objetiva, as pessoas passam logo a fazer afirmações das mais estranhas e sem nexo? Isso é realmente um mistério para mim.

1 – O conceito filosófico de “Nada”.

O que é o “Nada”? Parece uma pergunta simples, mas na verdade não é.

Há várias definições filosóficas para o que seja o Nada, quase todas confusas.

Vamos tentar uma abordagem mais simples:

Imagine um lugar no espaço em algum tempo determinado. Imaginou?

Agora vá tirando TUDO o que tem lá. Tire os elementos sólidos, os líquidos, os gases, as radiações de todo tipo e no final retire até mesmo o tempo e o espaço. Isso seria o NADA.

Então o Nada existe? Na verdade, a resposta é NÃO. Simplesmente não existe uma forma de fazer o que eu descrevi. Não se pode tirar TUDO de algum lugar ou tempo. SEMPRE irá sobrar alguma coisa.

É o mesmo que o “número infinito”. O que é esse número?

Imagine um número MUITO grande. Imaginou? Ele é o “número infinito”?

NÃO. E por que não? Porque dado qualquer número, por maior que seja, sempre posso acrescentar a ele +1. E a esse +1 e assim eternamente.

Com o Nada é a mesma coisa. Sempre que você imagina o Nada, poderá pensar em lhe TIRAR mais alguma coisa. Daí não haver de fato um Nada de forma objetiva.

2 – A confusão de Krauss.

Lawrence M. Krauss é um físico e cosmólogo brilhante. Seu livro ““Um Universo que veio do nada: porque há criação sem Criador” foi um grande sucesso. Mas contem uma enorme “barbeiragem” em termos de filosofia.

O Krauss identificou o “Nada” dos filósofos como sendo algo parecido com o “Design Inteligente” dos criacionistas. De fato, ele diz no seu livro:

“O “design inteligente” é simplesmente um guarda chuva unificador para fazer oposição à evolução. Do mesmo modo, alguns filósofos e muitos religiosos definem e redefinem o “nada” como nenhuma das versões que cientistas descrevem atualmente” [1].

Como vimos anteriormente, essa não é a definição filosófica do “Nada”. Além disso, ele não se deu conta de que o conceito de “Creatio Ex Nihilo” (criação do nada) não está na Bíblia. É uma invenção de teólogos gregos para explicar o paradoxo de a matéria ser eterna juntamente com Deus. Se a matéria é eterna (como acreditavam os filósofos gregos) então não precisou ser criada. Não deve sua existência a Deus. Isso não parecia aceitável para aqueles piedosos doutores da Igreja.

Então o Krauss decidiu provar que o “Nada é alguma coisa” e “O nada é instável” respectivamente os títulos dos capítulos 9 e 10 do seu livro.

Isso se deve a uma forma de pensar um tanto estranha, ele escreveu:

“Claramente, o “nada” é tão físico quanto o “algo”, principalmente se for definido como a “ausência de algo”. Então cabe a nós entender exatamente a natureza física de ambos, E, sem a ciência, qualquer definição são apenas palavras” [2].

Esse é um erro em termos de filosofia. É como dizer que o número infinito de fato existe e pode ser definido de alguma forma como sendo um número inteiro e racional.

Em outras palavras, ele acabou por abrir uma enorme brecha para as críticas dos religiosos de que ele e outros “cientistas ateus” defendiam que o “universo veio do nada”. A inconsistência dessa abstração dos teólogos acabou se virando contra ele!

Não podemos dizer que o “Nada” é “físico”, lhe dar vários atributos e esperar que ele continue a ser nada...

3 – O que é afinal o BIG BANG?

A Teoria do Big Bang se baseia em algumas ideias relativamente simples e objetivas. Todas elas fruto de observações e matemática e não de especulação ou devaneios.

Há séculos se discutia se o universo era estático, ou seja, sempre foi do jeito que é, ou não.

Toda a Teoria da Gravitação de Isaac Newton se baseia em um conceito de universo estático. Esse universo seria assim desde sempre e o seria para sempre.

Como surgiu? Como Newton e seus amigos não queria “pagar de ateus”, desenvolveram o que se chamou de “deísmo”. O universo é uma espécie de relógio mecânico muito preciso e que surgiu a partir de um “Criador” que só o pôs para funcionar, mas depois se afastou e ninguém mais soube dele. “Se subiu, ninguém sabe, ninguém viu...”

Essa visão de mundo se manteve até Albert Einstein desenvolver a Teoria da Relatividade e escrever certas equações que lhe dão uma bela sustentação matemática.

Mas foi aí que surgiram dois caras muito chatos. Um era o russo Alexander Friedmann e o outro o padre católico Georges Lemaître. E o que foi que eles fizeram?

Bom. Eles pegaram as equações de Einstein e lhe colocaram ‘valores extremos” para ver se elas lhes podiam dizer sobre o passado do universo. E o resultado foi surpreendente:

Segundo as equações, o universo não era estável, mas tinha surgido de algum ponto inicial e se expandia constantemente. O padre até inventou um nome legal para o começo do universo: O “átomo primordial”.

A ideia parecia doida? Para Albert Einstein parecia. Ele disse aos dois que esquecessem o assunto porque estava desenvolvendo uma nova teoria que “explicaria” que o universo de fato era estável.

Depois ele publicou seu trabalho sobre a “Constante Universal” que resultaria que certas forças que equilibrariam a força da gravidade e manteriam o universo, belo e formoso, sempre estático.

Mas aí surgiu um cara mais chato ainda. Ele se chamava Edwin Hubble e, mesmo sem saber nada sobre o russo e o padre chatos, descobriu que todas as galáxias estavam se afastando umas das outras.

Como ele fez isso? Você já teve ter percebido que se uma ambulância ou carro de polícia passa por você, o som da sirene parece mais agudo quando ele vem e depois vai ficando mais grave quando ele se afasta.

Isso acontece porque quando ela se aproxima, as ondas sonoras se somam a velocidade do carro e quando se afastam se subtraem. Isso é chamado de “Efeito Doppler” e você já aprendeu isso com a Tia no ensino fundamental.

O efeito também acontece com a luz. E no caso, o que está se aproximando vai ficando mais azul e o que se afasta mais vermelho. É o “desvio para o vermelho”. E o nosso amigo Hubble descobriu que isso acontecia com todas as estrelas de todas as galáxias. Só podia haver uma conclusão: As galáxias estavam todas se afastando umas das outras.

E se é assim agora, então no passado tinham de estar todas juntas, na verdade muito juntas, exagerando, tinham de estar tão juntas que toda a massa e toda a energia do universo tinham de estar num único ponto “infinitamente denso e quente”.

Isso provou que o russo e o padre estavam certos e o bom professor Einstein estava errado. Isso é a Teoria do Big Bang.


4 – Um filme passado de trás para diante.

Outra forma de explicar o Big Bang é imaginar que estamos vendo a expansão do universo “de fora” dele. E não só isso, estamos vendo o processo todo acontecer ao contrário, de trás para diante, como num filme rodando do fim para o começo.

O que veríamos? Bem, as galáxias agora estão se aproximando umas das outras.

Num dado instante elas acabam por se entrelaçar e as estrelas começam a colidir umas com as outras formando objetos cada vez mais massivos.

Uma coisa interessante e muito importante é que a MASSA e a ENERGIA do universo permanecem a mesma. Embora a massa e a energia de vários corpos celestes se fundam e se transformem, a quantidade total de massa e energia permanece sempre a mesma.

Nosso filme ao inverso será um espetáculo espantoso de compressão de tudo o que existe em objetos cada vez menores e cada vez mais massivos. O volume do universo se reduz de forma dramática, mas sua densidade vai aumentado. A energia se condensa, mas a temperatura geral também vai aumentando.

Num dado momento mesmo os átomos se fundem em aglomerados de partículas subatômicas (qharks, elétrons, neutrinos e suas partículas) de onde nem os fótons mais conseguem escapar. Daí em diante não poderíamos ver mais nada.

Isso não significa que o universo tenha “virado nada”. Não. Ele estaria todo concentrado em algo que o Georges Lemaître chamou de “Átomo primordial”. Trata-se de “uma única partícula maciça de densidade infinita”. [3].

“Uma extrapolação da expansão do universo no passado, usando a relatividade geral, produz uma densidade e uma temperatura infinitas em um tempo finito.” [4].

Ou seja, em nenhuma das narrativas sobre a Teoria do Big Bang se diz que o universo “veio do nada”. Até porque como vimos no nosso “filme ao contrário”, é a própria MATÉRIA do universo que se junta de forma a formar o tal “átomo primordial”.

E é essa mesma MATÉRIA que se expande numa grande “explosão” ou, segundo teorias mais recentes, “inflaciona” de forma espetacular.

Visto isso, vamos deixar de uma vez por todas com essas afirmações descabidas de que o Big Bang é uma teoria que prevê que o universo “veio do nada”. E pior ainda que foi “criado” por algum “ser superior”. A Teoria, como vimos, não tem nada a ver com isso.




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[1] “Um Universo que veio do nada: porque há criação sem Criador” / Lawrence M. Krauss – São Paulo: Paz e Terra, 2013. Página 12.
[2] Idem, inclusive a página.
[3] “Teoria do Big Bang” – Toda Matéria.
[4] “Big Bang” – Wikipédia.